Brasileiro é conservador ao investir na previdência. por quê?
O mercado de previdência evoluiu muito nos últimos anos, especialmente com mudanças ...
O mercado de previdência evoluiu muito nos últimos anos, especialmente com mudanças legislativas que permitiram a criação de produtos mais arrojados. Agora há fundos de previdência para (quase) todos os gostos. E isso se reflete no rendimento deles: segundo levantamento do Valor Investe, 24% deles tiveram rentabilidade acima de 120% do CDI (taxa que segue de perto a Selic) este ano. No entanto, a maior parte do patrimônio líquido dos fundos de previdência se concentra em produtos conservadores, que rendem entre 95% e 105% do CDI. Gestores avaliam que isso pode mudar, mas depende de alguns fatores.
O levantamento mapeou 2.511 fundos de previdência disponíveis no mercado. Destes, 24% renderam mais de 12,40% no período de janeiro a setembro deste ano, o equivalente a 120% da variação de 10,36% do CDI no mesmo intervalo. Mas o patrimônio líquido desses fundos representa apenas 3% do total " ou seja, nem a rentabilidade maior anima os investidores a alocarem recursos em produtos mais arrojados.
Já os fundos que rendem entre 95% e 105% do CDI neste ano são 36% do total e concentram 68% do patrimônio líquido. Ou seja, os investidores ainda se concentram em opções mais conservadoras, mesmo que o horizonte de longo prazo seja propício para assumir riscos.
" Para quem tem objetivos de longo prazo, é melhor sair de produtos atrelados ao CDI. Como tem tempo, a probabilidade de ter retorno maior do que o indicador é muito alta. Em seis meses, é possível que um fundo multimercado não bata o CDI. Mas no nosso caso aqui, no horizonte de três anos, 100% dos nossos fundos superam o CDI " afirma Bruno Cordeiro, gestor da Kapitalo.
A gestora tem no portfólio o fundo de previdência Kapitalo K10, que teve rendimento de 150% do CDI este ano.
Novas regras ajudam
Cordeiro observa que muitos dos investidores vieram da poupança, portanto têm alta aversão arisco:
" Esse investidor ainda não percebeu que o ambiente de previdência consegue oferecer produtos que vão melhorar muito a rentabilidade no longo prazo.
Rogerio Calabria, superintendente de produtos de investimento e previdência do Itaú Unibanco, vê uma "grande dicotomia" nesse mercado:
" O maior tempo da aplicação em previdência não leva o investidor a ter uma postura mais agressiva.
Os especialistas ressaltam, no entanto, que as gestoras "têm feito a sua parte" e se movimentado para oferecer alternativas mais sofisticadas, especialmente após mudanças regulatórias no setor.
" A gente sempre olhou o segmento de previdência, mas nossa conclusão durante muito tempo foi que, dada a regulamentação, não valia a pena lançar produtos porque não conseguiríamos replicar os que eram de alta performance " diz João Carlos Pinho, sócio-fundador da Kapitalo. " Quando houve uma flexibilização da regulamentação, aí entramos, porque vimos que dava para reproduzir, com alguma segurança, o que já fazíamos nos nossos fundos multimercados.
De fato, o avanço regulatório foi um marco. A resolução nº 4.444, de 2015 ampliou os tipos de ativos que cada classe de fundos de previdência poderia ter em seu portfólio e mudou os limites de alocação em relação ao valor total da carteira. Antes, o investimento máximo em renda variável dos planos abertos de previdência era de 49%. Com a norma, passou a 70% para investidores em geral e a 100% nos planos exclusivos para investidores qualificados (aqueles com mais de R$ 1 milhão em aplicações). Mais recentemente, a resolução nº 4.993, de 2022, consolidou as normas anteriores e deu ainda mais flexibilidade para a gestão dos fundos de previdência.
" A prateleira dos produtos de previdência tem evoluído bastante com as mudanças da legislação " diz Fernando Cavallete, especialista de portfólio da Itaú Asset.
Mas, ainda que a migração dos investidores para produtos de previdência mais arrojados seja lenta, há sinais de que ela está acontecendo. No Itaú, a captação bruta em fundos multimercado de previdência era 8% do total em abril deste ano. Em setembro, atingiu 22%.
No Itaú, o destaque foi o fundo Artax, que rendeu 124% do CDI nos primeiros nove meses deste ano.
Um IOF no meio do caminho
Se por um lado o cenário regulatório ficou mais favorável, por outro uma nova tributação pode desacelerar o avanço do setor. Um recente decreto do governo passou a tributar com o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 5% aportes acima de R$ 300 mil em 2025, e acima de R$ 600 mil a partir do ano que vem, nos planos do tipo Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). Para os gestores, foi um balde de água fria.
" Em 2024 vimos captação positiva para fundos de previdência na ordem de R$ 38 bilhões. Em 2025 vimos uma reversão, com resgates de R$ 31 bilhões " diz Fernando Pairol, superintendente comercial da Bradesco Asset, para quem a mudança no IOF "afugentou quem alocava em previdência".
Na gestora, o fundo com maior captação neste ano foi Bradesco Ultra, um fundo de crédito privado que rendeu 108% do CDI.
Outro fator que pode atrapalhar o desenvolvimento do setor, especialmente a popularização de produtos mais arrojados, é a combinação de juros altos e incerteza política, o que afasta o investidor de alternativas de maior risco.
" Quando falamos de juros a 15%, um cenário político conturbado e muitas mudanças regulatórias que afetam os investimentos, para mim é uma combinação perfeita que empurra o investidor para a renda fixa " diz Pairol.
Portanto, um aumento da alocação em produtos de previdência mais sofisticados passa também por um ambiente macroeconômico mais favorável, com menos riscos no radar e uma Selic menor. Isso porque a Selic é referência para a maioria dos investimentos de renda fixa: quanto mais alta, maior o rendimento das aplicações conservadoras.
Ainda assim, os especialistas acreditam que o mercado de previdência tende a se sofisticar.
" Hoje, você consegue garimpar no ambiente da previdência produtos de renda fixa, crédito e Bolsa que são bons. Como vai ser a composição das aplicações depende do apetite a risco de cada investidor " afirma Cordeiro.
Pinho destaca a chegada de novos distribuidores, como as plataformas de investimento, que facilitam o acesso desses fundos ao público geral. Com maior acesso a produtos mais sofisticados e de melhor rentabilidade, diz, "ficou mais fácil encontrar alternativas melhores."
" Estamos cada vez mais ampliando a oferta de alternativas para acabar com essa percepção de falta de sofisticação " afirma Pairol.
Calabria, do Itaú, diz ainda que o mercado tende a se adaptar, buscando atrair o cliente mais jovem para acompanhá-lo desde o início de sua jornada financeira.
Já Cavallete avalia que o futuro do setor dependerá da capacidade de unir inovação, educação financeira e assessoria qualificada para tornar o investimento previdenciário mais acessível, estratégico e sustentável no longo prazo.