‘Nosso mercado é complementar ao de planos de saúde’
Entrevista
Entrevista
Com 1,2 milhão de pacientes, metade deles assinante do cartão que garante descontos em consultas e exames, a rede de clínicas Dr. Consulta tem visto aumentar o número de pacientes que têm planos de saúde ou que buscam atendimento nas unidades por não conseguirem manter os convênios, após reajustes altos.
Apesar disso, o CEO Massanori Shibata Jr, defende que o objetivo da companhia não é substituir os planos, mas ser complementar a eles e ao SUS. O executivo argumenta que 85% dos problemas de saúde podem ser resolvidos até a etapa de diagnóstico, e é nesta parte da cadeia que a empresa quer se concentrar.
Enquanto a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) discute uma forma de regulamentar cartões de desconto, o executivo, que lidera a associação do setor, defende regras que preservem o acesso à saúde oferecido pelas empresas, sem equipará-las a planos de saúde tradicionais.
A Dr. Consulta nasceu na favela de Heliópolis com a proposta de atendimento acessível. O perfil do cliente mudou?
Estamos naquela fatia de 160 milhões de brasileiros que, em sua maioria, nunca tiveram plano de saúde. É um público de até classe D, mas já alcançamos a classe B, porque faltam planos de saúde para essas pessoas. É preciso estar empregado ou ir para o coletivo por adesão, que é caro. E o pequeno empresário que entra em um plano PME pode sofrer reajustes de 40%, e decide sair.
Quantos têm plano de saúde?
Não consigo dizer com exatidão, mas está crescendo o número de pessoas que têm plano de saúde e também optam por ter um cartão conosco para ter acesso aos serviços.
São 31 unidades no Rio e em São Paulo. Planejam chegar a outras cidades?
Nosso modelo é de direcionamento, parecido com o SUS. Temos clínicas menores e médias que direcionam para unidades maiores. Isso mostrou que poderíamos ser lucrativos a ponto de começar a expansão organicamente, sem novo capital. Definimos um plano de expansão para dez estados. O primeiro é o Rio, onde temos unidades em Copacabana e na Tijuca. Em São Paulo temos muitos lugares com potencial de expansão, principalmente na região metropolitana. Estudamos cidades do Nordeste e de Minas Gerais.
A empresa focava em consultas, evoluiu para exames e agora terá unidade cirúrgica, em SP. Como manter preços acessíveis?
Essa unidade será focada em procedimentos oftalmológicos simples, principalmente cirurgia de catarata, que é um procedimento ambulatorial. A ideia é fazer uma unidade simples para manter o preço acessível. A clínica é bonita, mas não é luxuosa. É limpa, tem funcionários, mas não tem restaurante e café. Tudo isso é um custo a menos que conseguimos transformar em um preço que sabemos que o paciente consegue pagar.
Vocês têm 120 mil pacientes crônicos. O que acontece quando eles precisam de tratamentos complexos?
Nossa cadeia de serviços é de consultas e exames. Esse é o valor gerado pela empresa: dar um diagnóstico na mão do paciente. Cerca de 85% da saúde se resolve até aí. Se ele precisa de uma complexidade maior, temos assistentes sociais que ajudam a entender qual é o caminho para chegar ao SUS já com o diagnóstico. Para quem pode pagar o particular, negociamos preços que façam sentido para esse público. Temos parceiros, como os hospitais Leforte e Blanc. Não deixamos o paciente solto no sistema.
Qual é o tamanho do mercado de cartões de desconto hoje?
No mercado de cartões com assinatura verticalizada de saúde, ou seja, rede própria, nossa estimativa é de 30 milhões de usuários.
O que espera da regulação que a ANS começou a debater para esse mercado?
O principal é manter o modelo de negócio que gera acesso. Não é regulação sobre cartões, mas sobre o mercado de acesso. Se regular apenas o cartão, teremos empresas oferecendo vouchers de desconto sem saber quem é o prestador credenciado.
Temem que empresas do setor sejam equiparadas a planos?
Isso não pode acontecer. Mas o setor começou a ter um mínimo de organização e estamos desmistificando o modelo de negócio. Não existe sistema que consiga oferecer emergência e cobertura integral para 100% da população. O Brasil está discutindo a questão de maneira enviesada. Em vez de estimular modelos alternativos que existem a crescer, estamos tentando fazer com que entrem na saúde suplementar, que passa por dificuldades. O nosso mercado é de complementaridade, isso está previsto na legislação do SUS.
Há riscos de o usuário confundir o cartão oferecido por uma operadora com um plano?
Essa é a preocupação. Imagine uma recepcionista atendendo alguém que tem plano com direito a tudo e, no mesmo ambiente, uma pessoa com produto de cobertura restrita? Como explicar a diferença? Achei inteligente a ideia de empresas separadas, marca separada e ambiente separado. Se as operadoras querem participar, precisam criar outro negócio.
Massanori Shibata Jr. / CEO da Dr. Consulta