Redes de farmácias perdem r$ 1,6 bi em valor em uma semana
Desde que o Mercado Livre anunciou, em 24 de setembro, a expansão de suas vendas de ...
Desde que o Mercado Livre anunciou, em 24 de setembro, a expansão de suas vendas de medicamentos, a disputa com as drogarias tradicionais ganhou novos contornos. Na semana após o anúncio, as três redes de farmácias listadas na Bolsa de Valores perderam R$ 1,6 bilhão em valor de mercado " reflexo, segundo analistas, do possível acirramento da concorrência. Ontem, elas recuperaram o fôlego, em um dia de alta do Ibovespa (leia mais abaixo).
Enquanto isso, a Abrafarma, entidade que representa as drogarias, oficiou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que notificou a plataforma de e-commerce. O órgão regulador quer que o Mercado Livre detalhe a regularidade de suas atividades nesse segmento, incluindo se estão sendo cumpridas as normas aplicáveis a farmácias e drogarias, como responsabilidade técnica e identificação de farmacêutico responsável.
Segundo a Anvisa, a medida é necessária porque ainda não há previsão normativa que autorize a venda de medicamentos em marketplaces.
Entre o dia 23, véspera do anúncio, e a última quinta-feira, as três redes listadas na B3 " RD Saúde (das marcas Raia e Drogasil), Pague Menos e Panvel " perderam juntas R$ 1,6 bilhão em valor de mercado.
" O ponto principal é que há uma ameaça de aumento de competição no setor. As farmácias tradicionais têm vantagens como redes bastante adensadas, relacionamento com a indústria e sortimento amplo, principalmente em medicamentos. Ainda assim, (o anúncio) foi um ruído grande ao longo da semana, que pesou sobre as ações do setor " observa Luiz Guanais, do banco BTG.
‘Sentimento cauteloso’
Ontem, os papéis recuperaram força. RD Saúde, Pague Menos e Panvel fecharam em alta de 4,11%, 6,63% e 3,23%, respectivamente.
A notificação da Anvisa ao Mercado Livre foi vista por analistas como um "obstáculo regulatório de curto prazo", mas não como um revés significativo para a plataforma.
"Para as redes de farmácias brasileiras, a notícia pode trazer algum alívio no curto prazo, pois sugere que o caminho regulatório para a expansão do Mercado Livre no setor pode ser mais complexo do que o inicialmente previsto. Ainda assim, esperamos que o sentimento dos investidores em relação ao segmento de farmácias permaneça cauteloso", escreveu Lucas Esteves, do Santander.
A possibilidade de comercializar remédios em plataformas digitais está prevista em lei sancionada em março pelo presidente Lula. O texto, originalmente sobre a venda de medicamentos em supermercados, também autorizou que farmácias e drogarias contratem canais digitais e plataformas de comércio on-line para a logística e entrega ao consumidor. Este ponto, porém, ainda depende de regulamentação pela Anvisa. O processo foi aberto, mas não há prazo para o fim das discussões.
O CEO da Abrafarma, Sergio Mena Barreto, diz que o setor recebeu com espanto o anúncio, já que o tema ainda não foi regulamentado:
" É preciso entender o que a legislação vai exigir, o que a agência vai considerar como logística e entrega, quais serão os requisitos e como deverão ser os contratos entre farmácias e plataformas.
Em nota, o Mercado Livre afirmou que ainda não foi notificado pela Anvisa, mas que entrará em contato com o órgão, "reafirmando a boa-fé e disposição para um diálogo permanente e construtivo".
Desde março, a plataforma vende medicamentos a partir de uma farmácia que comprou no ano passado. No início, eram apenas remédios que não precisam de prescrição médica. Desde o último dia 25, porém, foram incluídos aqueles que exigem a apresentação e retenção das receitas, como antibióticos e canetas emagrecedoras.
Segundo a companhia, as prescrições são enviadas para a validação de um farmacêutico do próprio Mercado Livre, que segue todos os procedimentos previstos antes de liberar o pedido para a logística.
Anúncios irregulares
Além da venda direta, a empresa abriu espaço para que grandes redes vendam medicamentos no marketplace. O Mercado Livre calcula que, até o fim do ano, 20 farmácias parceiras na Região Metropolitana de São Paulo estejam integradas à plataforma, com entrega em até 60 minutos.
A Abrafarma questiona esse avanço do Mercado Livre na "última milha" " quando o produto sai da loja e é entregue ao consumidor " apesar de ainda não haver regulamentação. Segundo Mena Barreto, os marketplaces alegam que a responsabilidade pelo produto é do vendedor, o que se torna mais sensível quando se trata de medicamentos.
Levantamento da Abrafarma aponta que o Mercado Livre tem cerca de 1,2 mil anúncios irregulares de produtos para disfunção erétil.
Sobre a pesquisa, o Mercado Livre afirmou que anúncios que ferem os Termos e Condições de Uso serão removidos e que os medicamentos vendidos na plataforma "devem ser devidamente regularizados e contar com todas as certificações e autorizações sanitárias exigidas pela Anvisa". E garante que, em categorias como saúde, "atua com regras de publicação, monitoramento, tecnologia e equipes especializadas para identificar conteúdos potencialmente irregulares e tomar as medidas cabíveis".