Bolívia vai de exportadora a importadora de gás natural
A outrora poderosa indústria de gás natural da Bolívia encolheu tão drasticamente que o país está ...
A outrora poderosa indústria de gás natural da Bolívia encolheu tão drasticamente que o país está prestes a começar a importar o combustível, após décadas como um dos principais produtores e exportadores da América do Sul.
O governo do presidente Rodrigo Paz publicou, nesta semana, um decreto que permite a pessoas físicas e empresas importar gás natural e gás natural liquefeito para consumo próprio e geração de energia, em uma medida destinada a evitar o desabastecimento. O país vive uma crise energética agravada por bloqueios em estradas em meio a protestos contra medidas do governo do presidente direitista.
Há duas décadas, no governo do líder socialista Evo Morales, a Bolívia nacionalizou campos de gás e refinarias operados pelas europeias Repsol e TotalEnergies e pela brasileira Petrobras. Na época, os preços internacionais do petróleo e do gás estavam disparando, e o boom do gás natural entre 2005 e 2014 ajudou a financiar generosos programas sociais no país. No entanto, os investimentos em exploração de novas reservas não acompanharam o ritmo necessário, levando à redução da produção e a uma queda de mais da metade das exportações em relação ao pico registrado em 2014.
Embora o combustível importado ainda não possa ser vendido a terceiros, a decisão representa uma ruptura significativa com o sistema anterior, no qual as importações eram, em grande parte, restritas à estatal YPFB.
retirada de subsídios
Assim como ocorre com outros combustíveis, o gás natural é fortemente subsidiado na Bolívia, e os preços internacionais são quase dez vezes superiores aos praticados no mercado interno, afirmou anteontem Tatiana Genuzio, vice-ministra da Industrialização de Hidrocarbonetos, à emissora Unitel. A gestão de Paz está comprometida em acabar com os subsídios e alinhar os preços da energia aos níveis de mercado para reduzir o déficit fiscal do país e estabilizar a economia. Segundo o governo, as mudanças serão implementadas juntamente com transferências de renda e outros benefícios destinados aos setores mais vulneráveis da população. Ainda assim, o plano enfrenta forte oposição.
A Bolívia começou a exportar gás natural para o Brasil nos anos 1990, quando o então presidente Jaime Paz Zamora, pai do atual mandatário, assinou o primeiro contrato de exportação. Em 2006, a Bolívia firmou outro com a Argentina, que chegou ao fim em 2024, em meio à queda da produção nacional.
O governo boliviano prevê que, até 2029, a produção de gás ficará abaixo da própria demanda interna, afirmou Genuzio. As autoridades estão avaliando várias alternativas para amenizar o impacto econômico, incluindo a liberalização do mercado, a expansão das energias renováveis e a promoção de um projeto de lei favorável aos investidores no setor de hidrocarbonetos, que deverá ser apresentado ao Congresso no próximo mês.