Domingo, 15 de Febrero de 2026

Histórico!!!? desta vez foi

BrasilO Globo, Brasil 15 de febrero de 2026

Marcelo Barreto

Marcelo Barreto
Quem me acompanha neste espaço talvez conheça minha implicância com o termo "histórico", quando aplicado ao esporte " normalmente seguido de muitas exclamações. Já até escrevi uma coluna sobre o político chinês que, numa resposta sobre os efeitos da Revolução Francesa, disse que no século XX ainda era cedo demais para saber. É que, pelo menos para o meu gosto, vocês da imprensa exageram um pouquinho: se tudo é História, ou mesmo história, nada é. Pois ontem ouvi um colega, o narrador Paulo Andrade, chamar várias vezes de "histórico!!!!" o feito de Lucas Pinheiro Braathen, medalha de ouro na prova de slalom gigante do esqui alpino de Milão-Cortina. E concordei em todas.
Ao lado do Paulo, na transmissão do Sportv2, estava Marcelo Apovian, que começou uma história " a da participação do Brasil nos Jogos de Inverno. Meu xará era um dos sete atletas do esqui alpino, a mesma modalidade de Lucas, convidados pela federação internacional para a primeira participação olímpica, em Albertville 1992, e foi o representante solitário do país em Nagano 1998. Quando o hino nacional tocou ontem, na estação de esqui de Bormio, Marcelo caiu num choro que, por mais de 30 anos, nem ele nem ninguém imaginou que ia chegar.
No alto do pódio, Lucas tentava cantar, em seu português com sotaque, mas também foi atropelado pela emoção e engasgou depois das primeiras estrofes. O Brasil é uma escolha do campeão olímpico. Ele nasceu na Noruega, a maior potência da história (olha ela aí!) dos Jogos de Inverno. Chegou a competir pela equipe norueguesa, mas se desentendeu com a federação nacional de esqui alpino e até anunciou o fim da carreira. Mudou de ideia quando resolveu atender ao convite dos compatriotas do lado de cá. Parte importante do trabalho dos dirigentes esportivos de gelo e neve de um país sem gelo e neve é buscar atletas de origem brasileira que pratiquem as modalidades de inverno onde elas têm tradição.
Da Noruega vem o sobrenome paterno Braathen. Na terra do sobrenome materno, Pinheiro, passa as férias desde a infância na casa da avó, em Campinas. Foi lá que aprendeu a gostar de pão de queijo, de brigadeiro e do São Paulo, time dos primos que virou o seu. Com essa mistura de Pinheiro e Braathen, Lucas fez do Brasil o primeiro país tropical no quadro de medalhas dos Jogos de Inverno (Austrália e Nova Zelândia, os outros países do Hemisfério Sul que já subiram ao pódio, têm gelo e neve em quantidade suficiente para desenvolver seus atletas em casa). É um feito ainda maior do que o de Guilherme Paraense, ouro no tiro esportivo na primeira participação brasileira nos Jogos de Verão, na sexta edição do evento, em Antuérpia 1920.
E, já que é para me render de vez e dizer que foi histórico, tinha de ser no sábado de carnaval, né? A mais universal das festas brasileiras gosta de contar histórias, de onde quer que elas venham. "Lucas Pinheiro Braathen, dos fiordes da Noruega para a glória olímpica do Brasil em plena folia de Momo" é um título de enredo prontinho para passar pela Marquês de Sapucaí no ano que vem. Para este, ainda dá tempo de preparar as fantasias de esquiador e chamar atenção nos blocos, imitando a sambadinha de Lucas no pódio.
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