Jueves, 05 de Noviembre de 2026

Na amazônia, acesso a energia renovável deve vir com inclusão

BrasilO Globo, Brasil 5 de noviembre de 2026

Iniciativas de transição energética são importantes não apenas para reduzir emissões de ...

Iniciativas de transição energética são importantes não apenas para reduzir emissões de gases do efeito estufa que elevam a temperatura média do planeta. O tema também é essencial para promover inclusão econômica e social em comunidades locais, principalmente em regiões como a Amazônia.
Durante o evento "Transição Energética - a conta da mudança: quem paga, quem ganha e quem pode ficar para trás", realizado pelos jornais O GLOBO e Valor Econômico, em Belém, nesta quarta-feira, executivos, empresários e especialistas em desenvolvimento destacaram os desafios e as oportunidades envolvidas no processo de mudar a matriz energética para fontes renováveis.
Segundo o gerente de regulação da distribuidora de energia elétrica Equatorial Pará, Gustavo Tavares, o acesso à energia é um dos primeiros passos à cidadania das pessoas, o que impõe ao processo de transição energética o entendimento de que nenhuma família deve ser negligenciada nos esforços de limpar as matrizes energéticas.
Ele destacou que a Equatorial Pará tem feito o trabalho de cruzar os seus dados com os dos governos para identificar as famílias que precisam se beneficiar de tarifas sociais. A companhia, atualmente, atende 3 milhões de clientes no Pará, dentre os quais 1 milhão está elegível a tarifas sociais. Mas ele afirma que, pelo menos, mais 70 mil famílias estão mapeadas para que possam ser incluídas nesse sistema.
" Trabalhamos em duas linhas principais. A primeira é levar acesso à energia a todos e ainda há muita gente a ser atendida. A segunda etapa é oferecer condição de pagamento acessível " disse Tavares no painel "Custos da transição e seus impactos sociais".
cadeia produtiva
Eugênio Pantoja, gerente sênior de relações externas de B&A e diretor-técnico do Fundo Hydro, comentou que a empresa tem direcionado esforços para mudar a sua própria matriz energética e que, em meio ao processo, conduz programas de responsabilidade social para integrar a população das comunidades locais.
Um deles é o Programa Corredor, que estimula o desenvolvimento inclusivo com atividades de baixo carbono e positivas para a biodiversidade na Amazônia brasileira. O programa atua estrategicamente ao longo da região do mineroduto de bauxita na região das cidades de Paragominas e Barcarena, no Pará.
Pantoja também contou que o Fundo Hydro iniciou um projeto para comprar sementes de açaí, que costumeiramente são jogadas nas ruas de cidades amazônicas como lixo, para aproveitar o insumo como fonte de energia para suas caldeiras.
Empresas de médio porte coletam os caroços do açaí e vendem para a empresa, numa ação que ajuda simultaneamente a limpar a matriz energética da companhia e a gerar uma nova frente de negócio local.
" É uma oportunidade de transformar um resíduo em um novo negócio. Retira do ambiente o que era um problema e se transforma em uma oportunidade " comentou Pantoja.
Fatima Chamma, CEO da Chamma da Amazônia, produtora de perfumes e cosméticos, destacou que a transição energética precisa ser pensada para ajudar toda a cadeia produtiva da Amazônia, o que ajudará a elevar a qualidade de vida local.
" A transição energética tem que interferir na cadeia produtiva para ajudar na melhoria logística e na qualidade dos produtos. Gastamos muito com fretes altíssimos e o custo de energia " disse Fatima. " A transição energética precisa ser compartilhada. E uma das maneiras é dar apoio para micro e pequenas empresas aprenderem a se financiar e operar.
bioeconomia
Para ela, a transição energética precisa ser pensada e executada junto com outras prioridades estratégicas, como a melhoria das infraestruturas locais, para o desenvolvimento de uma indústria sustentável a partir dos produtos da bioeconomia amazônica.
" Temos um potencial maravilhoso. Acredito que vamos sair desse estigma de mero distribuidor de insumos. Mas tem que pensar na cadeia toda para que todos cresçam. Por exemplo, as embalagens que trazemos de fora precisam começar a ser produzidas aqui. Não adianta gerar energia limpa sem melhorar as condições do povo "ressaltou a empresária.
No painel "Energia como política de inclusão e desenvolvimento", o pesquisador e doutorando em Ciências Ambientais pela Universidade do Estado do Pará (Uepa) Lucas Mateus Coelho Nunes ressaltou que a mudança da matriz energética não acontecerá de um dia para o outro e reforçou que o processo precisa considerar as condições de acesso da população às novas fontes.
" Não adianta somente mudar uma matriz. Temos que ver quais são as necessidades de cada região e estado, entender o que as comunidades tradicionais estão precisando " afirmou Nunes.
Ele complementou:
" Pensar em energia solar, por exemplo, precisa considerar se ela vai ser suficiente para atender as diferentes comunidades. A Amazônia mesmo é muito diferente. Cada estado tem suas próprias características e isso precisa ser levado em conta.
Lilian Rebellato, professora associada da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), destacou que o processo de transição energética, para ser justo e bem-sucedido em termos mais amplos de acesso e atendimento geral, também deve dar mais atenção aos conhecimentos tradicionais dos povos locais.
Sabedorias locais
Ela destacou como frutos e insumos da Amazônia como o açaí podem ajudar a diversificar a matriz energética e que as empresas e autoridades têm a ganhar ao escutar as sabedorias locais.
" A Amazônia é muito lembrada pela floresta, mas precisamos contemplar quem vive dentro dela. Garantir acesso à energia e segurança alimentar é fundamental " disse Lilian.
Sergio Andrade, diretor-executivo da Agenda Pública, agregou ao debate apontando a importância de instituições democráticas em bom funcionamento para que a transição energética não acentue desigualdades e injustiças no processo.
" Em todas as pesquisas que fazemos, o denominador comum que encontramos é que as instituições fazem muita diferença. Não é por acaso que o Nobel de Economia (de 2024) foi dado para (Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson) quem mostrou a importância das instituições para o desenvolvimento " argumentou.
Para Andrade, em territórios como a Amazônia, é preciso desenvolver instituições que ajudem a conduzir um processo justo de transição energética. Ele citou uma iniciativa com participação da Agenda Pública chamada "Celeiro Cerrado", que conta com o financiamento da mineradora Lundin Mining e atua em parceria com uma rede de prefeituras no norte de Goiás.
O modelo conta com uma agência de desenvolvimento que articula prioridades entre governos, empresas e sociedade civil, além de um escritório de projetos e um hub de ciência, tecnologia e inovação.
" Sem a presença de instituições, fica difícil fazer " concluiu Andrade.
O projeto Transição Energética tem patrocínio da Vale.
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