Com selic menor à vista, tesouro direto valerá a pena?
Ao que parece, agora vai. A Selic deve começar a cair mesmo em março, conforme o recado ...
Ao que parece, agora vai. A Selic deve começar a cair mesmo em março, conforme o recado dado pelo Banco Central (BC) na semana passada ao manter a taxa básica de juros em 15% ao ano. A incerteza, no entanto, continua. Não é mais sobre se ou quando os juros vão cair, mas quanto. Essa mudança redefine o papel do Tesouro Direito na carteira dos investidores em 2026.
Nas palavras do BC, o cenário atual "impõe serenidade quanto ao ritmo e à magnitude" do ciclo de cortes de juros. Ou seja, a Selic deve descer a escada vagarosamente. A partir dessa tese, analistas recomendam dar destaque agora ao Tesouro Selic, não mais aos papéis atrelados à inflação. Afinal, se tudo correr como previsto, a Selic continuará em dois dígitos pelo menos até o fim deste ano.
" O cenário colocado mantém os títulos pós-fixados atrativos tanto abaixo quanto acima da inflação " afirma a chefe de renda fixa da XP Investimentos, Camilla Dolle.
Mas recomenda-se celeridade para aproveitar os retornos dos títulos nos níveis atuais. Quando o ciclo de cortes tiver de fato começado, ainda no primeiro trimestre, boa parte do ajuste das taxas e preços dos títulos já terá ocorrido. E o investidor pode ter perdido o melhor da festa.
Na última semana, os juros oferecidos pelos títulos públicos chegaram a recuar, mas se mantêm em níveis considerados atraentes. O Tesouro Selic, chegou a oferecer 15% mais 0,09%; os prefixados de curto prazo ainda rondavam os 13%; e os IPCA+ se seguravam nos 7%.
As taxas e preços dos títulos são inversamente proporcionais. Ou seja, tanto nos papéis prefixados quanto naqueles indexados ao IPCA, quanto maior a taxa, menor o preço, e vice-versa. Quando as taxas sobem, portanto, é boa notícia para quem vai investir, já que assegura rentabilidade maior se a aplicação for mantida até o vencimento. Por outro lado, o valor de mercado dos papéis diminui, o que implica perda temporária para quem já tem os títulos na carteira.
Coadjuvantes
Se o Tesouro Selic representa a âncora da carteira para 2026, os títulos prefixados surgem como o principal instrumento de ganhos com o início do ciclo de queda. A lógica já é conhecida: quando o mercado começa a esperar cortes de juros, títulos com taxa travada passam a se valorizar.
" Prazos em torno de três anos concentram hoje uma das melhores relações entre risco e retorno. Com taxas ainda acima de 12% ao ano, esses papéis têm um retorno relevante caso a trajetória de queda da Selic se confirme ao longo de 2026 e 2027 " diz Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos.
Para o investidor, o desafio está menos em acertar a taxa e mais em montar sua carteira antes que a queda da Selic se torne mais evidente. Historicamente, os maiores ganhos em prefixados ocorrem quando o movimento ainda é incipiente, não quando o ciclo já está claro para todos.
No caso dos prefixados, vale uma observação: o Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo BC, prevê que a Selic encerre 2026 em 12%. Portanto, se o investidor trava a aplicação nos atuais 13%, a queda da taxa básica é favorável, porque o ganho será maior que a Selic no período.
Trata-se, então, de um momento de transição: juros ainda altos no presente, mas com trajetória mais previsível " exatamente o cenário no qual decisões antecipadas em renda fixa costumam fazer diferença.
Para horizontes mais longos, Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em investimentos, reforça o papel dos títulos indexados à inflação. Neste caso, os gatilhos são mais conjunturais. Levam em consideração, por exemplo, questões fiscais e estabilidade econômica, não apenas a trajetória da Selic a curto prazo.
Mesmo após a queda das taxas, os papéis IPCA+ continuam a oferecer juros elevados em termos históricos, especialmente nos prazos a partir de cinco anos.
" Segundo o último Boletim Focus, a projeção para o IPCA de 2026 subiu levemente para 4,02%. Como a meta central é de 3% ao ano, o BC precisa manter o remédio forte. Juros devem cair, mas se manterem em nível alto, para evitar que os preços tornem a escalar " diz Patzlaff.
A expectativa dos analistas é que, em horizontes mais longos, o retorno da modalidade convirja para um nível real próximo de 5% ao ano. Seria um patamar significativamente inferior ao observado hoje nos títulos indexados ao IPCA, em torno de 8%.
" Em um ambiente global marcado por incertezas fiscais e geopolíticas, ativos que garantem retorno real tendem a ganhar importância estratégica. O Tesouro IPCA+ cumpre exatamente esse papel, funcionando como um seguro de longo prazo na carteira " explica Perri, da Forum.
Resumindo, a avaliação geral é que os títulos prefixados com vencimento entre dois e três anos tendem a oferecer maior potencial de ganho a curto prazo, porque são mais sensíveis às mudanças na taxa de juros.
Já os títulos atrelados à inflação com prazos longos estão hoje entre os ativos de renda fixa mais baratos. Isso significa que suas taxas estão elevadas em relação ao preço, oferecendo uma remuneração atraente para quem carrega o papel por mais tempo.
Velha máxima se mantém
A dica de ouro (sem trocadilho) é não apostar em um único papel " a velha máxima de não colocar todos os ovos na mesma cesta.
" O cenário de 2026 pede paciência, acompanhamento e diversificação principalmente de risco. Quanto maior o prazo do ativo, maior a sensibilidade às oscilações da curva de juros, o que pode resultar em perdas expressivas pela marcação a mercado caso o investidor interprete incorretamente o cenário " diz o estrategista-chefe da GCB Investimentos, Lucas Constantino.