Agro ganha e indústria do país perde com tarifaço, diz estudo
O tarifaço de Donald Trump deve colocar a indústria brasileira em uma encruzilhada. O país ...
O tarifaço de Donald Trump deve colocar a indústria brasileira em uma encruzilhada. O país pode até ganhar competitividade pontual nos EUA, em setores como calçados, couro, madeira e móveis, mas tende a receber uma enxurrada de produtos chineses no mercado local. A avaliação é da Eurasia Group, maior consultoria de risco político do mundo. Para os analistas, o cenário geral é ambíguo e volátil para o Brasil, mas os prejuízos tendem a se sobrepor em diferentes áreas.
A principal oportunidade é de expansão das exportações de commodities agrícolas para China e Europa, já que a tendência é que esses mercados busquem outros fornecedores para além dos EUA. Soja e proteína animal estão entre os produtos beneficiados. O ganho para o agro, no entanto, tende a ser mais limitado do que na primeira guerra comercial entre Washington e Pequim, aponta a Eurasia.
ESPAÇO PARA CRESCER
A avaliação é que o Brasil já capturou parte relevante do mercado chinês. Assim, há menos espaço para crescimento do que em 2016.
" É como se agora a gente fosse ganhar de 1 a 0. A primeira rodada foi uma goleada " resume Leonardo Meira, analista do Grupo Eurasia.
O principal alerta do relatório em relação ao Brasil é o risco de uma explosão da oferta de produtos manufaturados chineses, o que impactaria a indústria nacional.
Diante das barreiras dos EUA, a China deverá buscar alternativas de exportação, e a tendência é de despejar sua produção excedente na direção de outros grandes mercados, como o Brasil.
A Eurasia avalia que aço, químicos, pneus, vestuários e veículos são os setores industriais mais expostos.
"Com um grande mercado interno e forte relação com Pequim, o Brasil será profundamente afetado, sofrendo com a concorrência de produtos importados mais baratos", diz o relatório.
Para os analistas, o Brasil tem poucos instrumentos para lidar com a inundação de produtos chineses no mercado local. Impedir a entrada com tarifas é improvável.
Meira lembra que as regras do Mercosul impedem o aumento unilateral de tarifas, e os processos antidumping no Brasil são muito lentos. E qualquer medida comercial contra a China exigiria muita cautela, já que o gigante asiático é o principal parceiro comercial brasileiro.
Em relação a uma vantagem comparativa no mercado interno americano, já que foi submetido a taxas recíprocas mínimas de 10%, o Brasil ainda teria ganhos incertos. A vantagem viria em produtos manufaturados em que o país concorre com a Ásia, mas essas vantagens podem desaparecer se Trump negociar acordos comerciais com países asiáticos que reduzam tarifas, ressalta a consultoria.
"Nesse cenário, os ganhos pontuais com exportações industriais para os EUA dificilmente compensarão o impacto negativo de perda de mercado interno", avaliam os analistas. "O Brasil verá ganhos mais claros na exportação de commodities". No setor, "o impacto líquido para o Brasil ainda tende a ser positivo", diz o relatório.
RISCO DE FRICÇÃO
Sobre o aumento da demanda por commodities, Meira afirma que, ao contrário da indústria manufatureira, a mudança de rota é mais flexível:
" Não é como uma fábrica de carros que precisa adaptar toda a linha para importar peças de outro fornecedor. Com a commodity é diferente: a troca de fornecedor acontece de forma mais rápida. E o Brasil, por ser um player global, já tem capacidade para atender essas demandas.
Em relação a tarifas setoriais, como a de 25% sobre o aço, "a depender da retórica de Trump e da reação de Lula, a fricção diplomática pode crescer", avalia a Eurasia.