Sábado, 19 de Septiembre de 2026

‘Até este ano, nunca pude falar ‘não’. sempre tive que pegar’

BrasilO Globo, Brasil 19 de septiembre de 2026

Entrevista

Entrevista
Mais do que técnico do Coritiba, que hoje visita o Vasco " clube para o qual quase se transferiu em julho " Fernando Seabra é um disruptivo por natureza. Acadêmico, o treinador de 49 anos chegou à Série A através de estudos na USP, que começaram nas Ciências Sociais e terminaram no esporte. Do início, como apaixonado por futsal, até a passagem como técnico universitário, das categorias de base e profissional, carrega os amigos que construiu e a paixão pelas mais variadas expressões culturais que o acalantam e refugiam nos momentos difíceis. O pilar, porém, é familiar: as duas filhas e a esposa, com quem é casado desde os 19 anos. Foi sobre tudo isso que ele falou em uma hora de entrevista ao GLOBO.
Por que a negociação com o Vasco não deu certo?
Eu já fiz um pronunciamento sobre essa questão, esclarecendo tudo e dizendo que era um assunto superado, que não responderia mais pergunta nesse sentido. A única coisa que vou falar é que, do ponto de vista pessoal, foi muito desafiador. É uma situação muito difícil e delicada passar por isso. O nível de estresse, de desgaste, de angústia que gerou foi bastante alto. E ainda bem que a gente conseguiu passar por isso e se fortalecer.
Considera o trabalho no Coritiba o mais completo?
Acho que, em alguns aspectos, sim. Todos os trabalhos que fiz têm minha cara, só que minha cara interagindo com as pessoas e com o clube que eu estou. Então, vão sempre ser uma mistura. Existe também a necessidade de um pragmatismo. Você tem que buscar ver as virtudes, as características do grupo, da competição, do clube em que está, e, a partir daí, as soluções vão emergir. Quando você vai interagindo com a realidade, vai modelando. Você não chega com um molde pronto. Vai pondo a mão na massa.
Como é o seu dia a dia?
O futebol exige muita dedicação. Te entrega muita coisa, mas também te tira na mesma proporção, porque eu vivo sozinho, a minha família fica em São Paulo. É um desafio conseguir ter qualidade de vida diante do que é a vida no futebol, que, na verdade, é dedicação, trabalho e solidão. Meu grande objetivo é conseguir conciliar tudo, para poder viver bem com a minha família, trabalhar e me sentir bem. É uma coisa que ainda não consegui. Se, de alguma forma, conseguir fazer isso, acho que as coisas farão mais sentido para mim.
E profissionalmente?
Me sinto realizado. Como vim do meio acadêmico, sem capital pessoal oriundo do futebol, fico sempre no fio da navalha das decisões profissionais. É muito difícil ter isonomia para competir, então acho muito difícil uma pessoa com a trajetória que tenho chegar numa Série A e poder frequentá-la por muito tempo, como tenho feito. Esse é meu terceiro ano. Desde 2024, quando iniciei no Cruzeiro, só Rogério Ceni e Abel Ferreira têm mais jogos que eu.
A independência financeira permite falar "não"?
Eu, até este ano, nunca pude falar "não". Sempre tive que pegar. Isso torna a sua chance de sucesso menor. E, à medida que o tempo vai passando, vou começando a conseguir ter um pouco de oxigênio nesse sentido.
Hoje você já tem essa independência financeira?
Ainda não, mas já melhorou muito. Comecei a dar treino em 1999, para time universitário enquanto estudava. Até 2023, tudo o que eu recebia era para ajudar as contas de casa e, na verdade, se eu não tivesse estrutura familiar, não tinha conseguido seguir na profissão. A primeira vez que tive salário que me permitisse sobrar alguma coisa foi em 2024, quando voltei para o Bragantino B. Faz dois anos e meio que estou começando a conseguir pôr dinheiro em casa e guardar. O fato da minha mulher ser funcionária pública e ter uma previsibilidade, ter uma carreira na Defensoria Pública Federal, ajuda a dar esse equilíbrio. Sempre ajudou a dar essa sustentação. Além disso, tem o trabalho não-pago feminino… Por que o Fernando Seabra está e pode trabalhar? Porque tem uma guerreira lá que se desdobra por dois. Existe um machismo estrutural na sociedade, e no futebol ele é pressuposto para muita coisa. As mulheres sustentam essa carreira maluca e essa vida louca dos homens que trabalham no futebol.
O que te dá prazer e te preenche fora do futebol?
Gosto de blues, vou a shows... Não toco num nível profissional, mas me viro. Sou amador. E isso é muito importante porque é um momento em que eu consigo esvaziar a mente. Ouvir música e tocar me ajuda a estar com a cabeça mais descansada para o trabalho. Como vivo sozinho, se não tiver nada para fazer, se não me comprometer com algum tipo de ação, não vou conseguir desligar do treino, do jogo, do time, das coisas que têm que ser feitas. É uma questão de qualidade de vida e de trabalho também.
Tem alguma forma de levar essas vivências artísticas para as suas equipes?
Não me preocupo em levar esse tipo de coisa de uma forma sistematizada. Acho que faz parte de quem eu sou. Tem até um livro bacana do David Epstein, "Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas", que ele comenta que as pessoas que tiveram experiências longevas e profundas em diferentes campos conseguem pensar fora da caixa para resolver o problema de uma área, porque elas têm muitas outras ferramentas. Então, elas criam importantes soluções porque conseguem pensar através de outros conceitos e outras experiências. Muitas vezes, conseguem criar paralelismos ou analogias para resolver problemas que pessoas restritas só ao conhecimento físico e teórico daquela mesma área têm dificuldade de sair da caixa. Então, talvez isso esteja presente de algum modo na minha forma de abordar o futebol.
Como vê o Brasil na formação e desenvolvimento de atletas?
Não dá para pensar quais são os problemas do futebol brasileiro sem pensar qual é a inserção produtiva do Brasil nessa indústria. O Brasil é produtor de mão de obra e exportador. Qualquer pessoa que sai muito cedo de casa, não sai porque realmente está preparado, mas sim porque tem alguns traços que apontam para uma projeção de valor futuro. Ou seja, uma especulação financeira em cima de gente. Qualquer pessoa que sair muito jovem, sem estar preparada, vai ter dificuldade de atingir tudo o que pode atingir. Existe o princípio de que é o ir para fora e ser treinado fora que faz ficar bom. Acho que não. A gente perde muito talento por causa disso também. O Brasil sempre formou muito talento, mas perdeu muito, porque a base sempre foi muito larga e o país podia se dar ao luxo. Na Dinamarca, por exemplo, tem 11 talentos identificados entre 8 e 12 anos, e esses caras têm que chegar na seleção. Não pode ter erro no processo. A questão geral é que o processo dos outros melhorou, e nós não fortalecemos o mercado interno. É necessário um projeto nacional para desenvolver a modalidade e preparar os caminhos do talento para que o futebol brasileiro cresça.
Fernando Seabra / Técnico do Coritiba
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