Sábado, 27 de Noviembre de 2021

Um visionário da tecnologia que tocava rock and roll

BrasilO Globo, Brasil 22 de julio de 2021

OBITUÁRIO

OBITUÁRIO
Em janeiro de 1985, na primeira edição do Rock in Rio, o jornalista André Machado, começando na carreira, tentava conter o entusiasmo nas entrevistas do ACDC e de outros ídolos do rock. Com o amigo e parceiro na tarefa, Leonardo Pimentel " era o primeiro emprego dos dois " fecharam a revista Roll e Metal em um dia, para que fosse a primeira a chegar às bancas com a cobertura do festival. As paixões pela música e pelo jornalismo se encontravam ali.
Mais tarde, já no fim dos anos 1990, Machado se voltou para a tecnologia e jogou luz sobre um assunto que era dominado por termos estrangeiros. Foi a jornalista Cora Rónai que o levou ao caderno Informática etc., do GLOBO, criado por ela em 1991.
" Ele estava na Agência O GLOBO quando o chamei. Foi uma das melhores coisas que fiz. Tinha talento para escrever, capacidade de explicar a qualquer pessoa que não tinha a menor noção de informática o que era aquilo " diz Cora.
Se tinha uma tecnologia nova, que ninguém nunca tinha falado, a pauta era dele, conta:
"Naquela época, estávamos desbravando o território, não existiam palavras equivalentes em português. Ele deixou um legado intelectual importantíssimo, além de ser a alma mais delicada que eu encontrei em redação.
O diretor de Redação do GLOBO, Alan Gripp, chamou a atenção para o pioneirismo de Machado:
" Grande roqueiro, amigo gentil, excelente profissional. Dominava tecnologia quando o assunto era para pouquíssimos. Deixará muita saudade.
Era um visionário, diz Carlos Afonso, professor da Uerj e fundador do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS):
" André conseguiu levar muito da visão dele de tecnologia e fazer com que O GLOBO tivesse o olhar do impacto social, cultural, transformador das tecnologias muito antes que isso se tornasse evidente. Foi um precursor.
Na cobertura de tecnologia, viajou para diversos países para explicar as principais descobertas do setor.
Em paralelo, o jornalista cultivava produção musical vasta. Tocava violão, bateria, guitarra e baixo. Gravou dois CDs com músicas dele e de amigos, além de ter criado duas bandas. Na adolescência, a Estrada Froes, e mais tarde, já em 2010, a Ian Band.
" Ele sempre brincava falando "I’am nobody", das iniciais nasceu o nome da banda. Ele era fanático pelo Kiss " lembra Marlos Mendes, amigo e parceiro de banda.
As filhas Jessica e Rebeca homenagearam o pai no aniversário de 50 anos com uma música sobre o amor pelo rock.
" Compunha muita coisa, cantava. Escreveu livros ligados à informática, mas gostava de escrever para ele mesmo, contos " lembra Jessica.
" Era meu melhor amigo " completa Rebeca.
O companheiro na cobertura de tecnologia, Carlos Alberto Teixeira, o CAT, destacou o que chamou de "megapaginosas" leituras do amigo:
" Possuía horizonte simbólico vastíssimo. Ele nos brindava com suas histórias sobre realeza britânica, sagas medievais e seus empolgantes embates nos cabeludíssimos e raros jogos de tabuleiro.
Machado nasceu no Rio e se formou em jornalismo na Escola de Comunicação da UFRJ. Trabalhou na Editora Bloch e na Rádio Fluminense.
O jornalista morreu ontem, aos 58 anos, por complicações após contrair Covid-19. Chegou a tomar a primeira dose da vacina, mas adoeceu antes de receber a segunda aplicação. Ele deixa a mulher, Waleska, e as filhas Jessica e Rebeca.
André Machado/ jornalista, 58 anos