Domingo, 16 de Agosto de 2026

‘Nosso mercado é complementar ao de planos de saúde’

BrasilO Globo, Brasil 16 de agosto de 2026

Entrevista

Entrevista
Com 1,2 milhão de pacientes, metade deles assinante do cartão que garante descontos em consultas e exames, a rede de clínicas Dr. Consulta tem visto aumentar o número de pacientes que têm planos de saúde ou que buscam atendimento nas unidades por não conseguirem manter os convênios, após reajustes altos.
Apesar disso, o CEO Massanori Shibata Jr, defende que o objetivo da companhia não é substituir os planos, mas ser complementar a eles e ao SUS. O executivo argumenta que 85% dos problemas de saúde podem ser resolvidos até a etapa de diagnóstico, e é nesta parte da cadeia que a empresa quer se concentrar.
Enquanto a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) discute uma forma de regulamentar cartões de desconto, o executivo, que lidera a associação do setor, defende regras que preservem o acesso à saúde oferecido pelas empresas, sem equipará-las a planos de saúde tradicionais.
A Dr. Consulta nasceu na favela de Heliópolis com a proposta de atendimento acessível. O perfil do cliente mudou?
Estamos naquela fatia de 160 milhões de brasileiros que, em sua maioria, nunca tiveram plano de saúde. É um público de até classe D, mas já alcançamos a classe B, porque faltam planos de saúde para essas pessoas. É preciso estar empregado ou ir para o coletivo por adesão, que é caro. E o pequeno empresário que entra em um plano PME pode sofrer reajustes de 40%, e decide sair.
Quantos têm plano de saúde?
Não consigo dizer com exatidão, mas está crescendo o número de pessoas que têm plano de saúde e também optam por ter um cartão conosco para ter acesso aos serviços.
São 31 unidades no Rio e em São Paulo. Planejam chegar a outras cidades?
Nosso modelo é de direcionamento, parecido com o SUS. Temos clínicas menores e médias que direcionam para unidades maiores. Isso mostrou que poderíamos ser lucrativos a ponto de começar a expansão organicamente, sem novo capital. Definimos um plano de expansão para dez estados. O primeiro é o Rio, onde temos unidades em Copacabana e na Tijuca. Em São Paulo temos muitos lugares com potencial de expansão, principalmente na região metropolitana. Estudamos cidades do Nordeste e de Minas Gerais.
A empresa focava em consultas, evoluiu para exames e agora terá unidade cirúrgica, em SP. Como manter preços acessíveis?
Essa unidade será focada em procedimentos oftalmológicos simples, principalmente cirurgia de catarata, que é um procedimento ambulatorial. A ideia é fazer uma unidade simples para manter o preço acessível. A clínica é bonita, mas não é luxuosa. É limpa, tem funcionários, mas não tem restaurante e café. Tudo isso é um custo a menos que conseguimos transformar em um preço que sabemos que o paciente consegue pagar.
Vocês têm 120 mil pacientes crônicos. O que acontece quando eles precisam de tratamentos complexos?
Nossa cadeia de serviços é de consultas e exames. Esse é o valor gerado pela empresa: dar um diagnóstico na mão do paciente. Cerca de 85% da saúde se resolve até aí. Se ele precisa de uma complexidade maior, temos assistentes sociais que ajudam a entender qual é o caminho para chegar ao SUS já com o diagnóstico. Para quem pode pagar o particular, negociamos preços que façam sentido para esse público. Temos parceiros, como os hospitais Leforte e Blanc. Não deixamos o paciente solto no sistema.
Qual é o tamanho do mercado de cartões de desconto hoje?
No mercado de cartões com assinatura verticalizada de saúde, ou seja, rede própria, nossa estimativa é de 30 milhões de usuários.
O que espera da regulação que a ANS começou a debater para esse mercado?
O principal é manter o modelo de negócio que gera acesso. Não é regulação sobre cartões, mas sobre o mercado de acesso. Se regular apenas o cartão, teremos empresas oferecendo vouchers de desconto sem saber quem é o prestador credenciado.
Temem que empresas do setor sejam equiparadas a planos?
Isso não pode acontecer. Mas o setor começou a ter um mínimo de organização e estamos desmistificando o modelo de negócio. Não existe sistema que consiga oferecer emergência e cobertura integral para 100% da população. O Brasil está discutindo a questão de maneira enviesada. Em vez de estimular modelos alternativos que existem a crescer, estamos tentando fazer com que entrem na saúde suplementar, que passa por dificuldades. O nosso mercado é de complementaridade, isso está previsto na legislação do SUS.
Há riscos de o usuário confundir o cartão oferecido por uma operadora com um plano?
Essa é a preocupação. Imagine uma recepcionista atendendo alguém que tem plano com direito a tudo e, no mesmo ambiente, uma pessoa com produto de cobertura restrita? Como explicar a diferença? Achei inteligente a ideia de empresas separadas, marca separada e ambiente separado. Se as operadoras querem participar, precisam criar outro negócio.
Massanori Shibata Jr. / CEO da Dr. Consulta
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