Jueves, 26 de Marzo de 2026

Censo 2022 retrata a alta desigualdade entre cidades

BrasilO Globo, Brasil 10 de octubre de 2025

Nova Lima (MG), polo de mineração que abriga bairros residenciais de alto padrão nas cercanias de ...

Nova Lima (MG), polo de mineração que abriga bairros residenciais de alto padrão nas cercanias de Belo Horizonte, é o município de maior renda per capita do Brasil. Uiramutã (RR), a "cidade mais indígena" do país, está na outra ponta, com a população mais empobrecida. E a distância entre as duas pode ser maior que os 3,3 mil quilômetros, em linha reta, que as separam: na mais rica, o ganho médio por pessoa é 15 vezes a da mais pobre, segundo dados do Censo 2022 divulgados ontem pelo IBGE.
De 2022 para cá, a retomada da economia após a pandemia, que impulsionou o mercado de trabalho ao seu melhor momento histórico no país, e o aumento dos benefícios dos programas sociais de transferência de renda derrubaram a pobreza, mas esses movimentos mais recentes só aparecem nos dados nacionais, estaduais ou, no máximo, no nível das capitais.
Os dados municipais do Censo 2022 divulgados ontem, embora mais antigos, evidenciam desigualdades estruturais que ainda perduram entre as regiões do país. Em 520 dos 5.571 municípios brasileiros, uma fatia de 9,3% do total, o rendimento médio do trabalho era inferior a um salário mínimo (R$1.212, em valores de 2022). Por outro lado, em apenas 19 cidades a renda média por trabalhador ficou acima de quatro pisos (R$ 4.848, também em valores da época).
O rendimento domiciliar per capita " que considera o valor disponível para todos os moradores do domicílio, incluindo quem não tem renda, como crianças ou idosos que não sejam aposentados " de Nova Lima foi de R$ 4.300 mensais, em valores de 2022. A cidade lidera o ranking também quando se considera apenas a renda do trabalho: R$ 6.929 por mês por trabalhador.
Nova Lima é tradicional na mineração. Foi pioneira na extração de ouro e sedia unidades da mineradora Vale: os complexos de Vargem Grande e Paraopeba, além de uma usina de pelotização. A 45 minutos de carro de Belo Horizonte, também serve de residência para quem trabalha na capital mineira.
Bruno Mandeli, pesquisador do IBGE, ressaltou que essa última característica está presente em outras cidades no topo do ranking da renda per capita no país, como São Caetano do Sul (SP), Niterói (RJ) e Santana do Parnaíba (SP):
" São cidades de porte médio dentro de regiões metropolitanas. E local de residência de pessoas de renda maior.
Nova Lima já tinha se destacado em rankings de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) municipal, também do IBGE, e no Mapa da Riqueza, um estudo do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV Social) que usou também dados das declarações anuais do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) para medir os rendimentos.
subúrbio de alta renda
O Mapa da Riqueza é referente a 2020, mas, segundo Marcelo Neri, diretor do FGV Social, após atualizar o topo do ranking com valores de 2023, os mais recentes disponíveis na base do IRPF, a cidade mineira continua na ponta. Ao combinar as características de base de produção mineral e "subúrbio de alta renda ao estilo americano", Nova Lima também se destaca por causa de mudanças de comportamento.
" Muitas das escolhas de moradia têm uma questão trabalhista, (a cidade) ter uma atividade econômica forte, mas também de qualidade de vida. À medida que a população envelhece, escolhe morar não onde vai conseguir trabalho, mas onde terá boa qualidade de vida " afirmou Neri.
Além da diferença dos ganhos médios de Nova Lima para Uiramutã " que fica na tríplice fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana, região ocupada pela Terra Indígena Raposa Serra do Sol, lar dos povos Ingarikó, Macuxi, Patamona, Taurepang e Wapichana ", outro retrato da desigualdade é o ranking dos municípios por peso da renda do trabalho no total dos ganhos das famílias.
Tipicamente, o trabalho, formal ou informal, responde por entre 70% e 75% do total dos ganhos dos domicílios, segundo diferentes pesquisas do IBGE. O restante vem de aposentadorias, pensões, programas sociais e de transferência de renda, aplicações financeiras, lucros e aluguéis de imóveis.
Desenvolvimento desigual
Na média nacional do Censo 2022, o índice foi de 75,5% do rendimento domiciliar vindo do trabalho, enquanto 24,5% vieram de outras fontes. No entanto, em 77% dos municípios, a participação da renda do trabalho ficou bem abaixo disso.
Em Uiramutã, 51,9% dos ganhos domiciliares vêm do trabalho. Os dez municípios com as menores participações estão no Nordeste, seis deles no Piauí. O último do ranking é Vera Mendes (PI), com apenas 23%, um sinal de que o mercado de trabalho local vai mal e, portanto, as famílias dependem de outras fontes, como os programas sociais, para se sustentar.
O mercado de trabalho se mostra mais aquecido nas cidades movimentadas pelo agronegócio, no Centro-Oeste, com destaque para Mato Grosso. Oito das dez cidades no topo do ranking são mato-grossenses, com Querência na liderança. Por lá, na média, 93,7% dos ganhos domiciliares vêm do trabalho. E na mineira Nova Lima, 84,5% da renda domiciliar têm essa origem.
Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence, especialista em mercado de trabalho, ressaltou que a dinâmica de emprego e renda reflete as desigualdades regionais da economia. Como as discrepâncias no desenvolvimento regional são uma marca brasileira, o mesmo ocorre no mercado de trabalho.
" O mercado de trabalho nunca é causa, mas, sim, consequência. Então, se há desigualdades e discrepâncias regionais, não é por conta do mercado de trabalho. Ele é um retrato de outras desigualdades entre regiões " explicou Imaizumi.
Segundo o economista, embora, de 2022 para cá, o mercado de trabalho tenha melhorado, a ponto de fomentar o debate sobre se o Brasil estaria em situação de pleno emprego, nada indica que tenha havido "tanta melhoria" na questão das desigualdades.
Nos dados conjunturais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad-C), também do IBGE, a taxa de desemprego de 5,8%, registrada no segundo trimestre no plano nacional, está nas mínimas históricas, mas foi composta por uma taxa de 2,2% em Santa Catarina, a menor do país, e pelos 10,4% de Pernambuco, a maior.
melhora recente
Por outro lado, segundo Neri, do FGV Social, os dados do Censo 2022 ainda refletem um momento de estagnação no processo de redução das desigualdades de renda no país, que mudou de lá para cá.
Após um movimento de redução da pobreza e ascensão da chamada "classe C", entre o ano 2000 e a metade dos anos 2010, que levou a alguma queda nas desigualdades, a pobreza e as discrepâncias de renda voltaram a subir nos últimos dez anos, período marcado pela grande recessão de 2014 a 2016 e pela pandemia de Covid-19.
" Em 2023, a pobreza cai, mas a desigualdade só cai em 2024 e 2025. As boas notícias, olhando para o país como um todo em termos de desigualdade, só vão chegar mais recentemente " afirmou Neri.
Citando os dados conjunturais da Pnad-C, o diretor do FGV Social afirmou que, de 2022 para cá, houve um maior dinamismo do aumento das rendas, tanto do trabalho quanto de outras fontes, no Nordeste, na comparação com as demais regiões. Ainda assim, é cedo para saber quais poderão ser os efeitos em termos das desigualdades regionais, frisou Neri.
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