Aos poucos, futebol feminino abre espaço para a maternidade
direitos conquistados
direitos conquistados
Dois anos atrás, Daniele Nascimento, de 34 anos, recebeu um convite para fazer parte do time feminino do Tarumã, de Manaus, que jogaria o Estadual de 2022 em busca de uma vaga na Série A3 na temporada seguinte. Jogadora amadora das peladas da capital amazonense, ela não titubeou e abraçou a oportunidade dada pela vice-diretora do clube, Michelle Mattos. Mas o sonho de jogar um campeonato nacional foi adiado por Manuelle.
A gravidez planejada e tentada por seis meses interrompeu os treinos logo no primeiro trimestre da gestação em virtude dos enjoos. Daniele voltou para casa, onde já cuidava das filhas Eshyllen, de 13 anos, e Manuella, de 5, e esperou Manu completar um mês para retornar aos gramados.
Desta vez, com a caçula no colo e uma certeza: a levaria a todos os lugares.
"Depois de ser mãe, jogar futebol é o que mais gosto de fazer. É onde tiro o estresse e esqueço do tempo " diz Daniele, que participou de peneira do Flamengo em Manaus, antes da primeira filha, mas o marido não a deixou seguir às fases seguintes.
Foi sob a condição de ter Manu sempre presente que ela aceitou jogar a terceira divisão do Brasileirão feminino. Mas havia uma questão. O confronto mata-mata contra o Atlético Rio Negro, de Roraima, tinha o jogo de volta previsto para Boa Vista, no final de abril. Os deslocamentos e hospedagens das competições femininas são custeados pela CBF, e o clube não teria condições de bancar a logística da bebê que acabara de comemorar seu primeiro aniversário.
"A Manu é muito pequena e depende de mim. No dia viagem, a Michelle disse que ela poderia ir junto " conta a meio-campista que, como amadora, não tem salário (apenas uma ajuda de custo) nem licença-maternidade, mas conta com o apoio de toda a equipe e comissão técnica nos treinos.
A dirigente levou a questão à CBF e conseguiu que Manu fosse inserida como membro da delegação pela CBF na logística da viagem. Manu se tornou a primeira integrante bebê num jogo do futebol feminino. Fato inédito que pode abrir precedentes para outras mães jogadoras.
"A CBF na hora ficou surpresa e disse que nunca havia passado por isso. Tivemos pessoas achando um absurdo a criança acompanhar, mas não liguei. A mulher tem todo o direito. Só quem é mãe sabe o quanto é difícil deixar uma criança de colo em casa. Todos ajudaram a tomar conta da Manu. Eu fiquei com ela nos treinos e no jogo. " relembra a diretora Michelle, que tem outras quatro mães no elenco.
Novas regras
Na Copa do Mundo da Austrália e Nova Zelândia, ano passado, a Fifa auxiliou seis seleções que viajaram com crianças para o Mundial. A entidade organizou locais de amamentação nos estádios, cadeirinhas nos carros, transportes especiais e encontro com as famílias após os jogos. Federações como a dos Estados Unidos garantem licença maternidade e babás para acompanhar as jogadoras em treinos e viagens.
Desde 2021, a Fifa estabeleceu regras trabalhistas para resguardar as mães jogadoras. Entre elas, licença- maternidade mínima de 14 semanas com remuneração e locais de amamentação e retirada do leite nos clubes.
Em junho do ano passado, a Lei Geral do Esporte determinou que "os contratos celebrados com atletas mulheres, ainda que de natureza cível, não poderão ter qualquer tipo de condicionante relativo a gravidez, a licença-maternidade ou a questões referentes à maternidade em geral. O regulamento da CBF segue a mesma regra.
Sob tal proteção, a argentina Sole Jaimes, de 35 anos, teve a segurança de escolher o melhor momento de ser mãe sem colocar em risco o futuro. A atacante do Flamengo deu à luz a Aurora em janeiro deste ano após uma única tentativa de fertilização in vitro com a esposa Kelly Chiavaro, goleira do Santos.
A jogadora está sob um contrato de licença-maternidade de seis meses com o clube rubro-negro.
" Só quem é da nossa família e quem trabalha com futebol sabe mesmo como funciona a vida de uma atleta. Nós ficamos longe das pessoas que amamos durante muito tempo, então, é difícil parar. E a licença ajuda justamente porque é a hora que você consegue parar, se dedicar pra ser mãe, que é um sonho " diz Sole.
Aos 29 anos, Kamilla, atacante do Fluminense, vem se reconectando com a maternidade ao longo do tempo. Mãe de Kamilly, de quase 13 anos, a atacante do Fluminense não aceitou a gravidez na adolescência, e escondeu até quando pôde para não perder a bolsa escolar recebida para jogar futsal num colégio militar de Belo Horizonte. E contou com o apoio da mãe Luciana, que cria a neta em Minas Gerais.
" É bem difícil ser mãe longe. Por mais que a minha família ajude muito, a mãe estar perto do filho faz total diferença. Eu tento estar o máximo presente, conversando, fazendo chamas de vídeo, ligação. De uns dois, três anos para cá, a gente já tem tido um convívio maior. Mas os planos de morar juntas está bem perto. Só passamos um Dia das Mães juntas, na pandemia, e só. É complicado " revela Kamilla, que sonha em ser mãe novamente, agora num momento mais tranquilo.