Nei lopes volta à sapucaí, diz que já estão chatos os enredos ‘só sobre candomblé’ e que os blocos são uma catarse
Afastado dos desfiles desde o início dos anos 90, o carioca de Irajá, Nei Lopes, 83 anos, ...
Afastado dos desfiles desde o início dos anos 90, o carioca de Irajá, Nei Lopes, 83 anos, grande estudioso da cultura negra e também uma das principais referências do nosso samba, volta este ano à Sapucaí, na terça-feira de carnaval, como destaque da Paraíso do Tuiuti. O enredo da escola de São Cristóvão é "Lonã Ifá Lukumi", que aborda esta vertente religiosa afro-cubana, inspirado no livro "Ifá Lucumí: o resgate da tradição" (Pallas Ed., 2020), de Nei. Ele, retratado aqui por Ana Branco, diz que aceitou o convite para desfilar na Paraíso do Tuiuti "por razões estritamente religiosas".
É que o escritor e sambista há 12 anos se dedica a esse ramo das religiões de matriz africana, que ele conheceu por meio de dois sacerdotes cubanos. "Trata-se do que denominamos ‘Sistema Divinatório de Ifá’, cuja presença, na África, remonta à Antiguidade egípcia, desapareceu no Brasil e hoje é conhecido e praticado em boa parte das Américas, sobretudo em Cuba, que usou muitos escravizados em suas plantações de cana e, inclusive, nos Estados Unidos, onde há forte presença".
Nei afirma que essa prática religiosa, "que tem como centro o oráculo denominado Ifá, é responsável por muitos acontecimentos importantes" ocorridos com sua família.
O mestre fica naturalmente feliz com temas ligados à negritude sendo enredo de muitas escolas de samba recentemente, como, aliás, é o caso agora da própria Paraíso do Tuiuti. Mas, para ele, esse grande espetáculo deveria diversificar mais os temas sobre cultura negra. "Só candomblé já está chato", argumenta: "Temos episódios históricos, biografias interessantíssimas, criações artísticas espetaculares. E até mesmo enfoques políticos. Já pensou um enredo caricaturando o racismo?"
Já em relação à expansão dos blocos carnavalescos de rua, tanto na Zona Norte quanto na Zona Sul, o escritor é categórico: "A proliferação dos blocos é uma catarse coletiva. As coisas estão tão brabas e tão tristes que as pessoas querem é se ‘divertir’, custe o que custar. A coisa é tão séria que até música sertaneja faz as pessoas cantarem nos blocos ou em qualquer lugar. Estou falando sério: é o que eu percebo".
Depois, ainda refletindo sobre blocos, nosso baluarte diz que chegou "à conclusão de que as pessoas agora vão pros blocos de rua só pra poder dizer que foram, mesmo sem entender o que foram fazer lá".
Calma, mestre!