A justiça e o merecimento
Carlos Eduardo Mansur
Carlos Eduardo Mansur
Os próximos dias dirão se é real a possibilidade de o Flamengo ser reconduzido à final da Libertadores, mesmo após as duas pálidas exibições contra o Estudiantes. Ocorre que esta será uma discussão de advogados. O mais importante, no entanto, é o que ela encobre. Há uma característica peculiar do futebol e do esporte: nem sempre um bom direito, que aos olhos da lei faça justiça, transmite a sensação de justiça.
Antes, é preciso afastar algumas discussões. É correto o argumento rubro-negro de que o clube não abriu um processo nos órgãos disciplinares sul-americanos para reverter uma derrota. Foi o Estudiantes, que aparentemente descumpriu um regulamento, quem iniciou a discussão ao tentar inscrever um jogador fora do prazo. Após as negativas da Conmebol, o clube argentino foi à Corte Arbitral do Esporte, o CAS, na Suíça. Lá, obteve uma autorização provisória para inscrever Marcos Rojo, mas com a advertência de que estaria sujeito às punições caso o julgamento mantivesse o entendimento de que Rojo não tinha condições de jogo. Notificado para participar do processo, o Flamengo informou que faria uma reclamação se o jogador fosse escalado. E assim o fez.
Seria uma atitude de enorme grandeza não fazê-lo e aceitar a derrota do campo? Provavelmente, sim, em especial nas circunstâncias, após ter sido esportivamente superado por um rival com muito menos recursos. Por outro lado, não é difícil imaginar o tipo de pressão sobre dirigentes que, supostamente, ignorassem o que se entende ser um direito do clube. Sem contar o precedente do não cumprimento de um regulamento, a preservação da integridade e da segurança jurídica do esporte. Mas esta é apenas uma das faces da discussão.
O mais notável é como o embate legal, neste episódio, não seduz a arquibancada. Porque Justiça, a que tem jota maiúsculo, e sensação de mérito esportivo nem sempre caminham juntas. O esporte é complexo, assim como são as relações e atividades humanas. A mesma arquibancada que quer resultado a qualquer custo no campo, por vezes também espera merecimento. Ou, ao menos, não se convence de que terá o mesmo sabor ver um elenco tão poderoso, que claramente era melhor e mais rico do que seu rival, chegar a Montevidéu pela via dos tribunais " ainda que se conclua que o Estudiantes tenha infringido as regras e mereça ser punido. É complexo.
A Conmebol e a Libertadores parecem colocadas diante de uma encruzilhada. O Estudiantes ganhou a vaga na final após infringir regras da entidade sul-americana. Por outro lado, caso seja removido da decisão, teremos a mais estranha das finais: a partida mais aguardada do ano na América do Sul jogada por um time que, aos olhos do público, não deveria estar ali, ao menos quando o debate é meramente futebolístico.
O fato é que, no futebol, nada supera as experiências. O torcedor do Flamengo que foi ao Maracanã na quinta-feira saiu do estádio derrotado após ver a Libertadores terminar diante de seus olhos de forma inapelável. Nenhuma vitória de tribunal supera ou restaura tal vivência.
Aqui vale outra ressalva. Esta é apenas uma constatação sobre como o futebol é feito de sensações insubstituíveis. Não é, de forma alguma, a negação dos regulamentos, da necessidade de que as regras valham para todos. É apenas notar como, no esporte, há decisões da justiça que reparam distorções produzidas no campo e produzem a sensação de merecimento, enquanto outras apenas preservam regras, mas soam como vitórias artificiais. E nada pode ser feito quanto a isso.
Se de fato o Estudiantes rasgou as regras, será inevitável puni-lo. E, na hipótese, mesmo que remota, de o Flamengo ser reconduzido ao torneio, jogará a final com sabor mais agridoce de sua história. O que seria uma ocasião festiva será cercada por certa amargura.