Investidor se afoga em um mar de regras e alternativas
Os casos da Fictor e do Master, que recentemente assustaram investidores, reacenderam um ...
Os casos da Fictor e do Master, que recentemente assustaram investidores, reacenderam um debate antigo. Nas últimas duas décadas, os brasileiros aprenderam que não precisam investir apenas no seu banco e que há vida além da poupança. Mas surgiu um novo obstáculo: o enorme número de ativos, com nomes difíceis e regras de tributação, aplicações e resgates diferentes e complexas. Essa sopa de letrinhas " CDB, CRI, CRA, ETF, BDR, FGC, CDI, IPCA+ etc. " aumenta muito o risco de investimentos malsucedidos.
Especialistas alertam ainda sobre os conflitos de interesse na venda de investimentos e recomendam cuidado para não embarcar em ofertas com riscos demais para a carteira ou em furadas. Eles defendem que o setor avance com um modelo de remuneração mais alinhado aos interesses do investidor e melhore a comunicação com o cliente.
O volume de investimentos dos brasileiros triplicou na última década: saltou de R$ 2,5 trilhões em 2016 para R$ 8,3 trilhões em 2025, mostram os dados da Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). O número de contas de investimentos passou de 69,6 milhões para 190,5 milhões no mesmo intervalo. O número de contas não representa o número de CPFs, porque cada brasileiro pode ter aplicações em mais de um ativo ou instituição.
Contudo, a complexidade de investir também aumentou. Além de haver mais opções sofisticadas, muitos nomes em inglês ou siglas, e as regras de aplicação, resgate e tributação são diferentes e complexas. E os incentivos recebidos por quem vende os produtos distanciam o investidor da alocação ideal para o seu perfil.
Conflitos de interesse
E a tendência é haver cada vez mais produtos, diz Hudson Bessa, professor de Finanças da FGV, Fipecafi, Mackenzie e Saint Paul e sócio da consultoria de investimentos Spot Capital e da empresa de cursos de investimentos HB Escola de Negócios. Afinal, diz, as aplicações financeiras são fontes de financiamento para as companhias.
Para Bessa, o maior problema não é o número de ativos à disposição, mas os conflitos de interesse. Normalmente, as maiores comissões para assessores e corretoras vêm de aplicações mais sofisticadas e arriscadas. Assim, há um incentivo maior para esses ativos serem vendidos, em detrimento dos mais conservadores.
" O problema não são os produtos sofisticados, é a venda para as pessoas erradas, em momentos de vida e em carteiras em que eles não fazem sentido " afirma. " Existem conflitos de interesse em qualquer mercado, mas o regulador e as associações de classe devem orientar e punir a distribuição errada de produtos.
Além disso, há os produtos vendidos como investimento. É o caso da Fictor, que vendia Sociedades em Conta de Participação (SCPs) como investimentos e pagava taxas elevadas para assessores de investimentos venderem esses contratos. Contudo, esses contratos são celebrados entre particulares e não são supervisionados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM, o órgão regulador do mercado de capitais) nem têm a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), como os CDBs do Master.
Desde o fim de 2025, a Fictor vinha atrasando o pagamento a quem aplicou em seus contratos de SCP. Agora que ela pediu recuperação judicial, esses investidores serão os últimos a receber.
" Não gaste muito tempo com investimentos que não entende e desconfie quando a promessa de retorno é muito alta " aconselha Bessa.
Ele indica ainda checar no site da CVM se o profissional e a plataforma que oferecem o investimento são regulados.
Aquiles Mosca, presidente da gestora de fundos BNP Paribas Asset Management Brasil e diretor da Anbima, argumenta que não é preciso buscar investimentos sofisticados para ter bons retornos:
" As pessoas não precisam encher a carteira de COEs (Certificados de Operações Estruturadas) ou de fundos de investimentos com nomes em inglês " diz. " Há vários instrumentos para ganhar dinheiro acima da inflação, como títulos indexados à inflação, fundos DI e CDBs de instituições sólidas.
Mosca aconselha que, antes de optar por um investimento, a pessoa defina o que deseja fazer com o dinheiro e quanto risco está disposta a correr. Sem isso, não há como saber qual a melhor opção. E alerta que atingir o máximo possível de retorno não deve ser o objetivo principal:
" Ao fazer isso, é como se a pessoa entrasse na farmácia e perguntasse qual remédio está curando mais.
Simplificar a linguagem
Outra maneira de se blindar, diz Mosca, é contratar uma assessoria de investimentos que trabalhe com uma taxa fixa cobrada do cliente, não com comissões das plataformas, que variam conforme o produto:
" O modelo da taxa fixa evita o conflito de interesse de o profissional vender um produto muito complexo apenas para ganhar mais.
Para Ana Leoni, presidente da Associação Brasileira de Planejamento Financeiro (Planejar), é preciso melhorar a linguagem da indústria de investimentos:
" Faltam publicitários no mercado financeiro para descomplicar a abordagem, as explicações e os nomes dos produtos, quase todos em siglas ou em inglês. Eles fazem mais sentido para o setor do que para as pessoas físicas.
Ela aponta ainda a ilusão de que é possível resolver sozinho a vida financeira, bastando acompanhar um influenciador ou fazer um curso:
" As pessoas procuram um médico quando estão com um problema de saúde ou um arquiteto para fazer uma reforma, mas acham que conseguem investir sozinhas. É preciso ajuda para navegar em um universo tão complexo.
Guilherme Assis, fundador da consolidadora de investimentos Gorila, acha que a indústria de investimentos melhorou para as pessoas físicas, com o aumento da competição entre as plataformas, mas admite que alternativas demais dificultam a vida dos investidores:
" A complexidade de navegar nesse universo aumentou, e isso joga contra o investidor. Essa complexidade só vai aumentar, com mais produtos e regulações que às vezes nem os especialistas conhecem bem.