Visto de cima
gustavo franco
gustavo franco
É sempre recomendável adotar uma visão panorâmica e meio embaçada para o Brasil. É fácil deixar-se levar por detalhes não essenciais que estragam a fotografia.
Quem volta ao país depois de uma longa estadia no exterior, invariavelmente observa algo como "nada mudou". Quem retorna de uma viagem curta, pelo contrário, sempre nota que "mudou tudo".
O Brasil talvez seja mesmo essa coisa difícil de descrever, que se movimenta muito, mas não sai do lugar.
Bem, agora imagine que precisamos escrever para um amigo em Marte, que talvez queira nos visitar em 2027 e quer saber quem será o nosso líder. Temos apenas seis linhas.
Uma ideia:
"Na disputa presidencial, o presidente em exercício, outrora opositor da ideia de reeleição, disputa o seu quarto mandato. Seu principal adversário conhecido hoje é o filho do ex-presidente que recém tentou um golpe de estado, pelo qual foi julgado, condenado e está preso. O presidente em exercício também foi julgado, condenado e já esteve preso. Por ora, não há um terceiro nome. Sabe-se que há pretendentes e preparativos, mas o carnaval já passou e nada."
Em Marte eles podem perguntar o que vai acontecer com a economia. É mais complicado.
Algumas ideias para começar a conversa:
Por estranho que pareça, os polos se parecem em alguns dos grandes temas da economia, sobretudo no quesito hesitação. O governo petista é de um esquerdismo tolo e diluído na economia, e o mesmo pode ser dito para o bolsonarismo acerca de sua suposta fé no livre mercado. Mais ainda, depois da lei do Banco Central independente, a política monetária ficou quase que imune à polarização. Mantidas as metas para a inflação, simplesmente não há diferença.
Os polos ficaram parecidos também, curiosamente nas privatizações: ambos trabalhando discretamente com as concessões na infraestrutura, ainda que sem coragem de mexer em feridas como os Correios ou a Casa da Moeda.
Nos assuntos fiscais, ambos apregoam o equilíbrio fiscal, cada qual com suas nuances, mas com resultados duvidosos. O "teto de gastos" foi substituído pelo "arcabouço fiscal", mas o sinal mais evidente da fragilidade dessa solução é a taxa de juros.
Não houve fôlego nem vontade política para uma solução para o problema fiscal pela direita (via corte de gastos) nem pela esquerda (via aumento de impostos). A solução adotada é a de sempre, tributar o ausente, as futuras gerações através de acumulação de dívida.
O problema com essa solução (pela omissão) é que os nossos netos estão cobrando cada vez mais caro.