‘Não construo onde não moraria’
Entrevista
Entrevista
Criada em uma fazenda do Rio Grande do Sul e formada em Direito, Cíntia Pereira trocou o sonho de ser juíza pela construção civil ainda muito jovem. Ao perceber a ausência de grandes incorporadoras no interior gaúcho, começou a investir o que ganhava como advogada em terrenos para erguer pequenos prédios residenciais e revendê-los. Com o apoio de uma grande consultoria de negócios, ampliou a escala de sua empresa ao se mudar para Santa Catarina, que vive um boom imobiliário, há dez anos.
Ela fundou e lidera o Grupo CBA, conhecido pelos empreendimentos imobiliários de alto padrão com a marca CBA e imóveis para a classe média com a Viva Corp. Adepta de edifícios mais baixos e integrados ao verde, encontrou em Florianópolis o ambiente ideal para investir em um modelo distinto dos arranha-céus de Balneário Camboriú. No fim do ano passado, Cíntia liderava quase 600 pessoas em dez canteiros de obra. Em entrevista ao GLOBO, a fundadora do grupo diz que o interesse de estrangeiros por imóveis na ilha tem impacto maior sobre o setor que o atual patamar elevado dos juros.
Como nasceu a CBA e o que é a empresa hoje?
Comecei a advogar no interior do estado. E meu pai sempre me incentivava a aplicar o que ganhava no agro, mas a construção civil sempre me instigou. Analisava que o agro é forte poque todo mundo tem que comer, mas também precisa morar. E, quando estudava Direito, a parte de incorporação me atraía. Eu via que as grandes incorporadoras não iam para o interior, havia uma demanda reprimida. Comecei a estudar o setor e resolvi investir meu próprio dinheiro, no início. Comprei meu primeiro terreno em Cachoeira do Sul (RS), contratei uma arquiteta e construí nove apartamentos. Não parei mais. Hoje, temos em andamento quatro canteiros de obras da CBA e seis da Viva Corp. Em 2025, lançamos sete empreendimentos. Em 2026, serão oito. E, em 2027, lançaremos nove. Crescemos 100% consolidados em 2025. Até 2027, vamos crescer 300%, com foco na consolidação em Santa Catarina.
Como e por que resolveu mudar os planos para SC?
Um dos consultores me falou: "para essa velocidade (de crescimento) que tu queres, tens que ir para uma capital". Florianópolis era perfeita porque, apesar de ser uma capital, ainda tem uma cultura provinciana, todo mundo se conhece, a qualidade de vida é muito boa, eu me identifiquei. Trouxe toda a família para morar aqui, em Jurerê. Comecei a analisar o mercado e vi aqui uma alta demanda por um produto com arquitetura renomada, cuidado e gentileza urbana. Isso aqui é uma ilha. O plano diretor demorou a ser aprovado. Aqui não se pode construir arranha-céus, há um limite. Isso criou um desejo para além do Brasil. Jurerê Internacional é conhecida no mundo todo, atrai muitos estrangeiros, mas consegui enxergar isso há dez anos.
Além do câmbio favorável , o que atrai estrangeiros para a compra de imóveis em SC?
A clientela da CBA é a pluralidade. Vendemos para russo, português. Portugal está vindo em peso. Num lançamento, vendi, pelo celular, dois apartamentos duplex para um americano. O câmbio está facilitando, mas não é só isso. Jurerê sempre vendeu para o público internacional. É a combinação de beleza natural com segurança, a qualidade de vida abraçada pela natureza. E é um bom investimento: como Florianópolis é uma ilha, o espaço é escasso. Isso gera uma valorização imobiliária absurda. Em um ano, o valor de um terreno dobra porque não há muitos.
Quando se fala do setor em SC, logo se pensa nas torres de Balneário Camboriú. Qual é a diferença de Florianópolis?
Admiro Balneário Camboriú, é um case de sucesso. Conseguiu se vender para o pessoal do agro, conseguiu comunicar que ali é a nossa Dubai brasileira. Mas eu me identifiquei com os valores de Florianópolis, o cuidado para não ter um crescimento desorganizado. A natureza é um fator importante para os empreendimentos. Aqui, o nosso plano diretor agora é assim: tu podes subir, mas há um limite em número de andares. Os empresários do setor são unidos por um crescimento sustentável, com olhar para gentilezas urbanas.
O poder público deveria ter papel maior na definição dos projetos arquitetônicos?
O poder público não tem braço hoje para isso. São tantas demandas... Cabe ao empresário fazer bem-feito e bonito.
O que é bem-estar num empreendimento imobiliário?
O bem-estar para mim hoje é ter tudo ali em termos de serviços de alto padrão. Além disso, ter qualidade em cada detalhe da moradia. Gosto de arquitetura que agregue o verde. Prezo muito por iluminação. Ainda sou aquela do interior que insiste para ter banheiros com ventilação natural. Não construo nada onde eu não moraria. No nosso novo empreendimento pé na areia, teremos uma estrutura de comércio e serviço na qual o morador pode chegar e dizer: "Quero a minha cadeira, meu guarda-sol, meu chope, minha batata frita", e será servido. Volta, toma a ducha, sobe para o apartamento e olha para aquele paraíso. Isso é viver bem.
Como os juros altos afetam?
Santa Catarina é um mercado pujante, é a bolha da bolha do momento. Efeitos macro respingam aqui? Respingam, mas de forma mais leve. Não sentimos tanto. Lançamos e vendemos tudo, mas com estruturação junto aos bancos. Acabamos de fazer um lançamento em Biguaçu (SC) e vendemos 158 unidades numa manhã. Se baixa a Selic (taxa básica de juros, hoje em 15% ao ano), talvez aumente um pouco a velocidade de vendas.
A falta de mão de obra é um gargalo frequentemente citado pela construção civil. Como lida com isso?
Trouxe uma gauchada para morar aqui, lá do interior do Rio Grande do Sul, quase 80 famílias. Temos uma equipe própria de obra, um híbrido. As cabeças, como engenheiro, mestre de obra, almoxarifado, são nossas. Terceirizamos algumas coisas, como instalador de piso, pintor, fiscalização. Começamos a industrializar em parte, com as lajes pré-moldadas. Desenvolvemos um sistema de laje própria, com a UFRGS, no próprio canteiro. Montamos o apartamento no chão. As lajes são mais baixas, já com toda a tubulação elétrica e hidráulica. Baixamos esse processo de dez para três dias. Mas nós entendemos que o processo da construção civil ainda é muito manual, o que garante aquela coisa bem-feita. Então vamos aos poucos na industrialização.
Cíntia Pereira / presidente da CBA