Domingo, 09 de Agosto de 2026

Dez anos após ouro olímpico, bruno schmidt se dedica ao direito e à paternidade

BrasilO Globo, Brasil 9 de agosto de 2026

uma nova conquista

uma nova conquista
Na areia da Praia de Copacabana, Bruno Schmidt realizou, há uma década, o sonho de todo atleta de alto rendimento: conquistou a medalha de ouro olímpica em meio à euforia da torcida brasileira, ao lado do parceiro Alison no vôlei de praia. Mas, ainda que aquele momento tenha marcado de forma arrebatadora sua trajetória, não se compara ao prazer que o agora ex-atleta sente hoje, aos 39 anos, explorando suas duas novas "carreiras": a de advogado e a de pai dos gêmeos Luiz Felipe e Luiz Miguel.
Multicampeão e duas vezes eleito o melhor jogador do mundo, Bruno reserva à memória os momentos extraordinários vividos dentro das quadras. Sua grande ambição hoje é tocar uma "vida normal", que envolve acordar às 4h da manhã para acompanhar a rotina dos filhos de 1 ano e participar de audiências virtuais.
" Botar uma medalha de ouro olímpica no pescoço de um atleta em que poucos acreditavam tem um peso enorme. Mas, se eu chegar ao juízo final e me perguntarem que momento da minha vida gostaria de reviver, sem dúvida diria que é o de hoje, o de pai " reflete. " Não o trocaria por nada.
VIDA EM HOME OFFICE
Bruno se formou em Direito antes mesmo de encerrar a carreira de atleta, em 2023. Assim que anunciou a aposentadoria, foi procurado por amigos advogados que o instaram a apressar a transição profissional. E decidiu mergulhar de cabeça.
Iniciante na advocacia, teve que pegar os casos nos quais "ninguém queria se envolver" e especializou-se na área criminal. Mas ao se deparar com temas pesados, como abusos sexuais, percebeu que não teria "estômago" e decidiu recalcular a rota. Hoje, atua nas áreas civil e administrativa:
" Saí do mundo maravilhoso do esporte para encarar um mundo pesado. É legal, mas às vezes me faz sentir saudade da fase jogador. Atleta reclama de cansaço e distância da família, mas a vida de adulto é estressante.
Por outro lado, como a maioria das demandas do trabalho pode ser resolvidas em home office, ele tem mais tempo para curtir o desenvolvimento dos filhos e aproveitar a vida com a mulher, a executiva de negócios Laís Schmidt, em Vila Velha (ES), onde moram num apartamento de frente para a Praia de Itapuã.
Quando diz que por vezes sente falta do vôlei de praia, Bruno não se refere à fase áurea, de títulos e pódios, e sim ao início de sua trajetória, ao lado do pai, Luiz Felipe, hoje com 63 anos e irmão do jornalista Tadeu Schmidt e da lenda do baquete Oscar, que morreu em abril. Apesar de familiar, a dupla não era melosa, e as cobranças eram intensas.
" Ele jogava muito bem. Era forte, alto (1,92m), com barriga com gominho... Poderia estar com qualquer dupla. Nós chegamos a liderar o Circuito Brasiliense, ganhamos diversas competições no Espírito Santo, para onde nos mudamos, tínhamos destaque estadual " conta Bruno sobre a parceria com o pai, que hoje é atleta amador de golfe.
Quando o filho colocou na cabeça que queria ser o melhor do mundo, porém, a diversão sumiu. Vieram os incontáveis compromissos e as duras abdicações. Bruno, então, entendeu que havia furado a "bolha do desempenho" e que era preciso seguir em frente. Estava determinado a ser bem-sucedido.
" Vivi um bocado nessa bolha da performance. Colhi os frutos, mas não era prazeroso " admite.
DESAFIO NA PANDEMIA
A transformação de mentalidade de Bruno, em busca de uma vida mais tranquila, começou há cinco anos, justamente quando ele se viu sob o risco de perdê-la. Em 2021, enfrentou complicações da Covid-19 e, no momento mais crítico da doença, teve mais de 70% dos pulmões comprometidos. Ali, projetou "as piores situações", admite.
Ao sair do hospital, declarou ser contra a realização dos Jogos de Tóquio-2020, adiados em um ano, com o argumento de que havia desigualdade na preparação dos atletas, uma vez que cada um viveu a quarentena de um jeito diferente. Também foi crítico à celebração com o mundo ainda "de luto".
" Saí da cama para uma Olimpíada. Tive quatro meses para me recuperar, e a minha própria equipe queria me substituir. Não levo para o lado pessoal. Cheguei lá e perdi na bola " diz Bruno, que foi até as oitavas de final ao lado de Evandro e ainda sustenta a opinião. " Eu havia sobrevivido. Também fiz foto com aquela plaquinha "eu venci a Covid", como outros brasileiros, ao sair do hospital. Mas em nenhum momento, durante a internação, pensei na Olimpíada. Pensava na minha família e que, se morresse, não deixaria herdeiros. Senti um medo verdadeiro ali que me arrepia até hoje.
Bruno anunciou sua primeira aposentadoria pouco tempo depois dos Jogos, em setembro, quando fez uma cirurgia no joelho direito para tratar dores crônicas e evitar rupturas ligamentares. Mas, incentivado por familiares e amigos " e com o joelho "quase novo" ", voltou às quadras no ano seguinte. Os incômodos, porém, não foram embora. E ele entendeu que era a hora de parar definitivamente.
Já são quatro anos longe do esporte, e Bruno diz que até se esquece da rotina que tinha. Hoje, as festas que mais curte não são no pódio, com medalhas douradas e chuvas de papel picado. Mas sim as que reúnem toda a família, com as crianças correndo por todo lado:
" Sou o cara mais feliz do mundo e vivo o melhor momento da vida. Mergulhei tanto na performance, acostumado a achar que, se não fosse o melhor, não seria respeitado, e querendo provar quem eu era, que não senti prazer em grande parte da carreira " reflete o ex-jogador. " Colhi os frutos, sim. Mas minha carreira esportiva é como um livro que ficou bem escrito. Fechei e não abro para reler.
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