O dia em que o bom senso venceu (o atraso)
Artigo
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Há ideias que nascem cedo demais. Não porque estejam erradas, mas porque o ambiente ainda não está pronto para recebê-las. Em 2013, em meio a um futebol brasileiro marcado pelo excesso de jogos e por clubes endividados e com salários atrasados, um grupo de jogadores decidiu se organizar sob o nome Bom Senso FC.
Em campo, o gesto era simples: sentar-se no gramado, cruzar os braços e permanecer um minuto em silêncio. Fora dele, a mensagem era barulhenta e direta. O movimento levantava e defendia apenas duas bandeiras " um calendário mais equilibrado e a adoção de princípios de Fair Play financeiro.
Ainda assim, o futebol brasileiro seguia obtuso, refém de sua soberba e letargia. As propostas soavam complexas demais para um sistema acostumado ao improviso e à desorganização estrutural. O diagnóstico e a terapêutica incomodavam dirigentes de clubes, federações e até sindicatos de atletas, a ponto de rótulos opostos passarem a servir ao mesmo propósito: evitar o debate e apedrejar em praça pública quem ousasse se pronunciar.
O próprio nome do movimento não era retórico nem provocativo. Ao se autointitular Bom Senso, a intenção era explícita: reivindicar o básico do básico diante de um atraso retumbante do futebol brasileiro enquanto esporte e indústria " sobretudo quando comparado às boas práticas e às iniciativas europeias que, naquele mesmo período, aceleravam de forma vertiginosa a organização, a governança e a qualidade do jogo. Treze anos depois, em 2026, ainda sem conseguir voltar a vencer um mundial, seja de clubes ou de seleções, essas mesmas ideias defendidas em 2013 passam a ocupar o centro do debate institucional no futebol brasileiro.
A aprovação do Profut (a Lei do Bom Senso), em 2015, foi a primeira fissura concreta em um modelo baseado na irresponsabilidade financeira. Pela primeira vez, o refinanciamento das dívidas dos clubes veio condicionado " ainda que timidamente " a exigências mínimas de governança e disciplina fiscal. Era pouco, insuficiente e mal fiscalizado. Ainda assim, representou algo inédito: o reconhecimento de que o problema não era episódico, mas estrutural.
Mais de uma década depois, o futebol brasileiro começa a caminhar na direção que nos parecia óbvia em 2013. O novo calendário nacional, que passa a vigorar nesta temporada, está longe da perfeição, mas é histórico. Ao fortalecer competições regionais, ampliar o número de clubes com calendário efetivo e oferecer maior previsibilidade esportiva e financeira, o modelo rompe " ainda que parcialmente " com a lógica concentradora que sacrificava centenas de clubes à margem do sistema e, ao mesmo tempo, inicia a racionalização das temporadas dos grandes clubes. Reduz-se, de forma gradual, a insanidade de calendários que acumulavam jogos, viagens e decisões, corroendo a qualidade do espetáculo, a saúde dos atletas e a relação do torcedor com o jogo.
Pela primeira vez, o futebol brasileiro institui uma versão inicial de Fair Play Financeiro. Ainda embrionária e de progressão gradual, a medida representa um passo central para a sustentabilidade do sistema, ao enfrentar práticas de gestão temerária e a bolha inflacionária que passou a marcar a indústria desde a última rodada de venda dos direitos de transmissão. Trata-se do reconhecimento institucional de que não há futebol forte sem clubes saudáveis; de que competitividade não pode ser construída sobre inadimplência crônica; e de que paixão não pode seguir sendo justificativa permanente para desorganização.
O Fair Play Financeiro não é punição; é proteção. Essa sempre foi uma das bandeiras defendidas pelo movimento " um futebol melhor para todos, como dizia o slogan do Bom Senso. Proteção do mercado, dos clubes, dos atletas, dos funcionários, dos credores, dos torcedores e do próprio jogo. Proteção de uma indústria que movimenta bilhões, gera empregos diretos e indiretos e depende, cada vez mais, de credibilidade para sobreviver e evoluir de forma sustentável.
Há uma ironia histórica difícil de ignorar. As mesmas medidas que, em 2013, renderam acusações de sindicalismo para uns e elitismo para outros passam agora a ser apresentadas como vanguarda e inovação. A narrativa muda. Os conceitos permanecem. O que antes era tratado como ameaça ao sistema hoje é incorporado como sinal de modernidade " porque a realidade impôs seus limites e os obrigou, enfim, a reconhecer o atraso.
O Bom Senso precisa ser reconhecido não como um movimento que "venceu", mas como um movimento que antecipou debates, alertou riscos e apontou caminhos quando o futebol brasileiro ainda resistia a olhar para si mesmo como indústria e como espetáculo global. Seu mérito não está em reivindicar paternidade sobre mudanças, mas em ter sustentado, com coerência e custo pessoal, a defesa do básico quando o básico parecia sofisticado demais.
Que a abertura de mais um Campeonato Brasileiro não represente apenas o início de uma nova temporada, mas a confirmação de que, às vezes, a insistência ética, mesmo derrotada no curto prazo, encontra seu lugar na história. O futebol brasileiro ainda está em obras. Há muito por fazer.
*Paulo André é ex-jogador, dirigente e um dos fundadores do movimento Bom Senso FC