Sem espaço para desaforo
zeina latif
zeina latif
Está consolidada a visão de menor influência do comportamento da economia na aprovação do governo. Conforme o país avançou no combate à inflação e no emprego, as demandas foram mudando. A sociedade mostra-se mais exigente, demandando melhor funcionamento do Estado. Mas isso não significa total desvinculação entre economia e aprovação do governo.
Regiões mais pobres são mais vulneráveis à oscilação da economia e são mais impactadas por políticas assistencialistas. Assim, exibem maior volatilidade nos índices de aprovação no governo.
Uma forma de abordar esse ponto foi o ganho de votos de Bolsonaro no Nordeste entre as eleições de 2018 e 2022. Foram 30,3% dos votos válidos no segundo turno em 2018 e 30,7% em 2022. Provavelmente, foi uma resposta à criação e ao posterior aumento do valor do Auxílio Brasil, em plena campanha eleitoral.
A inflação elevada, principalmente de alimentos, pode comprometer bastante a aprovação do presidente. A escalada pós-pandemia, bastante agravada pelo conflito Rússia-Ucrânia, certamente pesou na aprovação de Bolsonaro e no voto. Com Lula, o aumento da inflação de alimentos no final de 2024 e início de 2025 também lhe trouxe maior rejeição.
Outro ponto a considerar é que fatores econômicos diversos, por vezes fora do radar, podem machucar a aprovação do governo. Um candidato no quadro atual é o aumento da inadimplência dos indivíduos. Só em 2025, houve aumento de 10,5% no número de pessoas inadimplentes, segundo a Serasa, o que representa 49,6% da população adulta, um recorde.
Um desafio para governantes é lidar com o efeito assimétrico da percepção da economia sobre o humor de eleitores: boas notícias são minimizadas (por exemplo, as pessoas tendem a acreditar que é mérito delas conseguir uma boa ocupação) e más notícias prejudicam bastante a aprovação. No caso das políticas assistenciais, o seu encolhimento teria custo político elevado, enquanto uma expansão adicional realmente relevante para aumentar a aprovação do governo seria inviável fiscalmente.
Assim, mesmo depois de um 2025 bastante favorável em termos de emprego e inflação, a aprovação do governo caiu em relação ao fechamento de 2024 e, ainda mais, em relação ao início de governo. A piora é generalizada entre as regiões do país, inclusive no Nordeste.
Os indicadores econômicos do Nordeste têm sido favoráveis. Não que o crescimento do PIB destoe da média nacional, mas simplesmente acompanhá-la já tem grande valor diante das surpresas positivas dos últimos anos.
A surpresa fica com o mercado de trabalho. Pela Pnad, a população ocupada cresceu 6,6% entre 2022 (média) e os quatro trimestres encerrados em set/25 (último dado disponível), acima dos 5,5% no resto do país. Assim, enquanto a taxa de desemprego recuou de 12,6% em 2022 para 8,7%, no resto do Brasil a queda (em pontos percentuais) foi menor, de 8,2% para 5,4% na mesma comparação.
Ocorreu redução na procura por ocupação no Nordeste, mas seu papel é modesto na queda do desemprego no período analisado. A taxa de participação (força de trabalho/população em idade de trabalhar) caiu marginalmente de 54,7% para 54,6% desde 2022; no resto do Brasil subiu de 65% para 65,1%. E a causa não está no desalento (quando o indivíduo deixa de procurar ocupação pois acredita que suas chances são baixas), o que seria desfavorável ao governo, pois a queda foi maior no Nordeste. A resposta pode estar na menor busca por ocupação por famílias beneficiadas pelo aumento das políticas assistenciais, o que seria positivo para a aprovação do governo.
Apesar disso, a queda da aprovação no governo Lula é apenas um pouco menor no Nordeste. Na pesquisa Genial/Quaest de fevereiro, a aprovação líquida (aprovação menos desaprovação) no Nordeste ficou em +28%, ante +42% em dez/2023; uma queda de 14 pontos percentuais. Para o restante do país, o cálculo é que a aprovação líquida saiu de +1,5% para -15,2% na mesma comparação; uma queda de 16,7 pp.
O ano de 2025 foi bastante positivo do ponto de vista da inflação e do desemprego. Os ganhos agora tendem a ser modestos, e a inadimplência deve ainda pesar, até que a queda dos juros chegue ao bolso dos endividados. A economia não será aliada, e deslizes custam proporcionalmente mais. O eleitor, inclusive no Nordeste, aceita menos desaforo.