Lunes, 10 de Agosto de 2026

Mercado halal se abre ao brasil para além das ‘commodities’

BrasilO Globo, Brasil 9 de agosto de 2026

O Brasil consolidou sua posição como o maior exportador mundial de alimentos halal, ...

O Brasil consolidou sua posição como o maior exportador mundial de alimentos halal, palavra árabe que significa "permitido" ou "lícito" para consumo pela população islâmica, calculada em 2 bilhões de pessoas no mundo. Entre os produtos brasileiros destinados à população muçulmana, pelo menos 90% equivalem a commodities, especialmente carne bovina e frango, além de açúcar, milho, café e trigo, que renderam US$ 33 bilhões à balança comercial no ano passado. Agora, o país começa a acelerar em novas frentes no mercado halal. São produtos industrializados, como biscoitos, chocolates, laticínios, massas, bebidas não alcoólicas e até mesmo polpa de açaí e pão de queijo, itens com alto potencial de venda e maior valor agregado.
" Ao analisar os US$ 33 bilhões isoladamente, realmente é um grande número. Mas considerando que o mercado halal de alimentos movimenta US$ 1,5 trilhão por ano, com estimativa de chegar a US$ 2 trilhões em 2029, é apenas uma gota e mostra que há muito mercado a ser explorado pelo Brasil exportando produtos processados " diz Mohamad Orra Mourad, vice-presidente de Relações Internacionais da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
No ano passado, considerando itens industrializados halal como sorvetes, biscoitos, sucos, massas, queijos, mel e leite, o Brasil exportou menos de US$ 30 milhões para os 57 países da Organização para a Cooperação Islâmica (OCI), o que mostra o potencial de crescimento.
Segundo relatório do biênio 2024/2025 divulgado pela consultoria americana DinarStandard, o mercado total de produtos halal já gira US$ 2,6 trilhões por ano, com um crescimento de 7% em 2025 e expectativa de chegar a US$ 3,5 trilhões em 2029.
O segmento de cosméticos halal é estimado em US$ 92 bilhões por ano, enquanto o turismo gira US$ 249 bilhões, e a moda, US$ 347 bilhões. Já o setor farmacêutico movimenta outros US$ 122 bilhões. O relatório inclui os mercados de nações como a Rússia (cerca de 14 milhões de muçulmanos) e a China (20 milhões), além dos 57 países membros da OCI, considerando Ásia, África e Oriente Médio.
Mourad lembra que a presença do Brasil nos demais setores citados pelo levantamento ainda é muito tímida. Ele observa que os segmentos de vestuário e cosméticos, nos quais o país se destaca, têm grande apelo entre os muçulmanos, e a indústria farmacêutica nacional é avançada e pode escalar nesse mercado. Atualmente, no Brasil, o setor halal gera cerca de 1,9 milhão de postos de trabalho, diretos e indiretos.
1 milhão de refeições
A Costelata, uma empresa brasileira de carnes prontas com 100 funcionários e sede em Três Rios (RJ), obteve a certificação halal em maio. Ainda em crescimento, a companhia foi procurada por um fundo árabe interessado em comprar um milhão de latas de uma refeição completa (do tipo ready meal).
" Foi um pedido para desenvolver um produto personalizado. Estamos terminando os testes, e as vendas devem começar até o final deste ano " diz Gabriela de Lamare Lopes, gerente comercial da Costelata, lembrando que as receitas aprovadas incluem picadinho de coração bovino com soja e carne moída com grão de bico, entre outros, refeições que serão vendidas enlatadas.
A empresa, que tem em seu portfólio itens como costela bovina, carne seca e frango desfiado, também se prepara para produzir lotes desses produtos com certificação halal para exportação.
A denominação halal refere-se a todo produto ou serviço que é considerado lícito de acordo com as leis estabelecidas no Alcorão, o livro sagrado do Islã. Para receber a certificação, deve ser produzido de forma rigorosa, sem vestígios de álcool ou de carne de porco. No caso de alimentos, a produção deve evitar qualquer tipo de contaminação cruzada, o que significa que produtos halal não podem entrar em contato com itens que não possuam a certificação.
Os cosméticos também devem ser fabricados sem o uso de álcool ou derivados de origem suína em sua composição. Isso exige uma rastreabilidade completa da cadeia produtiva, desde a origem dos insumos até o processamento final. Com a maior digitalização dos processos de rastreamento, a venda de itens industrializados halal tende a crescer. O Brasil já viu um salto no número de categorias de produtos halal exportados, que passou de 190 para 343 nos últimos dois anos.
Força da Amazônia
Um diferencial estratégico do Brasil é a linha de produtos amazônicos, como o açaí, que já é um caso de sucesso no Oriente Médio, abrindo caminhos para outros itens como castanha-do-pará, cupuaçu e óleos vegetais. Ali Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), entidade que promove a cultura islâmica e lidera a certificação halal no país, lembra o "boom do açaí", principalmente na Península Arábica, em parte da África e em alguns países da Ásia. Ele cita ainda itens como o pão de queijo e o colágeno, utilizado na fabricação de doces na Turquia.
" Na Fambras, há cinco anos, tínhamos 130 empresas com certificação. Hoje, estamos beirando 700 companhias, que entenderam que o halal é um mercado muito promissor " diz Zoghbi.
A Amazon Frutas, que distribui frutas exóticas da Amazônia, já tem certificação, e a fabricante de sucos Natural One possui selo halal em sua linha de produção na fábrica em Jarinu (SP) desde 2018, depois de parcerias com Malásia e Indonésia (o país com a maior população muçulmana do mundo).
Em São Paulo, o Sheraton WTC recebeu da Fambras a certificação halal e tornou-se o primeiro hotel do país nessa categoria, pioneiro no turismo muslim-friendly. Foram feitas ações como a indicação nos quartos da direção de Meca (cidade mais sagrada do islamismo), para onde os muçulmanos se voltam para orar, a retirada de álcool do frigobar e cardápios específicos com alimentos halal. São mudanças simples que podem atrair viajantes de alto poder aquisitivo, diz Zoghbi.
Mesmo diante de desafios geopolíticos e logísticos no Oriente Médio, como a guerra entre Estados Unidos e Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz, foram criadas rotas alternativas para manter o abastecimento dos alimentos halal via Mar Vermelho. Depois, os produtos são levados por terra para diferentes países. Em março e abril, caíram as vendas brasileiras para o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG), integrado por Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã, mas em junho avançaram 1,25% na comparação anual, totalizando US$ 758,14 milhões, segundo a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
" A carga atravessa o Canal de Suez, os contêineres são desembarcados no porto de Jedá ou Damã, por exemplo, na Arábia Saudita, e seguem por caminhões ou navio para os países do Golfo. Custa mais caro o frete rodoviário que o marítimo, mas essa jornada é reduzida em sete dias. Essas rotas alternativas devem permanecer " diz Mourad.
Em tempos de tarifaço dos Estados Unidos sobre os produtos brasileiros, com impacto negativo nas exportações, diversificar mercados é a opção citada por especialistas para ampliar as vendas.
Algumas das maiores produtoras de proteína do mundo, grandes empresas brasileiras disputam a liderança do mercado halal no Oriente Médio, com investimentos bilionários em fábricas locais não só para atender à demanda regional, mas também para transformar a região em um hub global de exportação de alimentos processados que seguem os preceitos islâmicos.
Sadia Halal e JBS
A MBRF, presente na região há décadas, deu um passo importante em outubro de 2025 com a criação da Sadia Halal, uma joint venture com o Fundo de Investimento Público (PIF) saudita. A nova empresa é avaliada em US$ 2,07 bilhões e controla ativos que incluem fábricas e centros de distribuição na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos.
Atualmente, a MBRF opera três unidades industriais de carne de frango localizadas em Kezad (Emirados Árabes), Damã e Al Jubail (Arábia Saudita). Está em construção em Jedá uma nova planta de processados com investimento de US$ 160 milhões e capacidade para 40 mil toneladas anuais. A unidade de Kezad teve sua capacidade ampliada de 75 mil para 90 mil toneladas/ano. A MBRF também envia 70 mil toneladas mensais de carnes de frango e bovina para a região, para complementar a produção local.
A JBS, por meio da marca Seara, anunciou este ano um investimento de US$ 150 milhões em Omã para criar uma plataforma multiproteínas em parceria com a Oman Food Capital. A unidade terá capacidade para processar anualmente 300 mil toneladas, incluindo aves, cordeiros e bovinos. A JBS tem três operações industriais nas cidades sauditas de Damã e Jedá e em Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes. Em Jedá, a fábrica de 41 mil metros quadrados deve duplicar sua produção até o fim de 2026, atingindo 30 mil toneladas.
Na sexta-feira, a empresa anunciou uma joint venture com o Danantara, braço de investimentos do fundo soberano da Indonésia, que reunirá todas as operações da JBS na Austrália e na Nova Zelândia. O fundo ficará com 25%, aportando US$ 2,5 bilhões.
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