Skaf volta à fiesp com agenda contra aumento de gasto público
Depois de um hiato de quatro anos, o empresário Paulo Skaf está com data marcada para ...
Depois de um hiato de quatro anos, o empresário Paulo Skaf está com data marcada para voltar à presidência da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A partir de 1º de janeiro de 2026, Skaf, que completa 70 anos no dia 7 de agosto, reassumirá o comando de uma das principais entidades de representação da indústria brasileira, a qual comandou por 17 anos (entre 2004 e 2021).
O empresário, que na segunda-feira concorreu em chapa única e obteve 99% dos votos válidos, volta ao posto no momento em que se misturam antigos e novos desafios para a indústria nacional, como juros altos (cuja redução é uma bandeira permanente do dirigente), e a chegada de novas tecnologias, preponderantemente a inteligência artificial. Também terá de lidar com as consequências imprevisíveis do tarifaço de Donald Trump, que vai afetar exportações brasileiras aos EUA, um dos principais mercados de itens manufaturados do Brasil.
" A Fiesp vai trabalhar pela construção de uma diplomacia empresarial que consiga defender toda a cadeia produtiva junto aos parceiros comerciais históricos do Brasil, bem como atuar na construção de novos mercados para fortalecer ainda mais a indústria " declarou Skaf após sua vitória.
Ele disse que convidou Roberto Azevedo, ex-diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), que mora em Nova York, para presidir o Conselho de Relações Internacionais da Fiesp.
Skaf foi um dos empresários que se reuniu com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) para discutir os impactos do tarifaço na economia paulista. Ele afirmou que conta também com a diplomacia do governo brasileiro para baixar a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.
contra alta de imposto
Skaf prometeu, em sua próxima gestão, dar destaque para a educação, especialmente a formação de mão de obra, e buscar as oportunidades que a transformação digital oferece. Ele afirmou que irá preparar pequenas e médias empresas para competir e se reinventar. A ideia, disse, é abrir mercados e explorar melhor os que já estão abertos, especialmente o mercado americano.
O presidente eleito da Fiesp disse que a sociedade brasileira não quer mais aumento de impostos nem aceita novos tributos e, neste momento, não há nada mais importante para a economia brasileira do que a redução dos gastos públicos. Ele considera o aumento do IOF (imposto sobre Operações Financeiras) "absurdo".
" Os governos têm que parar de ser gastões " disse.
Quando encerrar este novo mandato, Skaf completará 21 anos à frente da Fiesp na emblemática sede da Avenida Paulista. Ele sucederá o empresário Josué Gomes da Silva, da Coteminas, cujo mandato se encerra em 31 de dezembro de 2025. A passagem de Josué pelo comando da Fiesp foi considerada discreta por interlocutores. Josué e Skaf têm estilos opostos tanto pessoalmente quanto politicamente.
Embora seja próximo ao governo Lula, do qual seu pai, o empresário José Alencar, foi vice nos dois mandatos anteriores, de 2003 a 2010, Josué imprimiu uma gestão comedida e apolítica à frente da Fiesp. Em sua posse, em 2022, declarou que a entidade não assumiria um papel de "partido político". Nunca fez críticas abertas " e mesmo elogios " à atual gestão federal.
Josué foi, inclusive, convidado para assumir o Ministério da Indústria e Comércio, no atual mandato de Lula, mas declinou. Durante sua gestão, o empresário viu o grupo Coteminas, um dos maiores conglomerados do setor têxtil do Brasil, entrar com pedido de recuperação judicial, em maio de 2024, com dívida próxima de R$ 2 bilhões. Sem acusar o governo federal, Josué atribuiu a situação aos juros altos. Ele se afastou da Fiesp por cerca de 40 dias para conduzir esse processo junto aos credores.
pato inflável da fiesp
Já Skaf, abertamente crítico de governos de esquerda, e próximo dos ex-presidentes Michel Temer e Jair Bolsonaro, envolveu a Fiesp em episódios políticos. Atuou pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e criou a campanha "Não vou pagar o pato", de 2015, que levou um pato inflável gigante para a frente da Fiesp. O mascote se tornou símbolo do protesto do empresariado contra alta de impostos e a volta da CPMF, mas também do apoio da entidade à saída de Dilma da Presidência.
Skaf foi "padrinho" de Josué como seu substituto na Fiesp, mas no 1º ano de mandato, houve rebelião dos sindicatos que integram a Fiesp. Eles reclamavam da pouca interlocução com o novo presidente. Até a destituição de Josué chegou a ser votada em assembleia extraordinária, mas a decisão acabou revertida. Skaf nunca falou publicamente sobre isso, mas o episódio foi atribuído a um movimento dele nos bastidores. A tranquilidade só voltou à Fiesp após Skaf e Josué assinarem carta conjunta pedindo paz na entidade.
Já o próprio Skaf, um empresário de origem no setor têxtil e forte atuação em entidades de classe, enveredou pela política ao disputar a eleição ao governo de São Paulo: foi candidato em 2010, pelo PSB, quando teve pouco mais de 1 milhão de votos e terminou em quarto lugar. Em 2014, já no MDB, teve 4,5 milhões de votos e chegou em segundo, atrás do atual vice-presidente Geraldo Alckmin, então no PSDB. Em 2018, em sua terceira tentativa para o Palácio dos Bandeirantes, chegou em terceiro. Saiu do MDB em 2022, quando se filiou ao Republicanos, partido do governador Tarcísio de Freitas.
A Fiesp representa cerca de 130 mil indústrias de diversos setores. Mas a indústria de transformação vem perdendo participação no Produto Interno Bruto (PIB) " e a manufatura paulista puxa a queda. Em 2024, esse setor teve peso de 10,8% no PIB. Em 2013, a participação era de 13,6%.
Para o professor de economia Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada da FGV da Escola de Economia de São Paulo, a indústria brasileira vive momento de novos desafios, como fazer elevados investimentos em tecnologias emergentes para ganhar competitividade. Treinar mão de obra é outro gargalo. Hoje, diz Marçal, não há espaço para pedir subsídios aos governos:
" Num cenário fiscal complicado, não há mais espaço para o empresariado brasileiro pedir subsídios. Mas as lideranças empresariais podem sim cobrar juros mais baixos.