Martes, 01 de Septiembre de 2026

Ifood apresenta queixa contra rival chinesa keeta no cade

BrasilO Globo, Brasil 1 de septiembre de 2026

O iFood, unidade brasileira da Prosus, apresentou uma denúncia contra a chinesa Meituan, ...

O iFood, unidade brasileira da Prosus, apresentou uma denúncia contra a chinesa Meituan, dona da Keeta, ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), responsável pela defesa da concorrência, acusando a rival de praticar preços artificialmente baixos para eliminar competidores. O iFood classifica essa atuação de "prática predatória" e pede ao órgão que sejam adotadas medidas preventivas.
De acordo com a denúncia, a Keeta estaria oferecendo cupons de até R$ 250 e descontos de até 80%, "o que aumenta a frequência de pedidos sem elevar o gasto efetivo do consumidor, enquanto restaurantes investem em capacidade para atender a uma demanda em parte artificial".
O iFood cita um estudo da Universidade Fudan, em Xangai, segundo o qual, no auge da guerra de subsídios na China, em 2025, o volume de pedidos dos restaurantes subiu 7%, enquanto a receita efetiva caiu 4%. A consequência foi o fechamento de restaurantes e queda de 30% a 50% na renda dos entregadores, afirmou a empresa em nota.
"Não se trata de uma competição baseada em mérito, mas em quem tem mais recursos para financiar, ao mesmo tempo, descontos agressivos para restaurantes e altos pagamentos para entregadores", disse no comunicado Lucas Marini Pittioni, vice-presidente sênior de assuntos jurídicos, políticas públicas e fusões e aquisições do iFood.
Keeta vê monopólio
Na queixa apresentada ao Cade, a empresa faz três pedidos: a abertura de processo administrativo para investigar a concorrente, a adoção de medida preventiva para acabar imediatamente com o subsídio e acesso periódico aos dados de custos e precificação da Keeta, para que o órgão faça um monitoramento independente.
O iFood pede urgência na adoção de medidas preventivas para evitar o que ocorreu em mercados como Hong Kong e Oriente Médio, onde a entrada rápida da Keeta, subsidiada por elevados gastos de caixa, levou à saída de concorrentes e, posteriormente, a aumentos nas taxas cobradas dos comerciantes.
Pittioni avalia que o regulador brasileiro teria uma "janela de oportunidade" para impedir que isso se repita aqui. Ele destaca que nos Emirados Árabes, por exemplo, os órgãos reguladores abriram consultas públicas e adotaram novas regras de conduta.
A Keeta chegou a São Paulo em 2025, com plano de investir US$ 1 bilhão ao longo de cinco anos no país. A empresa rapidamente conquistou clientes e superou a Rappi em número de usuários ativos mensais em apenas três meses, de acordo com Abe Yousef, analista sênior de insights na empresa de inteligência de mercado Sensor Tower.
Antes da estreia da Keeta, a fatia do iFood nesse mercado era estimada em cerca de 75%. A plataforma brasileira não divulga esses dados.
O iFood já foi alvo de inquérito administrativo no Cade. Em fevereiro de 2023, a plataforma fechou um acordo com o órgão regulador depois de investigação pelo uso de contratos de exclusividade com restaurantes, o que estaria dificultando a entrada de novos concorrentes. Pittioni afirma que o iFood cumpre rigorosamente o acordo.
A Keeta, porém, avalia que o mercado brasileiro de delivery de comida "permanece bloqueado e disfuncional", marcado por contratos de exclusividade que impedem a livre concorrência. A plataforma chinesa diz ainda que o Brasil é "o único mercado no mundo caracterizado por um monopólio, com um único player controlando mais de 80% do segmento", o que prejudicaria restaurantes, entregadores e consumidores. Para a empresa, a denúncia do iFood "é uma clara estratégia monopolista".
‘Sustentabilidade em jogo’
Já Pittioni afirma que os subsídios estão desestabilizando o setor. Ele explica que o ponto central da denúncia no Cade "não é exatamente a disputa entre as plataformas":
" O que está em jogo é a sustentabilidade e o futuro do mercado de delivery de refeições, as operações dos restaurantes e as atividades dos entregadores " diz, ressaltando que a própria Meituan, na China, apoiou uma medida regulatória de Pequim, dizendo que a concorrência baseada exclusivamente em subsídios afeta as operações dos próprios restaurantes.
Mas ele admite que o próprio iFood aderiu ao subsídio:
" É uma pena que a gente esteja desviando, neste momento, recursos que poderiam estar sendo alocados para o restaurante crescer, para o setor se desenvolver de forma sustentável. Esses recursos estão sendo dragados por essa competição única e estritamente baseada em cupons.
A Keeta, por sua vez, argumenta que usa cupons "para incentivar a experimentação inicial". "O foco é conquistar e reter consumidores por meio da qualidade, confiabilidade e experiência oferecidas pela plataforma", afirmou em nota, destacando que o uso de cupons é comum no setor.
A plataforma chinesa disse que ainda não foi notificada pelo Cade.
Procurado, o órgão regulador não retornou.
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