Número de consultorias de investimento dá salto
As consultorias de investimentos viraram moda no Brasil, com o empurrão de uma norma que ...
As consultorias de investimentos viraram moda no Brasil, com o empurrão de uma norma que tornou as remunerações dessa indústria mais transparentes. Os consultores indicam investimentos de maneira mais individual e independente e são mais alinhados aos interesses dos investidores do que os assessores das corretoras, que ganham incentivos pelos produtos vendidos. Mas as consultorias também têm conflitos e são diferentes entre si, então é preciso atenção na hora de escolher.
Assessor e consultor de investimentos parecem ser a mesma função, mas não. O assessor distribui os investimentos de uma plataforma, enquanto o consultor aconselha sobre investimentos de várias corretoras e bancos, além de fazer um planejamento patrimonial mais completo para o longo prazo, conforme necessidades e objetivos do investidor.
O assessor pode receber comissões, mas o consultor ganha somente uma taxa fixa anual do investidor, paga sobre o valor total aplicado. Esta varia normalmente entre 0,4% e 1% ao ano. Quanto maior o patrimônio investido, menor é a taxa.
O número de consultorias de investimento registradas como pessoa jurídica na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) disparou de 110 em 2020 para 445 em 2025, um salto de 304% nesse período. Já o número de profissionais pessoas físicas aumentou de 552 para 1.966 no período, uma alta de 256%.
O boom ocorre após a entrada em vigor da Resolução 179 da CVM, em novembro de 2024, que tornou mais transparente a remuneração de corretoras e assessores de investimentos.
" Estamos caminhando para um mundo de mais transparência, e a maturidade do investidor aumentou " diz Renato Breia, sócio-fundador do grupo Nord Investimentos, que tem um braço de consultoria de investimentos, a Nord Wealth. " Ele (investidor) deixou o banco, entrou nas plataformas de investimentos, comprou mais produtos e agora deseja um relacionamento melhor, mais alinhado a seus interesses.
Conflito de interesses?
Outro ponto é que os juros elevados (a Selic está em 15% ao ano) tornaram a renda fixa mais competitiva " só que as comissões desse tipo de investimento são menores. Isso reduz o ganho das assessorias de corretoras, que acabam abrindo uma consultoria a fim de, pelo menos, ter uma receita mais previsível. Em julho, a XP, por exemplo, abriu uma consultoria para pessoas que têm a partir de R$ 1 milhão em aplicações.
" O mercado de investimentos cresceu de uma maneira não tão sustentável, com as plataformas impulsionando a distribuição dos investimentos pelo modelo de comissão. As plataformas se preocuparam mais com a captação dos clientes e menos com a retenção, que está relacionada a uma melhor experiência dos clientes. Mas, nesse mercado, a retenção é extremamente importante, e o modelo de assessoria por comissão deu uma esgotada " afirma Guilherme Assis, fundador da Gorila, empresa de soluções de tecnologia para o mercado financeiro.
Ele avalia que as consultorias estão ganhando terreno porque os clientes não buscam apenas produtos de investimento:
" Eles demandam uma experiência melhor. E pela primeira vez, várias consultorias estão com estrutura suficiente para crescer, acessando ferramentas que permitem atender mais clientes com menos patrimônio.
É preciso ter em mente ainda que, apesar de as consultorias estarem mais alinhadas com os interesses dos investidores, elas também têm conflitos de interesse. Nos bastidores da indústria, o que se ouve é que uma consultoria pode ser menos independente, na prática, se for aberta por um banco, corretora ou assessoria ligada a uma plataforma.
Os consultores ligados a esses negócios podem ter maior interesse em distribuir os produtos dos parceiros do que os da concorrência, mesmo que, diretamente, não recebam comissões para isso. Eles também tenderão a seguir a análise dessas empresas, interessadas em vender os seus produtos.
Uma fonte da indústria diz achar "espetacular" o movimento de corretoras e bancos abrirem consultorias próprias, "o que valida a tese de que os modelos de gestão de patrimônio estão se transformando." Mas ressalta que "dificilmente" a consultoria oferecida por uma plataforma mandará o dinheiro do cliente para um concorrente.
Por outro lado, pode ser melhor contar com uma consultoria com estrutura grande do que com uma nova e pequena, com menos estrutura de educação e de análise. Abrir uma consultoria é fácil, mas manter o negócio e oferecer um serviço de qualidade, nem tanto.
De modo geral, agentes do mercado estão animados com a proliferação das consultorias de investimentos, pois isso mostra que há um esforço para atender melhor o investidor e denota amadurecimento, como ocorreu nos Estados Unidos. Mas o investidor precisa cuidar para contratar uma consultoria que ofereça um serviço de qualidade por um preço justo.
" Não adianta contratar uma consultoria que é independente, mas muito pequena e com pouca infraestrutura para dar bons conselhos sobre investimentos " afirma José Brazuna, sócio da plataforma de serviços para gestores de fundos e consultores Iaas!. " O negócio pode ter seus conflitos de interesse, mas precisa ser competente.
Assis, da Gorila, observa que nenhum negócio é absolutamente isento. E diz que o investidor precisa conversar com outros clientes para saber se estão satisfeitos:
" O santo precisa bater com quem está atendendo, porque a consultoria é um negócio de relacionamento.
Para Guilherme Sant’Anna, diretor de canais da XP, os investidores devem escolher como desejam ser atendidos e a forma de remunerar esse serviço, na consultoria ou na assessoria:
" Não acreditamos que exista um modelo único para todos os investidores.
Ele diz que a independência é a "natureza" da operação de consultoria, e os consultores da casa não ganham qualquer tipo de incentivo atrelado aos produtos vendidos. Segundo Sant’Anna, a atuação considera todo o patrimônio do investidor, independentemente de quais plataformas ele usa.
‘Espaço para todos’
A XP espera que surjam mais consultorias independentes, inclusive como braços das assessorias de investimentos, e pretende oferecer governança, infraestrutura e tecnologia para que esse modelo cresça.
É consenso entre os especialistas que os modelos de consultoria e de assessoria coexistirão daqui em diante e um não vai substituir o outro.
" O espaço existe para todos, porque muitos brasileiros ainda deixam o dinheiro na poupança ou nos fundos conservadores " diz Hugo Daniel Azevedo, sócio da MFS Capital e gestor de patrimônio.
Os consultores são indicados para os investidores que buscam conselhos individuais de planejamento patrimonial pensando no longo prazo, sem o receio de que uma sugestão seja feita apenas para o assessor ganhar mais. Já os assessores são indicados para os investidores que não demandam conselhos ou não mexem muito na carteira. Independentemente do modelo, o mais importante é o investidor se sentir bem atendido.