Martes, 22 de Septiembre de 2026

‘É difícil imaginar uma operação que dá 20% de margem para pagar juros ’

BrasilO Globo, Brasil 21 de septiembre de 2026

Entrevista

Entrevista
O advogado Flavio Galdino, especialista em reestruturação de empresas, que já atuou, por meio do seu escritório, em processos como o da Parmalat, da Varig, da Oi, da OGX, da Eneva, da OAS, da Saraiva, da Casa&Video e da Light, afirma que há uma tempestade perfeita empurrando as companhias para recuperação judicial ou extrajudicial. E diz que os juros altos têm dificultado a vida das empresas.
O Brasil sempre conviveu com juros altos. Por que agora tantas empresas estão em recuperação judicial?
De um lado é porque o instrumento (recuperação judicial) funcionou muito bem. Tínhamos um sistema da década de 1940, a antiga lei de falência, num modelo punitivista. Em 2005, mudou e, em 2020, ela sofreu uma alteração importante. Há distorções, mas o resultado que ela entrega é bom. De outro lado, há razões macroeconômicas, dependendo do setor, que fazem com que as empresas não consigam sobreviver. Por exemplo, os juros. Qual é a margem do varejo? 3%, 5%. Como é que esse comércio paga juros de 20%? Não paga. Se o dinheiro que ele tomou para pagar 14% virou 20%, a operação dele é deficitária. Não tem jeito, não tem matemática que resista a isso. Quem opera no setor produtivo e tem uma margem de 20%? É muito difícil imaginar uma operação econômica que dê 20% de margem livre para pagar juros.
Há problemas de gestão?
Óbvio que há casos de empresas que ingressam em recuperação porque houve fraude, roubo, porque são mal geridas. Mas quando você olha o perfil de quem entra em recuperação, são empresas que estão há 50 anos dando lucro.
A tendência é que os fundos de special situation cresçam?
Quando a lei de recuperação judicial surgiu, isso era muito raro: ter gente especializada em colocar dinheiro novo em operação quebrada. Em 2020 veio uma legislação que deu alto grau de segurança jurídica para essa operação. Hoje o Itaú tem um setor para isso. O BTG talvez seja o que mais tem atuado no segmento.
O que a nova lei trouxe que deu mais segurança ao processo?
O financiamento dentro da recuperação é mais garantido. Se der tudo errado, quem fez o empréstimo (chamado de DIP " debtor-in-possession) é o primeiro a receber. Mas ele é superprotegido só até a empresa quebrar. A Associação Brasileira de Jurimetria fez estudos que mostram que a recuperabilidade em falência é inferior a 8%. Ou seja, se uma empresa quebra, o seu crédito vai valer 8% do valor de face no máximo. É uma tempestade perfeita: juros altos, bets e coisas específicas em vários setores. Houve um gasto muito grande em aposta.
Como é lidar com as empresas quando elas têm de demitir, fechar lojas, vender ativos?
É difícil você olhar para uma pessoa ou para uma família que está fazendo a mesma coisa há 40 anos e dizer assim: "Deu errado, você precisa fazer uma recuperação". Uma vez um empresário falou: "Não, espera aí, vocês querem me quebrar". Eu falei: "O senhor me perdoa, quebrado o senhor já está, a gente está tentando evitar que vire uma falência e que o senhor perca seu patrimônio pessoal". Essa é uma barreira: olhar para o empresário que foi bem-sucedido por décadas e ver que agora deu errado.(C.A.)
Flavio Galdino, advogado
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