Viernes, 03 de Febrero de 2023

Unimed-rio acumula dívida milionária com prestadores

BrasilO Globo, Brasil 6 de diciembre de 2022

Uma das maiores operadoras de planos de saúde do país, com quase 800 mil beneficiários, a ...

Uma das maiores operadoras de planos de saúde do país, com quase 800 mil beneficiários, a Unimed-Rio acumula pagamentos em atraso junto a hospitais e laboratórios, incluindo repasses para outras unidades do sistema Unimed, afirmam entidades e profissionais do setor. Só com Unimed Leste Fluminense e Unimed Nova Iguaçu, esses débitos atrasados somam mais de R$ 65 milhões, afirma Marcus Quintella, presidente da Associação de Hospitais do Estado do Rio de Janeiro (AHERJ).
A entidade vai pedir que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) libere R$ 90 milhões da Unimed-Rio " que ficam depositados junto à autarquia como provisão para garantir a assistência de beneficiários " para serem usados na quitação da dívida da cooperativa com os hospitais.
Ontem, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça, deu 72 horas para a cooperativa de saúde carioca prestar esclarecimentos "sobre reiteradas condutas abusivas ao consumidor". Desde julho, ela é a que mais tem queixas na ANS.
" As operadoras pagam os hospitais em um prazo médio de 90 dias. A Unimed-Rio tem neste momento atrasos de quatro a seis meses, além desses 90 dias, e com outras unidades Unimed no estado. As dívidas com hospitais por atendimento prestado a clientes da Unimed-Rio pela Unimed Leste Fluminense chegam a R$ 50 milhões. Com a Unimed Nova Iguaçu, a R$ 15 milhões " diz Quintella.
Pressão dos credores
Operadoras vêm pressionando a ANS pela liberação dessas provisões no pós-pandemia. Após período focado na Covid-19, argumentam que a retomada de procedimentos represados fez o custo disparar. Uma reunião na agência deve discutir o tema hoje. A própria Unimed-Rio estaria pleiteando essa liberação junto à ANS, diz Quintella:
" Vamos encaminhar uma carta à agência pedindo que esses recursos sejam liberados diretamente para os credores, sem passar pela Unimed-Rio, que teria 30 meses para recompor essa reserva junto à ANS. Seria uma boa saída. Esse é um ativo garantidor, ou seja, para garantir o atendimento ao segurado. Pagaria os hospitais, evitando bloqueios no atendimento.
A Unimed-Rio também não pagou faturas das redes D’Or e Dasa, segundo o colunista do GLOBO Ancelmo Gois. Procuradas, a Rede D’Or não respondeu. A Dasa disse que não comenta acordos comerciais com parceiros e que está "em constante negociação".
Em junho, a Unimed-Rio foi uma das dez operadoras notificadas pela Senacon por indícios de reajustes abusivos. As investigações ainda estão em andamento e podem gerar processo administrativo e multa.
As dificuldades financeiras da Unimed-Rio não são novas. No primeiro semestre, a operadora teve prejuízo de R$ 600 milhões, um dos piores da história do setor para o período, segundo revelou o colunista do GLOBO Lauro Jardim. Em março, a ANS renovou por mais um ano a direção fiscal da Unimed-Rio, em vigor desde 2016. Por esse regime, a operadora se compromete com metas assistenciais e financeiras.
Guilherme Jaccoud, presidente da Federação de Hospitais do Estado do Rio (FHERJ), diz que os atrasos também prejudicam prestadores fora do Grande Rio. E cita as regionais da Unimed em Friburgo, Petrópolis e Cabo Frio com dificuldades. A Unimed-Rio, porém, continua negociando com prestadores, diz o dirigente, acrescentando que não há intenção de desestabilizar a cooperativa. Ainda segundo Jaccoud, há cerca de 15 dias, um pedido feito por Seguros Unimed e Unimed Brasil ao Ministério Público para se desvincularem de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2016, no qual são afiançadoras, aumentou a preocupação no setor.
Procuradas, Seguros Unimed e Unimed Brasil não se pronunciaram. Fontes a par do TAC confirmaram que elas pediram a execução do termo, o que levaria ao fechamento da Unimed-Rio com repasse de seus clientes à Seguros Unimed. Outra opção seria a liberação do compromisso assim que a Unimed-Rio concluísse a venda de um hospital na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, seu maior ativo. Nos bastidores há quem veja uma articulação pela consolidação das regionais sob o guarda-chuva da Unimed Brasil, representante das 340 cooperativas do Sistema Unimed.
Um executivo do setor, que não quis ser identificado, vê pouca chance de recuperação da Unimed-Rio por causa de um patrimônio líquido negativo "gigante" da ordem de R$ 1 bilhão, da falta de medidas de eficiência na gestão e da venda de planos mais baratos que a média do mercado. Para essa fonte, a saída seria os médicos cooperados aportarem recursos na operadora, "tirarem do bolso", o que seria difícil.
Para outra fonte, que atua na área de regulação do setor, o pedido dos hospitais para que os ativos garantidores sejam liberados pela ANS é um sinal da gravidade da situação e não garante solução. Em 2014, a Unimed-Rio obteve judicialmente a liberação de suas reservas técnicas sem que conseguisse se recuperar. Para essa fonte, a melhor saída seria a cooperativa transferir sua carteira a outro operador.
Procurada, a Unimed-Rio não comentou sobre as dívidas nem sobre a notificação da Senacon. Em nota, afirmou apenas que voltou a crescer nos últimos anos e que passa "por um profundo processo de ajuste em suas contas, que incluiu cortes de custos e a venda de ativos importantes, como a antiga sede da empresa". A Unimed-Rio argumenta que o setor vive um "momento de crise" e que os grupos que ainda oferecem planos individuais são os mais afetados, já que tiveram reajuste negativo em 2021, determinado pela ANS. Acrescentou que aplica reajustes de acordo com o previsto em contrato e que implementa "planos de ação para manter os níveis de qualidade pelos quais sempre foi reconhecida".
A Unimed Brasil destaca que desde o TAC de 2016 assegura a continuidade do atendimento aos beneficiários da Unimed-Rio. E ressalta que o Sistema Unimed responde pela assistência de 38% dos brasileiros com planos de saúde. Afirma que tem recebido avaliações acima da média, apesar de o setor viver um período "sem precedentes de aumento na utilização dos serviços e nos custos assistenciais". Procurada a ANS não respondeu até o fechamento dessa edição.