Miércoles, 27 de Mayo de 2020

‘Pagar a conta da pandemia fica para depois’

BrasilO Globo, Brasil 27 de mayo de 2020

Entrevista

Entrevista
Os recursos para lidar com a pandemia e evitar uma depressão da economia levarão a um aumento substancial do déficit público. Mas a hora de pensar em pagar a conta não é agora, diz o presidente do Credit Suisse, José Olympio Pereira. Para ele, o foco deve ser proteger os vulneráveis e garantir a solvência das empresas, para evitar uma retração ainda maior na economia.
Como o senhor avalia as medidas do governo para mitigar os efeitos da crise?
O diagnóstico de que precisa dar liquidez ao mercado está perfeito. As medidas para aliviar o sofrimento das empresas menores e da população estão na direção certa. O grande objetivo deve ser garantir que a população mais vulnerável atravesse a crise. E apoiar autônomos e preservar pequenas e médias empresas que perderam receita completamente e não têm reserva. A regulagem de quanto será necessário será feita ao longo do tempo.
Um gasto de 4% a 5% do PIB é suficiente? Estados Unidos estão falando em 10%...
Se tiver de injetar mais pra aliviar o sofrimento dos mais vulneráveis e permitir que as pequenas e médias empresas sobrevivam, acho razoável. Tem de tomar cuidado na qualidade do gasto. Elencar prioridades e gastar com eficiência.
Como vê o debate entre salvar vidas e a economia?
É um falso dilema. Todas as experiências mundiais mostram que o caminho consagrado é o isolamento. E o Estado se endividar e prover recursos para aqueles que mais precisam. Permitir a contaminação em massa pode desorganizar completamente a economia e o sistema público de saúde.
Como minimizar o impacto econômico?
Tivemos uma conversa com o (economista italiano) Francesco Giavazzi (autor de "Austeridade: quando funciona e quando não"), e ele fez uma analogia interessante. Se as fábricas e as empresas são preservadas durante a crise, uma vez que a atividade seja retomada, a gente acende a luz e tudo volta a funcionar. Agora, se elas quebram e se desorganizam, a volta é muito mais complicada. A ênfase desse momento é preservar as empresas, não deixar haver quebradeira em massa e ajudar todo mundo a atravessar a crise. Outra forma de colaborar é não demitir. Não tenho visto anúncio de grandes demissões pelas grandes empresas. Nas menores não há muita estatística e é mais difícil segurar, mas, de modo geral, as grandes estão arcando com o ônus e mantendo a força de trabalho.
Como evitar que medidas anticíclicas não se perpetuem?
É o fulcro da discussão. Vivemos a experiência de 2008 e 2009 e vimos a consequência de perenizar um conjunto de medidas que eram anticíclicas. E pagamos o preço. De certa forma estamos vacinados. Mas ninguém discute que incorrer em déficit nesse momento é super importante. Mas é um gasto de 4% a 5% do PIB. A dívida pode ir a 90% do PIB. E tem que ser feito preservando a Lei de Responsabilidade Fiscal e o teto de gastos (que limita o crescimento das despesas), que nos dão uma segurança de longo prazo.
Já dá pra pensarmos em retomar as atividades?
Trump estendeu para fim de abril. Não sei se será abril ou maio. Mas é importante as autoridades começarem a estudar como vai ser feita a saída do isolamento, sem que haja a volta da curva de contaminação. A volta é enorme desafio.
Testar massivamente a população é uma saída?
A experiência chinesa de testar todo mundo e aos poucos voltar a funcionar, com monitoramento, me parece interessante. Se vamos ter capacidade de fazer são outros quinhentos. Nossa solução pode ser diferente, pois não temos capacidade técnica de implementar coisa parecida.
Como reanimar a economia pós-isolamento?
Vamos precisar aprofundar investimentos. E infraestrutura é caminho óbvio. A probabilidade do Projeto de Lei do saneamento ser aprovado aumenta muito. Vamos precisar avançar nas privatizações, pois essa conta vai precisar ser paga. A privatização da Eletrobras precisa acontecer.
Há necessidade de investimento na rede hospitalar. O papel do Estado será revisto?
O Estado precisa funcionar e prover serviços básicos. Mas espero que a gente não vá na direção de achar que o Estado grande é a solução. O Estado é importante. O SUS é sistema vencedor. Mas no Brasil nunca vi Estado eficiente. O gasto público de funcionalismo e aposentados é muito grande.
Vai precisar cortar salário de servidor para pagar a conta?
Agora o foco deve ser em como lidar com a pandemia. Como pagar a conta fica para depois. A discussão que está no Congresso, de criar empréstimo compulsório para grandes empresas ou taxar grandes fortunas, só introduz ruído e cria mais insegurança no empresariado. Vamos ter bastante tempo para ver como financiar o aumento pontual da dívida pública. E vai passar por várias alternativas: diminuição do gasto, privatização, eventualmente aumento da carga tributária. Há vários subsídios, como Simples e lucro presumido, que precisam ser endereçados. Você pode aumentar a carga retirando esses subsídios. Ainda existem setores que pagam menos impostos.
Os ativos estão baratos. Agora é hora de comprar?
O setor aéreo foi absolutamente afetado e está buscando ajuda no mundo todo. Por outro lado, setor de alimentos está preservado. Estamos usando o Zoom (de videoconferência) e as ações deles estão explodindo. Tem setores em que o consumo subiu muito: o uso de banda larga, videogames. O setor de papel e celulose foi preservado. O consumo de embalagens, sem dúvida, continua. Aquisições podem acontecer. Mas, de forma geral, o sentimento é de cautela.
Alguns setores podem ser afetados permanentemente?
Essa crise é sem precedentes e vai ter impacto para a frente. O mercado financeiro sempre se preocupava com crises vindas da economia. Sinceramente, grande parte do mundo, e certamente o mercado financeiro, não estava dando muita bola para o aquecimento global. Então isso nos mostrou que a gente tem que estar atento para outros riscos.
Vai mudar a forma de trabalhar?
Vai afetar viagens e a maneira como a gente trabalha. Havia grande resistência no banco em deixar as pessoas trabalharem de casa, uma discussão se afetaria a produtividade. E estamos descobrindo que o impacto é o oposto. Estou entrando na minha terceira semana de home office, e a experiência está sendo ótima. Tenho trabalhado muito mais. As conferências acontecem na hora marcada. Isso pode ter impacto até no trânsito da cidade e no tamanho dos escritórios.
José Olympio/ presidente do Credit Suisse