Tensões e incertezas abrem espaço a ampliar relações brasil-china
Em um cenário global mais fragmentado, volátil e competitivo, tensões geopolíticas e ...
Em um cenário global mais fragmentado, volátil e competitivo, tensões geopolíticas e incertezas no comércio internacional ampliam riscos, mas também abrem espaço para que Brasil e China, embora enfatizem a defesa do multilateralismo, elevem sua relação bilateral a um novo patamar, com uma agenda mais ambiciosa. Esse foi o tom predominante do primeiro dia do "Summit Valor Brazil-China 2026", realizado ontem em Xangai. O evento é organizado pela Editora Globo e pelo Valor Econômico, em parceria com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e a Associação de Amizade da China com Países Estrangeiros (CPAFFC).
Ponto de inflexão
Ao longo de oito painéis, acompanhados por um público de mais de 200 pessoas dos dois países, autoridades, empresários, executivos e especialistas de China e Brasil convergiram na avaliação de que a parceria atravessa um ponto de inflexão, permitindo avançar além das complementaridades econômicas tradicionalmente destacadas nos discursos oficiais. Os debates apontaram a necessidade de aprofundar a cooperação em áreas estratégicas, como transição energética, logística e infraestrutura, inteligência artificial, agronegócio e saúde, com maior integração produtiva. A conciliação entre desenvolvimento e preservação ambiental, sustentada por investimentos de longo prazo, pode orientar o novo papel de ambos os países no redesenho da dinâmica econômica global.
O seminário foi a primeira etapa de uma agenda de três dias, que inclui visitas a centros de inovação, agendas de negócios, networking e experiências de imersão na cidade, aproximando os participantes do universo cultural, tecnológico e econômico de Xangai.
Para Frederic Kachar, diretor-geral da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio, o Brasil pode se consolidar como um hub para a indústria chinesa. Segundo ele, o enfraquecimento do multilateralismo reforça a importância de relações bilaterais mais estreitas.
" Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do Brasil, e essa relação evoluiu, explorando as vocações de cada lado, com uma clara orientação de complementaridade entre as economias " afirmou.
O conselheiro consultivo internacional do Cebri Marcos Caramuru, que foi embaixador do Brasil na China, complementou:
" É lugar-comum, nos dias de hoje, dizer que vivemos em um mundo de incertezas, onde aliados históricos não se reconhecem como antes e onde os valores da ordem global estão se perdendo, mas onde ainda há espaço para a cooperação, desde que os países saibam construir confiança, ter foco e perseverança.
Chen Jing, vice-presidente do Comitê Permanente do Congresso Popular Municipal de Xangai e presidente da CPAFFC, mencionou iniciativas em curso entre a cidade chinesa e governos regionais brasileiros, como o de Mato Grosso, destacando o potencial de cooperação. Shen Xin, vice-presidente da CPAFFC, destacou que a China mantém mais de 3,1 mil acordos de cidades-irmãs com 152 países, sendo 64 com o Brasil " um instrumento de cooperação que pode ser ampliado.
O embaixador do Brasil na China, Marcos Galvão, ressaltou o cultivo de uma relação diplomática cuidadosa ao longo de décadas:
" As relações entre o Brasil e a China são permanentes, estratégicas, e isso não é apenas retórica " disse. " O fato é que, infelizmente, estamos vivendo em tempos de tormentas que se sucedem. E temos que estar sempre prontos a avançar sob o impulso de novas correntes.
Um multilateralismo que tem a natureza como aliada foi o foco de um dos painéis sobre a parceria Brasil-China em um mundo de novas relações comerciais. Para Izabella Teixeira, conselheira consultiva internacional do Cebri e ex-ministra do Meio Ambiente, é necessário superar a visão limitada à preservação e reconhecer a dependência global dos recursos naturais.
Ambiente de negócios
A concentração das exportações brasileiras para a China também voltou ao debate. O embaixador Marcos Galvão lembrou que 75% das exportações do Brasil estão concentradas em três produtos " soja, petróleo bruto e minério de ferro ", enquanto a pauta chinesa se diversificou com o avanço tecnológico.
" Queremos que os investimentos chineses não se limitem a buscar o consumo brasileiro e se tornem plataformas de exportação de manufaturados. Isso ajudará o Brasil a revitalizar sua industrialização " afirmou.
Alexandre Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), destacou a necessidade de o agronegócio brasileiro migrar de um modelo de expansão para um de intensificação produtiva, com a preservação ambiental como aliada:
" A ciência já começa a mostrar esses resultados. A soja é até 20% mais produtiva se plantada a até 100 metros de uma floresta.
Os participantes reconheceram avanços em setores como infraestrutura e indústria automobilística. Um dos exemplos citados foi a BYD, que, após rápido crescimento no mercado brasileiro, expande suas operações com a produção de veículos na Bahia.
Há setores com espaço para maior cooperação, como o farmacêutico. Letícia Frazão Leme, ministra-conselheira da embaixada brasileira em Pequim, destacou o avanço da China na área de ensaios clínicos. Hoje, o país asiático responde por 30% dos estudos globais, contra 36% dos Estados Unidos. Em 2018, os chineses tinham apenas 8%, frente a 47% dos americanos. O Brasil, por sua vez, representa cerca de 2% e busca dobrar essa participação.
" A ausência de ensaios no país faz com que as farmacêuticas chinesas registrem seus medicamentos primeiro na Europa e nos Estados Unidos, para depois chegar ao Brasil. O processo brasileiro acaba sendo uma derivação desses mercados, o que o torna mais lento e caro " afirmou.
Os painelistas chineses se mostraram preocupados com o excesso de carga tributária e a burocracia no Brasil. Chen Weijing, vice-diretora da agência comercial de Hangzhou, disse que 25 minutos é o tempo que se leva para abrir uma empresa em sua cidade. Li Shiseng, vice-presidente executivo do Power China Internacional Group, criticou a variedade de impostos no país.
" Se alguma empresa escorregar em algum ponto, ela pode ser penalizada em grandes proporções. Essa é uma das causas que afastam investimentos estrangeiros no Brasil " disse ele.
Discussão de soluções
O cenário internacional também foi alvo de críticas. Xu Tianqi, vice-diretor do Departamento de Estudos Regionais do Instituto Chongyang e da Universidade Renmin da China, criticou a estratégia dos Estados Unidos:
" Desde a Segunda Guerra, os EUA usam alianças para derrotar inimigos. A China não considera esse tipo de relacionamento saudável. Isso gera confronto.
Segundo Izabella Teixeira, "a China já exerce protagonismo na transição climática, estejam ou não os Estados Unidos a bordo". Já Marcos Galvão reforçou que "o Brasil é um defensor histórico do multilateralismo, porque ele é o antídoto ao exercício desimpedido do poder".
Para a diretora de Redação do Valor, Maria Fernanda Delmas, o Summit foi um momento para colocar desafios e oportunidades macro à mesa e também discutir a fundo as soluções para cada segmento a ser explorado na relação entre os dois países.
O "Summit Valor Econômico Brazil-China 2026" é o terceiro evento do gênero promovido pelo jornal na China desde 2024. Esta edição tem patrocínio de BYD, Prefeitura do Rio, por meio da Invest.Rio, Embratur, Governo do Estado do Rio de Janeiro e ApexBrasil, com apoio de Prefeitura de São Paulo e São Paulo Negócios, Suzano, CBMM, Alibaba, World Resources Institute, Instituto Clima e Sociedade (iCS), CNA Senar e Confederação Nacional da Indústria (CNI). Não há despesas bancadas pelo jornal em caso de convites feitos a agentes públicos que façam parte dos debates.