Incertezas sobre papel dos eua guiam novo acerto de defesa
‘Otan Islâmica’
‘Otan Islâmica’
Ao anunciarem, há pouco mais de uma semana, um dos mais importantes pactos de segurança em décadas, Arábia Saudita, Paquistão e Turquia destacaram que ele refletia o compromisso "em fortalecer ainda mais sua segurança coletiva e em promover a paz, a segurança e a estabilidade na região e além dela, em prol de um futuro seguro e próspero". Apelidado por alguns de "Otan Islâmica", o Acordo de Meca também foi uma resposta de três potências locais às guerras no Golfo Pérsico e, mais importante, à queda na confiança nos EUA como garantidores de segurança.
" Existe um fator estrutural que é o fato de os EUA não terem mais a mesma demanda de petróleo do Oriente Médio que havia no passado. O que resta hoje é a aliança com Israel e o fato de a região ser um palco relacionado ao mercado global de energia " afirma Feliciano Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo. " Os EUA sempre estarão presentes ali, mesmo sem a necessidade imediata do petróleo. Mas, neste cenário, novos avanços e arranjos políticos começam a surgir.
poderio contestado
Espalhados por bases, instalações compartilhadas e porta-aviões, os EUA mantêm uma presença constante nos arredores do Golfo Pérsico há décadas, turbinada por conflitos eventuais, como as intervenções no Iraque, a ofensiva contra o Estado Islâmico e, desde 2023, pelas guerras ligadas aos ataques do Hamas contra Israel em 2023. No ano passado, os americanos bombardearam o Irã, no desfecho do conflito de 12 dias entre iranianos e israelenses, e desde fevereiro conduzem a "Operação Fúria Épica", hoje em banho-maria.
O poderio foi posto em xeque nos primeiros momentos da guerra contra o Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz e a incapacidade dos americanos em fornecer proteção aos aliados no Golfo. Cidades como Dubai, Abu Dhabi e Doha se viram à mercê das retaliações iranianas, desfazendo em dias a imagem de ilhas de estabilidade. Bases usadas pelos EUA foram alvejadas, assim como o território israelense, quebrando, como aponta Samira Adel Osman, professora de História da Ásia da Universidade Federal de São Paulo, a ideia de invencibilidade contra uma força em tese mais frágil.
" Eles perderam o discurso de que poderiam acabar com o conflito rapidamente, que não haveria resistência, e que os acordos construídos anteriormente levariam à normalização das relações no Oriente Médio " afirma Osman. " Neste cenário, não vejo o pacto de Meca como uma afronta aos EUA, mas ele mostra que os interesses da região estão além dos interesses dos EUA.
O presidente americano, Donald Trump, disse, ontem, em sua rede social, a Truth Social, que os três países deram um "primeiro passo grande, ousado e importante" ao firmarem o acordo.
nova ordem
O plano é uma expansão de um compromisso de segurança firmado entre Riad e Islamabad em setembro de 2025, quando os ventos da guerra já sopravam nos arredores do Golfo Pérsico. Havia rumores de que o Egito se juntaria à iniciativa, o que não se concretizou. Segundo Guimarães, cada uma das partes chega com uma vantagem estratégica.
" A Arábia Saudita tem dinheiro, capacidade financeira e posicionamento geográfico estratégico " explica ele, referindo-se à proximidade dos estreitos de Bab el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho, e de Ormuz, protagonista da guerra entre EUA e Irã. " A Turquia tem uma indústria militar de padrão Otan, com produção de drones poderosos. O Paquistão tem um Exército muito grande e é uma potência nuclear. Não se trata de uma Otan do Oriente, mas ela tem capacidade notável.
O Acordo de Meca não se desenha como uma alternativa aos EUA: os três signatários são aliados de primeira hora da Casa Branca e têm interesses diretamente atrelados aos americanos. A ideia, avaliam analistas, é criar opções. A crescente instabilidade do presidente Donald Trump, que faz anúncios e recua em quantidade industrial, foi determinante, assim como seus discursos sugerindo que os países deveriam assumir mais responsabilidades em suas defesas, repetindo um corolário adotado para a Europa. Até o momento, Washington não expressou insatisfação com a iniciativa.
" O que essa nova ordem demonstra é que o Oriente Médio talvez tenha que se repensar, talvez não com o mesmo alinhamento às políticas de Washington, e que precise buscar outras possibilidades. É necessário ressaltar que não é uma aliança feita com a Otan, com a Rússia ou com a China, mas sim entre três atores regionais " destaca Osman.
Apontado por alguns como o alvo do pacto, o Irã observou à distância o lançamento da iniciativa, reservando até alguns elogios. Abbas Moghtadaei, membro da comissão de Segurança Nacional do Parlamento, disse que o acordo expressa a "frustração regional com os EUA". Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores, declarou que era um sinal de "irmandade genuína" entre muçulmanos. Já editoriais em jornais ligados à Guarda Revolucionária destacam que um Irã forte, como o regime tenta se projetar, não necessariamente vai atrair novos amigos.
" Irã, Turquia e Arábia Saudita sempre se apresentaram como atores geopolíticos importantes, que disputam a hegemonia regional, e se viram envolvidos com as questões da Palestina e com o desenrolar da guerra " afirmou Osman. " O Irã não foi destruído, pelo contrário, saiu mais forte da crise, uma vez que conseguiu demonstrar sua capacidade de resiliência. Quando a crise arrefecer, haverá uma nova configuração, e esse pacto se antecipa a esse cenário futuro.
alerta em israel
Entre analistas, é quase consenso que o plano surge com um grande perdedor: Israel. A iniciativa conta com uma nação abertamente hostil (Paquistão), uma cujos laços foram abalados após a guerra em Gaza (Turquia) e outra que era potencial membro dos Acordos de Abraão, mas que agora está ainda mais distante (Arábia Saudita). Reservadamente, um membro do governo israelense disse ao portal Ynet que "é uma aliança dirigida contra Israel".
" Eu o vejo objetivamente como uma derrota para Israel, porque, quando os sauditas buscam um novo pacto, não mais mediado por Israel, há uma perda da influência que vinha construindo e que desejava construir na região " aponta Osman.
Na mesma entrevista, o funcionário israelense defendeu o fortalecimento dos laços com Grécia, Chipre, Emirados Árabes Unidos e Índia, que expressou questões sobre a presença paquistanesa no plano. Em fevereiro, o premier Narendra Modi esteve em Israel e foi chamado de "irmão" pelo premier Benjamin Netanyahu. Em Nova Délhi, a Chancelaria disse que está "analisando suas implicações, tanto sob a perspectiva de nossa segurança nacional quanto em relação a considerações sobre estabilidade regional e paz".