Ruth de souza, a atriz que colocou o chapéu bem no alto
Grande dama da nossa dramaturgia e que desbravou, com seu talento e exemplo, o caminho ...
Grande dama da nossa dramaturgia e que desbravou, com seu talento e exemplo, o caminho para o artista negro brasileiro, Ruth de Souza foi um notável exemplo de superação da pobreza e do racismo. Filha de uma lavadeira, a atriz, ainda criança, acompanhou certa feita a mãe numa entrega de roupa aos fregueses. Nesse dia, toda orgulhosa, a mãe falou para uma madame que a filha queria ser artista.
"A mulher me olhou " nunca me esqueci daquele olhar " e disse: ‘Essa menina quer botar o chapéu onde não alcança’. Mas foi aí que resolvi botar o meu chapéu bem no alto", contou Ruth.
Dito e feito. Pouco antes de morrer, aos 98 anos, em 2019, Ruth, depois de uma sólida trajetória no teatro, no cinema e na TV " só na Globo foram mais de 30 novelas " escolheu o querido ator e escritor Lázaro Ramos para contar essa e outras histórias de vida. O resultado é o livro de memórias "A rainha da Rua Paissandu", editado pela Intrínseca, a ser lançado na próxima quinta-feira, dia 4 de setembro, na ABL. Paissandu é o nome da rua carioca onde ela morava, palco de longas conversas entre os dois grandes artistas " separados pela idade, mas unidos pela causa comum da diversidade.
"Ruth foi alguém que lutou pelo justo direito de pessoas negras terem seu espaço e de o povo poder ver a diversidade que o constitui representada nas artes", diz Lázaro.
Ela, que também foi homenageada na novela "Garota do momento", exibida no primeiro semestre na Globo, viveu para ver o aumento do protagonismo negro em diferentes campos artísticos.
"Ruth estava muito feliz com o crescimento da presença de atores e atrizes negros", prossegue Lázaro. "Afinal, trabalhou para isso", completa.
O ator conta que ela costumava reunir muitos desses artistas aos domingos, ia aos seus espetáculos, contava sua história e dava conselhos:
"Ruth não viu de longe esse avanço, ela fez parte dele".
Nem sempre foi assim, claro. Durante muito tempo, o artista negro desempenhou papel secundário. Existia até mesmo o recurso do blackface " quando o ator branco se pintava para fazer o papel de preto. Essa história começa a mudar, em parte, em 1945, quando a primeira atriz negra, uma jovem de 17 anos, sobe ao palco do Teatro Municipal. Seu nome: Ruth de Souza.