Brasil busca espaço no novo tabuleiro global moldado por trump
As incertezas provocadas pelo tarifaço de Donald Trump tiveram uma trégua nos últimos ...
As incertezas provocadas pelo tarifaço de Donald Trump tiveram uma trégua nos últimos dias, abrindo uma janela para o Brasil se posicionar diante das oportunidades criadas pela nova configuração do comércio e dos investimentos globais, segundo líderes do setor público e privado presentes na segunda edição do "Summit Valor Brazil-USA", promovido pelo Valor, ontem, em Nova York.
A melhora do humor global fez o dólar cair para um patamar mais baixo, na casa dos R$ 5,60, e cria as condições para o Banco Central tatear o fim do ciclo de aperto monetário. As expectativas se voltam agora para o contingenciamento de despesas do Orçamento, que será anunciado nos próximos dias para cumprir a meta de resultado primário neste ano.
" Vamos seguir fazendo a gestão fiscal regular, bloqueando e contingenciando, porque temos que cumprir o arcabouço fiscal " disse o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan.
pauta abrangente
O "Summit Brazil-USA" teve a participação de autoridades, especialistas, empresários, CEOs e investidores dos dois países. O seminário abrigou uma pauta abrangente, com destaque para temas de impacto na relação bilateral " juros, indústria, ação climática, geopolítica, tecnologia e commodities, à luz do novo mandato presidencial de Donald Trump. O evento, realizado no The Plaza, coincide com a semana "Person of the Year", que ficou conhecida como a "semana do Brasil" na metrópole americana.
Na agenda que conduzirá a economia até 2026, quando ocorrem as eleições presidenciais no Brasil, uma das prioridades será encontrar uma solução estrutural para as despesas com precatórios judiciais. Segundo Durigan, isso envolverá atuar na origem dos problemas que geram as disputas judiciais.
Em conversas com grupos de investidores em Nova York, o secretário-executivo da Fazenda procurou dar garantias de que o governo Lula não irá se contrapor à esperada desaceleração da economia " da expansão de 3,4% em 2024 para cerca de 2% em 2025 " com medidas de estímulos fiscais e creditícias que possam dificultar o trabalho do BC para baixar a inflação a 3%.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Podemos-PB), disse que as prioridades do Legislativo na área fiscal vão ser uma "reforma do RH" da administração do setor público e também a revisão de benefícios tributários. Essa última seria uma das alternativas para compensar a perda de receita provocada pela isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, em vez da proposta do governo de taxar contribuintes de alta renda que hoje são taxados com baixas alíquotas efetivas.
A reconfiguração do comércio criada pelas políticas protecionistas do governo americano abre uma oportunidade para o Brasil, uma economia ainda muito fechada, se integrar ao resto do mundo.
" A América Latina faz parte da solução, e não do problema, dos desafios globais " afirmou o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Ilan Goldfajn.
Segundo ele, as vantagens comparativas da região incluem valores em comum com o mundo Ocidental, como a democracia, e oportunidades em áreas como minerais críticos e produção de alimentos " além de um mercado de US$ 7 trilhões, com 660 milhões de pessoas.
estratégia cautelosa
Empresários e investidores chamaram a atenção para as oportunidades criadas pela inteligência artificial.
" É uma oportunidade que não podemos perder. A tecnologia criou muito valor nos EUA, na China, e o Brasil pode fazer muito mais " disse o fundador do iFood e CEO da Prosus, Fabricio Bloisi, vencedor brasileiro do prêmio "Person of the Year".
Num dos painéis, empresários concordaram, em linhas gerais, com a estratégia cautelosa do governo Lula em lidar com o tarifaço de Trump. Marcelo Martins, CEO da Cosan, disse que foi bom evitar um embate direto com os EUA, já que, segundo ele, o momento requer diplomacia e foco em oportunidades comerciais de médio e longo prazo. O CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, reconheceu que a neutralidade nas relações diplomáticas é a postura correta, mas vê uma oportunidade de alinhamento com os americanos.
" É uma relação de mais de 200 anos. Não são economias completamente complementares, o que pressupõe disputas em alguns segmentos, mas há espaço para evoluirmos para estreitar parcerias com a especialização de lado a lado " disse Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio.
agenda sustentável
O comércio bilateral entre Brasil e EUA somou US$ 80 bilhões em trocas em 2024 e deve seguir forte "porque há resiliência em diversos setores", disse Abrão Neto, CEO da Amcham. Ele concorda que o governo tem adotado postura equilibrada e objetiva, privilegiando diálogo e negociação.
" Olhando à frente, o Brasil precisa intensificar o diálogo, mas é preciso buscar mais espaços para negociação. O jogo é dinâmico e relativo. Se outros países conseguem melhorar sua situação, há perda de competitividade para o Brasil.
O CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni, por sua vez, defendeu que o comércio internacional de alimentos e a segurança alimentar sejam preservados:
" Não podemos deixar que a guerra tarifária iniba as exportações de alimentos. Não podemos deixar com que as questões tarifárias inibam o combate à fome " disse.
O governador do Rio, Cláudio Castro (PL), ressaltou, por sua vez, que o estado tem inúmeras oportunidades e passou por uma reconstrução após ser o "epicentro" da operação Lava-Jato. Ao destacar as potencialidades do estado, Castro destacou que, no mês passado, o território fluminense bateu 90% da produção nacional de petróleo e 78% da produção de gás natural. Por último, enfatizou os esforços para atingir os objetivos da agenda de desenvolvimento sustentável.
" A primeira planta de eólica offshore está sendo testada no Rio de Janeiro. Acreditamos que será um grande mercado energético para um futuro muito próximo.