Martes, 18 de Agosto de 2026

Criação de abelhas vira fonte de renda nas cidades

BrasilO Globo, Brasil 18 de agosto de 2026

Uma atividade tipicamente rural, a criação de abelhas tem ganhado o meio urbano com a ...

Uma atividade tipicamente rural, a criação de abelhas tem ganhado o meio urbano com a adesão crescente de criações de espécies nativas sem ferrão mantidas em pequena escala por pessoas que viram, no inseto, um possível hobby ou também uma fonte de renda extra. As colmeias, mantidas em ambiente quase hostil para um animal tão delicado, reúnem histórias de paixão pela atividade que, aos poucos, abriram portas para novos empreendimentos baseados na meliponicultura.
" A gente chama popularmente de abelha sem ferrão, mas falo que essas abelhas possuem uma ferroada invisível que a gente toma emocionalmente " diz o apicultor Anderson Magalhães, de Ribeirão Preto (SP).
A primeira "picada" ocorreu quando ele ainda tinha 12 anos, no momento em que viu um enxame mantido pelo pai de um amigo:
" Depois que a gente é "ferroado" por uma abelha sem ferrão, a gente se apaixona por elas.
Hoje com 37 anos e mais de 600 colmeias em produção em parceria com agricultores da região de Ribeirão, ele chegou a criar 120 colônias de abelhas de 36 espécies diferentes em plena área urbana da cidade, que é a oitava mais populosa do estado.
A primeira caixa, da espécie Iraí, é mantida até hoje na casa da sua avó. Com a experiência adquirida na atividade, ele passou a dar consultorias e atesta o fenômeno: o principal público interessado na criação de abelhas sem ferrão está na cidade.
" Muita gente quer justamente ter abelha em área urbana porque acaba sendo como um pet e não tem tanto trabalho quanto um cachorro ou um gato " compara Magalhães.
Em São Carlos, no interior paulista, a bióloga Juliana Massimino Feres também iniciou a sua criação na cidade. Embora tenha estudado polinizadores durante a pós-graduação, foi o nascimento do seu filho e a queda de uma colmeia que havia na casa dos seus avós, em 2014, que a levou a ter sua primeira produção própria de mel:
"É uma atividade que combina muito com a maternidade e com a restauração de ecossistemas, que era no que eu já trabalhava.
Ela chegou a ter 50 caixas de abelhas em área urbana. Da paixão pelas melíponas, veio a inspiração para um projeto de incentivo à meliponicultura entre mulheres de pequenas propriedades e na área urbana. Recentemente, a bióloga criou sua própria marca de mel, a Eborá, e a atividade já responde por 30% de sua renda.
Em Jaboticabal, também no interior de São Paulo, o meliponicultor Gustavo Siniscalchi mantém quatro apiários em área urbana e um em área rural. Ele vê desafios nos dois ambientes:
" O ambiente urbano tem floradas de melhor qualidade, mas é um desafio, por exemplo, por conta da aplicação de inseticidas.
Muitas vezes, os inseticidas são aplicados pela própria prefeitura para o controle de mosquitos transmissores da dengue e outras doenças. No entanto, essas pulverizações podem levar à perda de enxames inteiros.
Curso na Embrapa
O interesse urbano pela criação de abelhas surpreendeu a equipe da Embrapa Meio Ambiente quando a unidade lançou seu primeiro curso on-line sobre o tema, ainda na pandemia.
" As pessoas estavam com essa necessidade de ficar em casa, sem circular, e acharam na criação de abelhas uma atividade possível de ser executada naquele momento " diz o pesquisador Cristiano Menezes, responsável pelo curso.
Segundo ele, a demanda levou a uma reedição do curso, com uma abordagem voltada para esse público da cidade, visando responder a questões e desafios específicos da meliponicultura urbana. Ao todo, 15 mil pessoas já se inscreveram no curso.
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