Bc mantém selic e diz que tarifaço reforça cautela
O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) interrompeu a sequência de aumento ...
O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) interrompeu a sequência de aumento dos juros e manteve a taxa básica (Selic) em 15% ao ano na reunião encerrada ontem. O Copom indicou que o ciclo de alta está encerrado, mas reforçou a sinalização de que a Selic deve continuar no patamar atual na próxima reunião, em setembro, e por período prolongado. No comunicado da decisão, o BC destacou que o cenário atual de "elevada incerteza" exige cautela e citou especificamente o tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A decisão pela manutenção da Selic foi unânime e já era esperada pelo mercado financeiro. Todas as 123 instituições consultadas pelo Valor Pro projetavam a estabilidade da Selic em 15%. O ciclo de alta da taxa, iniciado em setembro de 2024, elevou os juros em 4,5 pontos percentuais, levando a taxa ao maior patamar desde julho de 2006.
"Em se confirmando o cenário esperado, o comitê antecipa uma continuação na interrupção no ciclo de alta de juros para examinar os impactos acumulados do ajuste já realizado, ainda por serem observados, e então avaliar se o nível corrente da taxa de juros, considerando a sua manutenção por período bastante prolongado, é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta", disse o BC no comunicado.
O Copom destacou que o ambiente externo está "mais adverso e incerto" devido à conjuntura e à política econômica americana, sobretudo suas medidas comerciais.
"O Comitê tem acompanhado, com particular atenção, os anúncios referentes à imposição pelos EUA de tarifas comerciais ao Brasil, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza."
ECONOMISTAS ANALISAM
No cenário interno, o Copom avalia que a moderação no crescimento da atividade econômica tem seguido o cenário esperado, mas ponderou que o mercado de trabalho continua apresentando dinamismo, o que vai na direção contrária de uma acomodação da inflação, como pretende a autoridade monetária. No comunicado de ontem, o comitê se limitou a dizer que as divulgações recentes ainda mostram o IPCA acima da meta de inflação.
A expectativa do mercado era de fato de manutenção da taxa, mas Fernanda Guardado, economista-chefe para América Latina no BNP, esperava que fossem revisadas para baixo as estimativas para o IPCA.
" O BC pede paciência ao mercado e sinaliza que não agirá de maneira apressada nem para cortar nem para elevar (a Selic) " disse a economista ao blog da colunista Míriam Leitão.
Para Roberto Padovani, economista-chefe do BV, não houve mudança no comunicado sobre a avaliação em relação ao balanço de riscos inflacionários:
" O BC continua preocupado com a desancoragem das expectativas, a inflação de serviços segue pressionada em função de uma atividade acima de sua capacidade e continuam as dúvidas sobre o comportamento do câmbio em função de riscos locais e globais. Então, ele sinaliza que a sua estratégia é manter esses juros parados até que a gente comece a ver movimento mais claro na inflação e nas expectativas " disse Padovani ao blog.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) manteve o juro básico do país no mesmo patamar pela quinta reunião consecutiva, como previsto pela mercado.
O Fed segura os juros entre 4,25% e 4,5% desde dezembro do ano passado, quando interrompeu um ciclo de queda iniciado em setembro de 2024. Porém, a decisão pela manutenção não foi unânime: dois dos 12 integrantes do comitê do BC americano votaram por um corte de 0,25 ponto percentual. É a primeira vez que dois membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) votam de forma contrária à maioria desde 1993.
O Fed elevou as estimativas de inflação deste ano para 2,7%, em comparação com os 2,5% previstos anteriormente. A meta de inflação é de 2%. Por outro lado, reduziu as projeções para o crescimento econômico em 2025 de 2,1% para 1,7%, com desemprego ligeiramente maior até o final deste ano. Com isso, o BC americano não descarta reduzir os juros ainda este ano.
POWELL E TRUMP
A manutenção da taxa do Fed decidida ontem acontece em meio à pressão constante do presidente dos EUA, Donald Trump, por um corte imediato dos juros. Ao comentar a manutenção dos juros, o presidente do Fed, Jerome Powell, defendeu a independência da instituição.
" Acredito que ter um banco central independente tem sido um arranjo institucional que serve ao interesse público. Isso te dá a possibilidade de tomar essas decisões, que são muito desafiadoras, com foco nos dados e nas perspectivas em evolução, na dinâmica dos riscos e em todos os fatores de que falamos, e não em pressões políticas " disse o presidente do BC americano a jornalistas.
(Com agências internacionais)