Mp aponta como fla e flu colocaram à venda mais ingressos do que o permitido no maracanã
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Foi por meio de laudos e planilhas dos jogos de Flamengo e Fluminense no Maracanã que o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) constatou que os clubes estão, desde o ano passado, colocando à venda uma quantidade de ingressos acima da capacidade permitida em setores do estádio, sobretudo no setor norte e nas cadeiras cativas, o que coloca em risco a segurança do público. A reportagem do GLOBO teve acesso exclusivo a detalhes da investigação que mostram a suspeita de que as entradas comercializadas a mais não constariam corretamente do borderô das partidas, o que dá margem para um possível desvio de cerca de R$ 1 milhão por mês, de acordo com o cálculo das autoridades.
Há ainda uma preocupação adicional de que as planilhas oficiais sobre a capacidade do Maracanã, divulgadas em reunião da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) e usadas pelos órgãos públicos para planejar a segurança, estejam usando números subdimensionados de torcedores e, portanto, levando ao emprego de efetivo policial insuficiente no estádio.
O GLOBO apurou que o inquérito instaurado pelo Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor (Gaedest/MPRJ) no fim de agosto foi enviado à Promotoria de Justiça de Urbanismo com as suspeitas de irregularidades praticadas pela Fla-Flu Serviços S.A., empresa que administra o Maracanã. As diretorias dos clubes, a Ferj e as empresas responsáveis pela comercialização e logística de ingressos (FutebolCard e Cognitive Ruptix Solution) foram oficiadas, mas ainda não forneceram explicação.
Fora do borderô
A investigação apontou que em pelo menos 16 jogos (12 do rubro-negro e cinco do tricolor " um deles é um Fla-Flu que decidiu o Estadual deste ano) foram colocados à venda ou efetivamente vendidos bilhetes acima da capacidade permitida em determinados setores " provocando, em algumas dessas partidas, a superlotação do estádio, de acordo com laudos dos Bombeiros e da Polícia Militar. Isso fere o artigo 147 da Lei Geral do Esporte, que prevê até perda de mando de campo por seis meses para os clubes infratores.
No caso do Flamengo, o MPRJ verificou que houve entrada de mais público do que o permitido no setor norte e em um novo setor criado nas cadeiras cativas: o oeste superior. O GLOBO também apurou que a prática previa a venda de cerca de dois mil ingressos a mais na arquibancada norte para atender a sócios-torcedores rubro-negros, com retirada da carga de outros setores " mas isso não era computado no borderô dos jogos.
O inquérito identificou inclusive que o sistema de catracas do estádio não bloqueia torcedores se a capacidade for excedida. O rubro-negro vendeu mais entradas do que os laudos permitem em determinados setores nas 12 partidas investigadas " e, em metade delas, a presença de público excedeu o limite do Maracanã, que hoje é de 73.609 pessoas. Houve jogos em que o número de presentes no setor norte chegou a 23.400, 2.100 a mais que os 21.300 previstos no laudo de segurança da Polícia Militar.
O MPRJ constatou ainda que o sistema da Fla-Flu Serviços recebe em tempo real a quantidade de torcedores que passam pelas catracas no estádio e tem condições de estabelecer um limite, mas isso não tem sido feito.
cativas comercializadas
No caso do Fluminense, foi constatada apenas a oferta de bilhetes além da carga estabelecida, o que por si só já infringe a legislação. As cinco partidas investigadas não tiveram público acima do permitido, nem em setor determinado, nem no Maracanã como um todo, mas foram disponibilizados mais ingressos do que o previsto. Nelas, o setor oeste inferior ficou fechado, o que contraria a regra: o clube não pode deixar de abrir um setor e superlotar outro.
O setor oeste superior, criado no local das cadeiras cativas, teria cerca de mil entradas a mais por jogo do Flamengo e acendeu um alerta das autoridades por suspeita de falsidade ideológica e documental. São permitidas 5.019 pessoas no local, mas os laudos apontam a presença de mais de seis mil em algumas partidas. A Suderj, órgão do governo do Estado do Rio que regulamenta os assentos perpétuos do estádio, deve ser ouvida em breve para informar quantas cadeiras estão disponíveis, se os donos estão vivos e a possível origem desse público, uma vez que a venda de bilhetes para esse setor não é permitida. O recadastramento de proprietários continua pendente.
O GLOBO pediu aos clubes, à Ferj e ao consórcio que administra o Maracanã um posicionamento sobre a investigação. O tricolor negou a acusação por meio de nota: "O Fluminense F.C. não comercializa ingressos acima da carga em nenhum setor do Maracanã". O rubro-negro não respondeu. A federação limitou-se a afirmar que "prestará as informações solicitadas ao Ministério Público dentro do prazo estipulado".
As respostas deveriam ser encaminhadas ao MPRJ em até 15 dias para a continuidade da análise dos dados. O prazo se encerra semana que vem. Uma das justificativas dadas nos bastidores é que muitos torcedores acabam faltando, mesmo com a venda acima da capacidade permitida. O Fluminense reconhece, internamente, que pode ter errado em algum momento na emissão de entradas, mas justifica que tem dificuldade maior de esgotar setores.