Na febre dos ‘estúdios’, charlie quer dar a chave ao investidor
Em 2004, Aarti Waghela, matemática formada em Oxford, colocou seu apartamento em Notting Hill para ...
Em 2004, Aarti Waghela, matemática formada em Oxford, colocou seu apartamento em Notting Hill para alugar e, com as libras acumuladas no mercado financeiro de Londres " chegou a vice-presidente de derivativos de ações do Goldman Sachs ", partiu para uma volta ao mundo. Ao longo de quatro anos, visitou dezenas de países. De um deles, não conseguiu mais sair.
" O Rio é meu lugar no mundo. Quando vi a união da natureza com o cenário urbano e o astral das pessoas, me apaixonei. Sempre que vou a Londres sofro um choque cultural severo " conta a inglesa de ascendência indiana, que fincou raízes em Copacabana em 2008 e, desde então, convenceu os pais de que pastel de feira com caldo de cana é iguaria à altura de curry ou chicken masala.
Hoje, a "gringa" carioca está na dianteira de uma tendência que chacoalha o mercado imobiliário de sua cidade do coração e de outras capitais brasileiras. Aarti é diretora de crescimento da Charlie, startup que tem a Cyrela entre seus investidores. A companhia, que se posiciona como um concierge, é uma das principais gestoras de apartamentos comprados por investidores para a geração de renda por meio de aluguéis de curta duração.
Na febre dos "estúdios" " os microapartamentos que costumavam ser chamados de quitinete ", por exemplo, a Charlie se posiciona junto aos investidores já no lançamento dos empreendimentos, em parceria com as incorporadoras. A startup também administra imóveis de fundos imobiliários como os das gestoras Kinea, Pátria, Rio Bravo e Hectare.
" Nosso modelo com a incorporadora é ajudar a vender as unidades ao público investidor. Não temos foco especial em "estúdio", mas é o "estúdio" que muitas vezes cabe no cheque que o investidor pode fazer " explica.
O portfólio da Charlie soma 2,5 mil apartamentos " ou 3,5 mil, se considerados também os já assinados, mas que ainda não entraram na plataforma ", distribuídos por 82 prédios de São Paulo, Rio e Porto Alegre. A startup fica com parcela da renda gerada com os aluguéis.
" Hoje, 90% da carteira ainda estão em São Paulo. Mas o foco de crescimento agora é o Rio. Temos poucos apartamentos já listados na cidade, mas cem assinados para entrar. Concentramos nossa atuação em prédios novos, que entregam um padrão de qualidade. Há vários empreendimentos a serem entregues no Rio nos quais atuamos " diz a executiva da Charlie, fundada por Allan Sztokfisz e Flavio Ghelfond.
Um exemplo é o retrofit do icônico Hotel Everest, em Ipanema, que a SIG está transformando em residencial com "estúdios". A Charlie também atuou no Gate By Yoo, projeto da Cyrela em frente ao Santos Dumont que terá 579 "estúdios". Os investidores ficaram com 90% das unidades, que se esgotaram em três dias. Ao todo, a Charlie já participou do lançamento de mais de dez empreendimentos no Rio.
Segundo Aarti, a demanda por locação de apartamentos por períodos breves " ou seja, como alternativa a hotéis " tem explicação tanto econômica quanto comportamental.
" A diária no Rio já é mais cara por natureza, mas os hotéis da cidade ficaram muito caros. Muitos turistas não conseguem pagar. E, do lado do investidor, muitos adotam a estratégia de comprar apartamentos para alugar no Rio porque também têm interesse em usufruir deles. No modelo de locação de curta duração, ele consegue fazer isso " observa a executiva.
Há também demanda menos óbvia:
" Diferentemente de São Paulo, o turismo de lazer no Rio é predominante. Mas a cidade ainda atrai o fenômeno dos nômades digitais. Esse público não consegue ficar em hotel, mas precisa de flexibilidade.
Para a Charlie, o Rio é a parte mais importante de um projeto maior: nacionalizar o modelo. A meta da startup é, daqui a cinco anos, ter 16 mil apartamentos em pelo menos 15 cidades:
" Já temos contrato para lançar projetos em Belo Horizonte, Florianópolis e Itajaí (SC).
Uma das estratégias é surfar o crescimento de gigantes da locação de curta duração. Embora 35% das reservas já sejam feitas por meio de canais próprios da Charlie, o grosso ainda vem de plataformas como Airbnb e Booking, nas quais a startup também lista os "apês".