O líder em meio ao caos
Carlos Eduardo Mansur
Carlos Eduardo Mansur
Eram 47 minutos do segundo tempo quando a Copa Africana de Nações começou a viver uma das sucessões de eventos mais surrealistas que o futebol já testemunhou. O Marrocos recebeu o torneio com sua mais forte seleção na história, preparado apenas para levantar uma taça que não conquista há 50 anos. E diante de um estádio que clamava pela taça, viu Senegal chegar ao gol num dos últimos lances do jogo.
Mas antes que a bola entrasse, o árbitro congolês Jean-Jacques Ndala ignorara a possibilidade de revisão pelo VAR e, apressadamente, marcara uma falta bem duvidosa sobre o lateral marroquino Hakimi. Instantes depois, chamado pelo VAR após Brahim Díaz cair na área, viu pênalti para os donos da casa. O que se seguiu foi uma escalada de eventos que, em dado momento, pareceu incontrolável. Os senegaleses passaram da compreensível revolta à rebelião, promovendo um espetáculo que logo passou do dramático ao quase inverossímil.
Retiraram-se do campo, retornaram e viram o goleiro Mendy evitar a derrota iminente da forma menos previsível: Brahim Díaz, não se sabe se numa privação de sentidos ou em algum tipo de drama de consciência, tentou uma cavada bisonha que acabou nos braços do goleiro. O jogo foi para a prorrogação, e Pape Gueye realizou a melhor jogada da partida, um golaço que deu o título a Senegal, o time que parecia batido quando se refugiou nos vestiários.
Foi tudo tão desconcertante que a cadeia de acontecimentos periga encobrir o que de mais bonito aconteceu no estádio de Rabat. Só um jogador de Senegal permaneceu em campo durante a retirada comandada pelo treinador Pape Thiaw: justamente Sadio Mané, o mais vencedor, o grande ídolo da seleção.
Na direção do túnel de saída do campo, Mané acenava para que os jogadores voltassem. Não era apenas a imagem de um astro exercendo sua liderança, discordando do treinador. Mané liderou pelo bom exemplo, pela noção de esportividade, pela lição de que, por maior que seja a sensação de injustiça, o esporte tem suas regras. E uma delas é competir até o final, mesmo sob as mais cruéis condições. Ele foi um símbolo de respeito ao jogo.
Mais do que isso, ao fazer seu time retornar, o craque senegalês permitiu que o futebol mostrasse outra vez como sempre permite reviravoltas. Aos olhos de boa parte da plateia, e possivelmente até mesmo na cabeça de Mané, o time de Senegal voltaria a campo apenas para ver Marrocos converter o pênalti, o árbitro apitar o fim do jogo e a derrota ser consumada. Mas o que parecia a implacável execução de uma sentença, acabou virando o início de uma vitória para os livros contarem em muito tempo.
Claro que o olhar brasileiro se direcionava para Marrocos, primeiro rival na Copa do Mundo. Até a final ser transformada em caos, a Copa Africana apenas reforçava certezas. O time tem talentos, quase todos atuando em ligas importantes da Europa, e é extremamente conservador: defende-se num 4-5-1, tentando recuperar a bola e atacar com a velocidade dos pontas, a ultrapassagem de Hakimi e as conduções de seus meias. A ideia é sempre acelerar e chegar o mais rapidamente no gol adversário. Por vezes, se perde ao não dosar o ritmo dos ataques, mas sabe ser perigoso assim.
Por outro lado, se o técnico Walid Regragui já era questionado por seu estilo menos aventureiro, a perda do título e a bronca pública em Brahim Díaz após o pênalti mergulham a seleção em grandes incertezas. Resta saber em que ambiente o time chegará ao Mundial em junho.
Já Mané vai a Copa com mais um grande feito em seu currículo: o grande jogador foi também o grande exemplo.