Martes, 17 de Febrero de 2026

Lula e modi num mundo sem ordem

BrasilO Globo, Brasil 17 de febrero de 2026

Marcelo NINIO

Marcelo NINIO
Num galpão cercado de serrarias no sul de Kolkata (antiga Calcutá), o premiado cineasta indiano Koushik Sarkar ensaia atores para um momento dramático de seu próximo filme, em que uma mulher encontra o corpo do filho assassinado. Sob sua orientação, a atriz reage em silêncio, petrificada, o que aumenta o impacto da cena. Só mais tarde, quando conduz uma vaca no campo, repetindo os passos do filho morto, é que ela explode em choro.
Embora ambientado em Krishnanagar, cidade a 120km de Kolkata em que o diretor passou a infância, o filme tem um fio que o liga ao Brasil. Influenciado por diretores como Walter Salles e Fernando Meirelles, Sarkar distribuiu cópias de textos sobre a retomada do cinema brasileiro aos atores e membros da produção, para que absorvessem o mesmo espírito que quer em seu filme: a arte também pode ser acessível ao grande público.
" A ideia é manter esse instinto vivo e fazer o cinema mais artístico possível, mas que também seja acessível. Um cinema a que as pessoas assistam e voltem para casa felizes, mesmo que o filme não tenha um final feliz " explica.
Se os filmes brasileiros podem inspirar ideias em um diretor da Índia, onde fica a maior indústria do cinema mundial, os dois países buscam novas formas de parceria econômica e política num momento de incerteza. Para a diplomacia brasileira, que tem se voltado cada vez mais em busca de oportunidades na Ásia, a cooperação com a Índia ganha importância estratégica diante da instabilidade global, ampliada pelo descaso dos Estados Unidos de Donald Trump pelas normas internacionais.
É com esse pano de fundo que acontece a visita ao país do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a partir de amanhã. Ano passado, os dois países foram atingidos de forma semelhante pelo tarifaço de Trump, com sobretaxas de 50%. Embora por razões diferentes, em ambos os casos havia um elemento político. A diferença é que Trump deixou para trás o que o moveu na pressão sobre o Brasil, que era o apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Já com a Índia, não abriu mão da exigência de que o país deixe de comprar petróleo da Rússia.
No início de fevereiro, após meses de negociação, EUA e Índia anunciaram ter chegado a um acordo, mas o ponto crucial ficou no ar. O governo americano diz ter recebido a promessa do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, de suspender a importação de petróleo russo. Frente a críticas da oposição de que se curvou a Trump à custa do interesse nacional, o governo indiano reagiu de forma vaga, afirmando que mantém sua "autonomia estratégica".
Em meio à instabilidade atual e à dificuldade de se entenderem as novas configurações de poder num mundo que deixou de ser bipolar, mas não se tornou verdadeiramente multipolar, há quem veja possíveis vantagens para países como Índia e Brasil. É o caso de Shivshankar Menon, um dos principais pensadores da política externa indiana. Na definição dele, o mundo hoje é economicamente multipolar, militarmente unipolar e politicamente fragmentado. Sentado em seu belo apartamento em Nova Délhi, numa rua a salvo do constante buzinaço da capital, Menon diz que há mais espaço para países do Sul Global tomarem decisões. E que isso deveria servir de estímulo para Brasil e Índia ampliarem sua parceria.
" Podemos fazer coisas enormes " calcula Menon.
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