Miércoles, 21 de Abril de 2021

Operação suspeita com petrobras pode não ser a única

BrasilO Globo, Brasil 4 de marzo de 2021

A operação com opções de venda que está na mira da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por ...

A operação com opções de venda que está na mira da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por suspeita de uso de informação privilegiada com ações da Petrobras pode não ter sido a única a render lucros milionários a seus compradores. Dados da Bolsa de Valores mostram que um outro papel, PETRN271, também teve movimentação atípica na quinta-feira, dia 18, antes mesmo da live em que Jair Bolsonaro anunciou que "alguma coisa" ia acontecer com o presidente da Petrobras.
No caso dessa opção, a quantidade de negociações realizadas no final da tarde de quinta-feira triplicou após 17h15m, horário em que terminou a reunião ministerial em que se discutiu a alta dos combustíveis, no Palácio do Planalto. A hipótese de insider trading, porém, não é tão flagrante porque os lotes negociados são menores e mais dispersos. Pode haver outras razões para a oscilação, mas só a CVM poderá determinar quais.
No caso revelado ontem pela coluna de Malu Gaspar no site do GLOBO, alguém comprou 4 milhões de opções de venda de ação que representavam uma aposta na queda do valor de mercado da Petrobras. Foram duas aquisições que deram lucro de até R$ 18 milhões, ou 11.125%, a quem as fez.
A primeira ocorreu às 17h35m, apenas 20 minutos depois da reunião em que o presidente da República e seis ministros discutiram a alta dos combustíveis. A segunda foi logo em seguida, às 17h44m. Às 19h, Bolsonaro disse na transmissão ao vivo que "o presidente da Petrobras falou que determinava o preço e não tinha nada que ver com os caminhoneiros, e isso tem uma consequência, obviamente".
Várias corretoras
Com essa outra opção de venda, a PETRN271, o comportamento do investidor foi diferente. Houve mais operações, com lotes eram mais pulverizados, e foram usadas várias corretoras, mas ainda assim em volumes recordes para os papéis. Segundo levantamento feito pela coluna a partir das informações disponíveis no site da Bolsa e em terminais de operadores de mercado, antes das 17h15m, quando a reunião no Palácio do Planalto acabou, foram feitas 41 transações com lotes de mais de 2 mil opções da PETRN271, com 902.500 papéis negociados. Depois das 17h15m, foram 2,5 milhões de opções vendidas em apenas 39 minutos, das quais 1,7 milhão em lotes de mais de cem mil.
No caso da PETRN271, o preço de venda na data do vencimento, 22 de fevereiro, era de R$ 27,50. Na quinta-feira, dia 18, a ação fechou cotada a R$ 29,27. Para que o investidor que comprou essa opção conseguisse vendê-la com lucro no vencimento, o valor de mercado da Petrobras tinha que cair pelo menos 6% até 22 de fevereiro. Depois que Bolsonaro sugeriu que demitiria Roberto Castello Branco do comando da petroleira, o tombo nas ações foi bem maior: 25,6%.
Assim, quem tinha uma PETRN271 na mão na segunda-feira também ganhou um bom dinheiro. Apenas a título de exemplo, o último lote dessa opção vendido na quinta-feira foi de 653.500 papéis, a um valor de R$ 0,05 cada. Seu comprador desembolsou R$ 32.675 na negociação. Caso tenha se desfeito de todas as opções apenas ao longo da segunda-feira, 22 de fevereiro, esse investidor pode ter ganhado até R$ 3,6 milhões.
Para gestores de investimento e consultores ouvidos pela coluna, que preferem não ser citados, é bem mais difícil dizer, só por esses dados, se houve ou não uso de informações privilegiadas. Até porque, dizem os especialistas, os "insiders profissionais" operam com volumes menores de ações, de forma a não chamar a atenção dos órgãos de fiscalização.
Essa é uma das razões pelas quais em geral é difícil descobrir o crime de insider trading, punido com penas de um a cinco anos de prisão e multa de até três vezes o valor conseguido de forma ilícita. Justamente por isso, para esses especialistas, as operações suspeitas reveladas ontem pela coluna parecem coisa de amador.