Lunes, 26 de Enero de 2026

Calor pressiona demanda por energia e agrava desequilíbrio entre consumo e geração no país

BrasilO Globo, Brasil 26 de enero de 2026

Alta tensão no sistema elétrico

Alta tensão no sistema elétrico
fator ar-condicionado
Com a onda de calor da virada do ano que marcou o primeiro mês do verão, o consumo de energia elétrica do Sistema Interligado Nacional (SIN) aumentou, impulsionado pelo maior uso de ventiladores, aparelhos de ar-condicionado e refrigeradores. No entanto, o pico se dá em horários que agravam o descasamento entre a demanda e a oferta de energia, que tem marcado o setor elétrico com o avanço da geração por fontes renováveis, como eólica e solar, nos últimos anos.
O resultado é um aumento dos cortes na produção de energia de fontes renováveis pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o chamado curtailment. A medida evita sobrecargas que possam gerar apagões, como o de agosto de 2023 e o de outubro do ano passado, que deixaram vários estados sem luz.
Para manter o equilíbrio do sistema, o ONS interrompe preferencialmente parques eólicos e solares, o que impõe perdas financeiras a grandes empreendimentos. Isso porque eles têm de cumprir contratos de fornecimento com a compra de energia no mercado livre para substituir a que não puderam gerar. Representantes desses geradores querem compensações financeiras do governo, que resiste.
Após atingir um recorde em 26 de fevereiro do ano passado, com pico de 106,5 gigawatts (GW), a demanda instantânea do SIN sofreu uma queda, até chegar na casa dos 92 GW no mês seguinte, segundo dados do ONS. Desde então, o consumo de energia vem aumentando no país, chegando a uma máxima de 99,7 GW em 1º de dezembro, já com o calor prenunciando um verão de temperaturas acima da média. Na semana passada, bateu 86,8 GW, acima do mesmo período de 2025: 81,5 GW.
A alta no consumo não é necessariamente ruim para o sistema elétrico, cujo problema atual é justamente de excesso e não escassez de energia. No entanto, esse consumo adicional típico de verão é mais expressivo à tarde e à noite, quando a maioria das pessoas chega em casa do trabalho e liga aparelhos como o ar-condicionado. Só que, nesse período, as placas fotovoltaicas não contam com o sol e menos vento passa pelos aerogeradores.
Interrupções de geração de fontes renováveis provocadas por excesso de energia são mais frequentes entre 9h e 16h, quando há maior intensidade solar e mais ventos. No início da noite, o pico de consumo acaba suprido por hidrelétricas e termelétricas. Nos fins de semana, quando a demanda de energia na indústria e no comércio cai em relação aos dias úteis, os cortes são ainda mais severos.
ONS teme colapso
Em seu planejamento de médio prazo, divulgado em dezembro, o ONS aponta o risco de um colapso em 2026, pela falta de flexibilidade do sistema causado pelo crescimento acelerado das fontes renováveis, o que em tese deveria ser algo positivo. O problema é que não há demanda suficiente para o aumento de oferta, e as renováveis são intermitentes, ou seja, não geram energia 24 horas por dia, dificultando o "equilíbrio perfeito" que o ONS precisa manter para evitar sobrecargas e apagões.
Para o sistema elétrico, 2025 já foi um ano conturbado. Além do apagão de outubro, houve episódios de tensão no ONS, com desequilíbrios que quase levaram a uma nova pane geral. Parques eólicos e solares demandaram algum tipo de indenização do governo pelos cortes, mas, no fim de novembro, o vice-presidente Geraldo Alckmin, no exercício da Presidência, vetou um dispositivo incluído pelo Congresso em uma medida provisória que previa compensação financeira a usinas renováveis afetadas pelo curtailment. Ainda assim o problema pode terminar no bolso do consumidor, já que eventuais indenizações podem virar encargos na conta de luz.
Governo sob pressão
Sob pressão das geradoras, o Ministério de Minas e Energia (MME) conduz uma consulta pública para debater mecanismos de compensação de empresas de energia solar e eólica que tiveram cortes de geração. Os prejuízos dos dois segmentos são estimados entre R$ 2 bilhões e R$ 3 bilhões e já desestimulam novos investimentos em energia limpa.
Soma-se a isso um cenário ainda incerto sobre as chuvas de verão, o que leva reservatórios de hidrelétricas a serem poupados. A despeito dos últimos dias chuvosos em boa parte do país, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) prevê um volume total neste mês abaixo da média de janeiro, deixando em risco a reserva de água das hidrelétricas do Sudeste e do Centro-Oeste, que está em 42,88% da capacidade. O ONS projeta manutenção abaixo dos 50% até o fim deste mês. Já em níveis preocupantes, os reservatórios terminaram o mesmo mês do ano passado em 46%.
O MME planeja medidas preventivas, como diminuir a vazão da hidrelétrica de Furnas, em Minas Gerais. Isso contribui para encarecer a tarifa de luz porque aumenta o uso de termelétricas nos horários de pico do verão, quando as renováveis não dão conta.
Especialistas e executivos do setor apontam que o sistema elétrico brasileiro passa por um momento delicado, sob o risco de perda de controle nos próximos anos, caso a rota não seja recalculada. E isso deve passar pela principal causa apontada: a corrida de consumidores residenciais e de pequenos negócios para a chamada geração distribuída, a produção de energia por meio de placas fotovoltaicas em telhados de casas e edifícios.
Placas popularizadas
A energia que essas placas geram entra diretamente na rede das distribuidoras e gera créditos para os clientes, só que elas não estão ao alcance do ONS. Com isso, os cortes recaem sobre os grandes empreendimentos de energia verde.
Atualmente, a capacidade instalada de micro e minigeração distribuída já soma 43 GW, metade do consumo nacional e quase 20% de toda a capacidade do país. Segundo o ONS, essa geração nos telhados deve chegar a 65 GW até 2030. Em nota, o órgão diz que essa alternativa usada por muitos para reduzir o custo da conta de luz "intensifica os desafios associados à transição entre o período diurno e noturno".
"À medida que a geração solar distribuída se reduz rapidamente ao final do dia, surgem rampas de carga cada vez mais acentuadas, exigindo resposta rápida das fontes de geração controláveis para garantir o atendimento da ponta noturna", diz a nota.
A presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeolica), Elbia Gannoum, ressalta que os cortes vêm aumentando desde 2023, mas bateram recorde em 2025:
" Foi um ano realmente muito difícil, um dos mais difíceis da história da indústria de energia eólica no Brasil. Na realidade, a gente já está percebendo essa dificuldade desde 2024, mas em 2025 piorou.
A Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar), projeta retração de 7% do setor neste ano, com novos projetos de usinas solares prejudicados pelas perdas que a entidade atribui à "falta de ressarcimento pelos recorrentes cortes de geração sofridos".
Já Carlos Evangelista, presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), que representa fornecedores de placas solares para residências e edifícios, diz ser contra a cobertura desses prejuízos com encargos sobre os consumidores, inclusive os que recorrem à geração própria para reduzir o custo da conta de luz.
" Trata-se de uma tentativa dos grandes geradores e grandes grupos econômicos de dividirem seus prejuízos com os consumidores. A geração distribuída não é despachada pelo ONS, não participa do mercado de curto prazo e não toma decisões sistêmicas de operação " diz Evangelista.
‘Perto de uma grave crise’
O presidente da Abrace, associação que representa grandes consumidores de energia como os industriais, Paulo Pedrosa, afirma que é preciso chegar a uma forma de reequilibrar o sistema elétrico nacional e conter o alto custo da energia em um país que gera mais do que consome:
" É um consenso que nós estamos perto de um apagão ou de uma grave crise financeira do setor. Estamos perigosamente à beira de uma situação grave, e algo precisa ser feito. A falta de controle sobre a energia gerada por esses empreendimentos (de fontes renováveis) engessa a gestão do SIN, segundo distribuidores.
O líder da Associação de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Marcos Madureira, diz que o imbróglio traz riscos ao setor:
" Se você tem um volume muito grande de geração num determinado momento, injetada no sistema, ela gera um gargalo porque o sistema não foi projetado originalmente para atender esse volume de energia num só momento. Isso é um problema não só para distribuição, mas também no sistema de transmissão.
A infraestrutura é um ponto-chave da solução, concordam especialistas do setor elétrico. Eles recomendam investimentos em linhas de transmissão para melhorar a distribuição do que é gerado pelo país, regulamentar projetos de megabaterias para estocar energia (o governo fará um primeiro leilão em abril) e limitar a produção de pequenos sistemas solares em casas e prédios. O ideal seria estimular investimentos em empreendimentos produtivos de alto consumo de energia, como data centers (um projeto de incentivos aguarda votação no Congresso), próximos das fontes renováveis para que o país aproveite melhor o atual excesso de energia.
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