Eleições latino-americanas deste ano devem estar na mira de líder dos eua
f ator trump
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Até o retorno de Donald Trump ao poder nos EUA, há um ano amanhã, a Casa Branca adotava uma atitude cautelosa em relação à política interna dos demais países do continente, sobretudo durante processos eleitorais " mas não apenas. O governo Trump 2.0 abandonou tons e atitudes ambíguas e decidiu jogar abertamente a favor de seus aliados e contra seus adversários latino-americanos e na América do Norte. Para isso, adotou duas estratégias essenciais: promessas de ajuda e de um relacionamento privilegiado, a quem deseja favorecer, e ataques militares, ameaças, sanções e tarifaços para intimidar governos inimigos. Após um primeiro ano com permanentes sobressaltos e até mesmo uma ação militar inédita na América do Sul nos últimos 200 anos, é impossível pensar a política do Hemisfério Ocidental sem considerar o fator Trump como central.
Este novo cenário continental, agora com a Venezuela chavista construindo uma aliança pragmática com o republicano, teve forte influência em eleições importantes na região em 2025 e continuará tendo em 2026. No ano passado, o presidente da Argentina, Javier Milei, recebeu um socorro financeiro crucial dos EUA às vésperas das eleições legislativas de 26 de outubro, nas quais obteve uma vitória surpreendente " em grande parte vista como consequência da ajuda dos EUA. Pouco menos de dois meses depois, o candidato direitista José Antonio Kast foi eleito presidente do Chile. Como estava claro que a candidata do governo, a comunista Jeanette Jara, praticamente não tinha chances de vencer, Trump não se envolveu no pleito local. Mas no Chile ninguém duvida que, nas atuais circunstâncias, um candidato ideologicamente próximo de Trump " elemento central na equação política do presidente dos EUA " ganhou pontos no eleitorado local.
Porrete e cenouras
Neste ano, será a vez de peruanos, colombianos e brasileiros elegerem um novo presidente ou, no caso do Brasil, reelegerem ou não Luiz Inácio Lula da Silva. Nos três pleitos, aponta Juan Tokatlián, professor da Universidade Di Tella de Buenos Aires e membro do recentemente lançado Conversatório Latino-Americano, uma iniciativa acadêmica regional que conta com a participação de várias universidades da região, "existem razões para acreditar que Trump se envolverá em todos".
" Com Trump, terminaram a ambiguidade e a cautela americana frente à política latino-americana. Nessa nova fase, uma coisa ficou clara em 2025: quando Trump vira monstro e ameaça com seu porrete [punição], a jogada pode dar errado, como vimos no Canadá e no Brasil; quando Trump oferece cenouras [recompensa] a seus aliados, as coisas funcionam melhor " explica Tokatlián.
A observação tem se comprovado na realidade. As cenouras mostradas para a Argentina " algumas delas ainda sem definição, como o prometido pacote de ajuda financeira de bancos americanos " renderam uma boa eleição legislativa para Milei. Já no Canadá, o liberal Mark Carney venceu as eleições do ano passado, aponta Tokatlián, "porque foi visto como garantia de que Trump, que ameaçou até mesmo anexar o território vizinho, não atropelaria o país".
Numa eleição que teve menos destaque regional, Nasry "Tito" Asfura, do Partido Nacional, foi proclamado presidente eleito de Honduras em 24 de dezembro de 2025 pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), quase um mês após as eleições, em 30 de novembro. No caso de Honduras, diferentemente da Argentina, não houve promessa de ajuda para o candidato preferido pela Casa Branca, mas sim apoio explícito, o que transformou Asfura no candidato de Trump. Durante a campanha, o presidente americano se referiu ao então candidato hondurenho como "aliado contra os narcocomunistas".
No Brasil, a ofensiva do presidente americano contra o governo Lula e, num primeiro momento, a favor do ex-presidente Jair Bolsonaro, teve impacto positivo nas pesquisas a favor do presidente brasileiro. Ainda faltam vários meses para as eleições presidenciais, e muitas coisas podem mudar. Mas, até o momento, o Brasil mostrou autonomia econômica e geopolítica, diferenciando-se de países como o México, afirma Guadalupe González, pesquisadora do Colégio do México, que também integra o Conversatório Latino-Americano.
Treinamento conjunto
" A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, vem administrando bem a relação com Trump mas, ao contrário do Brasil, vem fazendo concessões em matéria de segurança interna e comercial.
A pesquisadora mexicana se refere a duas recentes iniciativas do governo mexicano: em 17 de dezembro passado, Sheinbaum enviou um pedido à Comissão Permanente do Senado mexicano para autorizar a entrada temporária de militares americanos no território nacional, com o objetivo de participar num programa conjunto de treinamento com forças navais mexicanas. Na última segunda-feira, o governo mexicano publicou no Diário Oficial a entrada em vigor, desde o último dia 1º, de novas tarifas que oscilam entre 5% e 50% para produtos importados da China, Índia, Coreia do Sul, Brasil e Rússia.
" Claudia se fortaleceu nos embates com Trump porque teve paciência estratégica. Mas ela, ao mesmo tempo, também cedeu. A presença de fuzileiros navais dos EUA no México é inédita, e as tarifas contra países como a China mostram um alinhamento com a Casa Branca " acrescenta a pesquisadora mexicana.
Para ela, "Trump virou um fator disruptivo permanente na região, com uma intenção clara de intervir em outros países em nome de seus interesses. No México, sentimos isso 24h, todos os dias".
" Depois de décadas de indiferença benigna dos EUA em relação aos países latino-americanos, passamos a um projeto explícito de dominação. Não existe estratégia, mas sim a intenção de se impor, dependendo do contexto de cada país " frisa González.
A metralhadora giratória de Trump é motivo de angústia permanente nas capitais latino-americanas. Seja por ações comerciais, militares ou ingerência política. Nas eleições presidenciais do Peru, em meados de abril de 2026, não está clara qual será a jogada do presidente americano, mas ninguém duvida que Trump buscará interferir em um país que tem a China como seu principal parceiro comercial, com investimentos gigantescos, entre eles o Porto de Chancay, destinado a exportações para mercados asiáticos.
Novo Bukele
Em maio, será a vez da Colômbia, que até a chegada de Gustavo Petro ao poder, em 2022, teve governos fortemente alinhados com os sucessivos presidentes americanos. Na avaliação de Sandra Borda, professora da Universidade dos Andes, outro membro importante do Conversatório Latino-Americano, "o fator Trump será muito relevante no pleito pela Presidência". O desgaste sofrido pelas disputas entre Petro e Trump, enfatizou Borda, preocupa o empresariado e a elite colombiana, o que tornou a política internacional um dos principais temas da campanha.
O secretário de Estado Marco Rubio, casado com uma colombiana, tem fortes conexões com o partido Centro Democrático, liderado pelo ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010). A candidata do partido uribista, Paloma Valencia, está mal posicionada nas pesquisas, e a direita colombiana aposta no outsider Abelardo de la Espriella, um advogado conhecido pela defesa judicial de figuras como Uribe e por suas semelhanças, inclusive físicas, com o presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Ele é o candidato do movimento de direita Defensores de la Patria, que poderia, num eventual segundo turno, unir toda a direita colombiana.
" Para Trump, o resultado da eleição na Colômbia é central pela relação histórica entre os países " afirma Borda, lembrando que, no governo Uribe, foi aprovado um acordo que previa a instalação de bases militares americanas no país. A iniciativa foi barrada pela Corte Constitucional.
A meta de Trump está clara: dominar a região. Em 2025, o republicano colheu vitórias. Os resultados de 2026 dirão até onde mais o líder americano deixará sua marca.