Extrema direita lidera no chile com cartilha de trump
Ainda faltam pouco mais de três meses para o primeiro turno das eleições presidenciais no ...
Ainda faltam pouco mais de três meses para o primeiro turno das eleições presidenciais no Chile, marcado para 16 de novembro, mas é consenso entre a maioria dos analistas políticos do país que o cenário mais provável é uma vitória da extrema direita, com o apoio de setores conservadores menos radicais. Hoje, o candidato que lidera as pesquisas é José Antonio Kast, do Partido Republicano, que disputará pela terceira vez a Presidência e integra a rede da extrema direita global junto ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e ao argentino Javier Milei. Como ambos, uma das principais bandeiras do chileno é o combate à imigração ilegal. E a palavra de ordem é tolerância zero.
Em seu discurso na Conferência Política de Ação Conservadora (CPAC, na sigla em inglês) realizada na Hungria em maio, Kast deixou nítida sua posição sobre um dos temas que domina a cartilha da extrema direita global:
" A imigração ilegal não é um acidente, é uma estratégia. Trata-se de uma arma contra a liberdade dos povos.
A rejeição aos imigrantes " regulares e irregulares " cresceu de forma expressiva no Chile nos últimos anos, e está direcionada principalmente aos venezuelanos. Segundo dados do Departamento de Estrangeiros e Migrações do país, atualmente cerca de 670 mil venezuelanos representam 41,6% dos imigrantes que vivem no Chile. Em 2002, menos de cinco mil venezuelanos moravam no país.
" Vamos priorizar os chilenos que cumprem as regras, fechar as fronteiras do país e impor a ordem " declarou Kast em comícios recentes e suas redes sociais, reforçando um perfil similar ao de presidentes e candidatos da extrema direita em outros países.
GUINADA CONSERVADORA
Com um discurso linha-dura, o candidato do Partido Republicano, profundamente conservador em matéria de valores e direitos civis " Kast se opõe à legalização do aborto e ao casamento gay, ambos permitidos no Chile ", está à frente nas pesquisas de maior credibilidade no país, entre elas a da empresa de consultoria Cadem. Se a eleição presidencial fosse hoje, a candidata do Partido Comunista, Jeannette Jara, venceria o primeiro turno com 31% dos votos, contra 29% de Kast, mas seria derrotada pelo candidato da extrema direita em eventual segundo turno, em dezembro, por 49% a 37%.
A possibilidade real da extrema direita chegar ao poder levou a centro esquerda e a esquerda a selarem um pacto eleitoral. Jara venceu as primárias dos partidos que hoje integram a coalizão de governo do presidente esquerdista Gabriel Boric " que tem quase 60% de desaprovação ", e a comunista conta até com o apoio da moderada Democracia Cristã. O medo uniu siglas que divergem sobre temas como Cuba e Venezuela. Para o PC chileno, por exemplo, Cuba é "um tipo diferente de democracia".
Direita e extrema direita têm quatro candidatos. Além de Kast, disputarão Evelyn Matthei, da coalizão Chile Vamos; Johannes Maximilian Kaiser, do Partido Nacional Libertário; e Franco Parisi, do Partido do Povo. Com exceção de Kast, os demais não chegam a 15% das intenções de voto nas pesquisas, e está claro que apoiarão o líder da extrema direita no segundo turno. Kast, portanto, tem espaço para crescer.
" Desde 2017, os temas segurança e migração, que se relacionam, estão entre os principais para Kast. A preocupação com a segurança aumentou muito no Chile, e isso o beneficiou " explica ao GLOBO Patricio Navia, da Universidade de Nova York (NYU).
Enquanto Kast defende os carabineiros chilenos " a polícia nacional do país, encarregada da segurança em todo o território", Jara é identificada, acrescenta Navia, "com os protestos da revolta social de 2019".
" Naquela época, a candidata comunista usava camisetas com mensagens contra os carabineiros, e as pessoas não esqueceram. Hoje, a maioria dos chilenos pede políticas de linha dura e a esquerda perde muitos votos por isso " afirma o analista.
Para ele, "Kast representa extremistas que consideram a direita tradicional de Matthei traidora, pois não defende as mesmas bandeiras com a mesma força". Unidas em nome de uma guinada política no país, direita e extrema direita chilenas têm cerca de 60% das intenções de voto. Kast está diante de um cenário promissor, embora, como mostram as pesquisas, centro esquerda e esquerda podem conseguir manter espaço expressivo no Parlamento.
" As bandeiras da direita e, sobretudo, da extrema direita, são o combate aos imigrantes e a promessa de crescimento. E no caso da migração, sempre associada ao aumento da insegurança " aponta Marco Moreno, diretor do Centro de Democracia e Opinião Pública da Universidade Central do Chile.
MILEI CHILENO
Kaiser, chamado por alguns de o Milei chileno, é ainda mais radical do que Kast. O outsider, que foi eleito deputado pelo partido de Kast e terminou rompendo com seu agora rival, é contrário às vacinas e um admirador do presidente de El Salvador, Nayib Bukele.
" O cenário mais provável é um segundo turno entre Kast e Jara, mas hoje parece impossível que a candidata do PC ganhe. O Chile girou à direita " assegura Marta Lagos, diretora da Latinobarómetro, ONG de Santiago especializada na análise de dados sobre a opinião pública latino-americana.
A especialista lembra ainda que, "quem tem menos de 50 anos não viveu a transição da ditadura para a democracia como adulto".
Para os analistas, esse eleitorado, que está menos ligado a um passado marcado por uma das ditaduras mais violentas da América do Sul, vê em Kast e em seus prováveis aliados circunstanciais num eventual segundo turno, "a solução para os problemas que hoje mais preocupam a sociedade chilena".