Esquerda domina bluesky, e ódio prolifera no x
O primeiro estudo independente sobre o perfil ideológico dos usuários do Bluesky, a rede ...
O primeiro estudo independente sobre o perfil ideológico dos usuários do Bluesky, a rede social que mais ganha adeptos desencantados com o X (antigo Twitter), confirma que pessoas identificadas com a esquerda formam a maioria dos grupos na plataforma. A dupla de cientistas da Suíça Dorian Quelle e Alexandre Bovet, que analisou a rede social, mostra que, entre os links de notícia postados ali, 63% vêm de veículos de imprensa classificados como de esquerda ou centro-esquerda. Quando contabilizados os usuários em si, 75% estão nessa banda do espectro ideológico.
Os cientistas de dados usaram no estudo um sistema de classificação do projeto Media Bias/Fact Check, que atribui uma nota ideológica a cada publicação. Cerca de 20% dos links postados no Bluesky são de veículos considerados de "centro" e apenas 8%, de "direita" ou "centro-direita".
Israel X Palestina
A pesquisa mostra também que, apesar do panorama ideológico bastante homogêneo, a rede possui muitos aglomerados antagonistas. O tema mais controverso agora é o da questão Israel/Palestina na plataforma, onde o ambiente de discussões tensas lembra o Twitter dos antigos tempos, quando a plataforma se consagrou como o grande palco do debate político na internet.
O trabalho dos suíços, publicado na quarta-feira pela revista acadêmica PLoS One, sai uma semana depois de outro estudo ter se centrado nas mudanças no X após sua aquisição pelo bilionário Elon Musk. A análise, feita por pesquisadores do Vale do Silício (e também publicada na Plos One), sugere que o discurso de ódio no X cresceu 50% após Musk assumir a rede social, em outubro de 2022.
A mudança aconteceu à medida que o magnata suspendia iniciativas de moderação de conteúdo e defendia uma política radical de liberdade de expressão, tolerando posts que antes teriam sido derrubados.
O aumento de agressividade ocorreu em instâncias que o cientista da computação Daniel Hickey, da Universidade da Califórnia em Berkeley, classificou como discurso de ódio. Posts racistas aumentaram 42% semanalmente, os homofóbicos 33% e os transfóbicos 260%. As taxas são comparações entre os sete meses imediatamente anteriores a Musk adquirir a plataforma e os sete meses seguintes.
Brasil em cena
Musk, que agora também faz parte do governo de Donald Trump, continua dono do X, mas designou como CEO Linda Yaccarino. Até a publicação do estudo na Plos One, o X vinha afirmando que a aquisição tinha feito o discurso de ódio perder força na rede, e não ganhar. O GLOBO procurou a empresa para comentar os números, mas não recebeu resposta.
Por precisarem de análises longas e validação independente, nenhum dos estudos cobriu o período em que houve uma escaramuça de Musk com o Supremo Tribunal Federal no Brasil. A disputa teve como auge a suspensão do X no país em setembro do ano passado, por descumprir decisões judiciais, e rendeu ao Bluesky a inscrição de mais de 1 milhão de brasileiros egressos.
A plataforma tem pouco mais de 30 milhões de usuários, uma pequena fração dos mais de 500 milhões que o X alega ter. A despeito da diferença de tamanho, o antagonismo entre as empresas está amplificando o fenômeno das "bolhas ideológicas", separando grupos de esquerda e direita não só em núcleos diversos dentro de uma mesma rede, como já acontecia antes, mas também em plataformas diferentes.
Tudo isso acontece num pano de fundo de mágoa corporativa, porque o Bluesky foi gestado dentro do antigo Twitter como um projeto do então CEO Jack Dorsey, que se desmembrou antes da aquisição. A rede nasceu como um experimento de protocolo "descentralizado" de mídia social, que permitiria a usuários criar seus próprios algoritmos de recomendação de conteúdo. (Isso é feito hoje pelo recurso Feeds, do Bluesky.)
Mesmo com a disparidade de tamanho entre Bluesky e X, pesquisadores desconfiam que o poder de influência do X seja superestimado quando medido apenas pela base de usuários (o X não permite acesso livre a seus dados de audiência e acesso). Algumas pessoas que abandonam uma plataforma, afinal, apenas deixam de usá-la, sem se dar ao trabalho de cancelar suas contas.
Antes de Musk, cientistas descreviam o X/Twitter como um ecossistema ideológico diverso, com núcleos robustos de pessoas da extrema esquerda à extrema direita. Bovet está tentando descobrir o quanto isso mudou após a aquisição da empresa, mas a missão não é fácil.
acesso negado
Cientistas que estudavam o Twitter antes da aquisição tinham acesso livre à API (interface de programação de aplicações), que lhes permitia analisar um grande número de postagens automaticamente, mas isso mudou.
" Infelizmente, o acesso de cientistas à API foi revogado pouco depois de Musk se tornar CEO. Para conduzir pesquisa no X, nós teríamos que pagar o preço de acesso completo, cerca de US$ 40 mil (R$ 236 mil) por mês, algo fora da realidade do orçamento da maioria dos pesquisadores " disse Bovet. " Isso significa que, no momento, não seria possível replicar nosso estudo sobre o Bluesky também no X, e praticamente não existem meios de conduzir uma pesquisa independente sobre a plataforma.
O estudo de Hickey sobre discurso de ódio só foi possível porque ele aproveitou os últimos meses em que a API de pesquisa do X ainda estava aberta. O pesquisador também descobriu que o conteúdo gerado por robôs não se reduziu, ao contrário do que alegou Musk.
"O aumento em longo prazo do discurso de ódio e a prevalência de contas potencialmente inautênticas são preocupantes, pois esses fatores podem prejudicar ambientes online seguros e democráticos e aumentar o risco de danos offline", disse Hickey no estudo.
Isso não significa que o Bluesky não tenha problemas com moderação. Já se identificou, por exemplo, conteúdo pedófilo circulando na rede social. Para ser uma plataforma "mainstream", a rede ainda precisa enfrentar desafios do crescimento.