‘É como se, para o homem, fosse uma obrigação excepcional bancar um filho’
Um dos assuntos da semana foi a mobilização gerada por "Vale tudo", o clássico da ...
Um dos assuntos da semana foi a mobilização gerada por "Vale tudo", o clássico da teledramaturgia brasileira que ganhou uma nova versão pelas mãos de Manoela Dias, ao tratar da obrigação, nem sempre respeitada, de pais separados de bancar a subsistência de seus filhos com o pagamento de pensões alimentícias.
Na trama, a doméstica Lucimar, interpretada pela talentosa Ingrid Gaigher, é convencida a exigir de Vasco (Thiago Martins) a ajuda financeira necessária para o sustento do filho do ex-casal.
Pois a melhor pessoa para falar sobre o tema no Brasil chama-se Andréa Pachá, desembargadora do TJ do Rio, que por 15 anos atuou em Varas de Família. A autora de livros como "Segredo de justiça" e "A vida não é justa" exaltou o trabalho da novela da Globo ao abordar o tópico. "O assunto foi tratado de uma maneira muito decente. Trata-se de um direito do filho. A mãe, ao não procurar o pai, está abrindo mão de um direito da criança", reforça.
Para ela, a sociedade estabeleceu obrigações diferentes para homens e para mulheres. "É como se, para a mulher, fosse natural bancar a existência do filho, enquanto, para o pai, essa questão fosse uma ‘obrigação excepcional’. Ninguém pergunta para a mãe como ela faz para garantir a sobrevivência da criança", argumenta.
Andréa até lembrou de um caso vivido por ela em uma audiência:
"Lembro claramente quando o pai chegou à audiência reclamando que nunca quis ter filho. Disse que era uma vontade da mulher. Mas, se ele não queria ter filho, que fizesse uma vasectomia ou usasse camisinha. Se assume a responsabilidade pelo nascimento, tem que bancar a vida da criança."
Já Ingrid (foto abaixo) conta como tem sido a troca com o público após a cena ir ao ar:
"Recebi muitas mensagens de mães que, a partir da cena, despertaram para a coragem e saíram do lugar da culpa. Depois que houve todo esse movimento das milhares de mulheres se conscientizando por meio da Lucimar, recebi mensagens de alguns homens dizendo que eu deveria me preocupar com outras coisas".
Segundo números do TJ do Rio, foram protocoladas, em 2024, um total de 26.907 ações de alimentos contra pais que deixaram de cumprir com a obrigação de garantir a sobrevivência dos filhos. O número foi 44% maior ao registrado em 2023 (18.735) e 292% superior ao visto em 2019 (6.863). A tendência, aliás, é que 2025 supere a marca do ano passado. A conferir.
Nelson Lima Neto