Lunes, 23 de Febrero de 2026

‘Profissionais de tecnologia devem ler história e filosofia’

BrasilO Globo, Brasil 23 de febrero de 2026

Entrevista

Entrevista
Com 38 anos de Samsung Electronics " da divisão de pesquisa e desenvolvimento a CEO, tendo deixado o grupo em 2022 ", Koh Dongjin, hoje parlamentar na Coreia do Sul, afirma que no cenário atual uma empresa precisa criar condições para que seus funcionários possam crescer de forma contínua, com oportunidades justas e critérios claros de reconhecimento, como forma de reter talentos. E dá a dica para perseverar no mercado de trabalho diante dos avanços da inteligência artificial, alertando que profissionais que investirem em capacidades humanas estarão mais bem posicionados para prosperar.
De família pobre, o sul-coreano relata em "Construa uma carreira de sucesso " como crescer e empreender dentro de empresas", da HarperCollins Brasil, como "uma pessoa comum se tornou CEO da Samsung". Ao longo do livro, revisita decisões estratégicas, erros e aprendizados que marcaram sua trajetória corporativa. A pesada rotina de trabalho, de poucas horas livres dedicadas a avanços para a carreira, impulsionaram o executivo. Ele reconhece que isso custou o convívio com os filhos e a dedicação integral da mulher à família. Koh perdeu a audição de um ouvido. E enfrentou a crise do Galaxy Note 7, em 2016. Mas diz ter feito dos problemas oportunidade.
Com funcionários mais jovens nas equipes, há conflito geracional nas empresas hoje?
A essência do conflito não está nas gerações em si, mas nos métodos de comunicação. A chave para resolver conflitos é que os líderes baixem sua perspectiva e se aproximem dos membros da equipe. Apenas ouvi-los já é suficiente para conquistar seus corações. A confiança é construída por meio de comunicação genuína, não por interferência. As organizações crescem mais rápido quando evitam criar silos e cooperam entre si. O conflito geracional não é fraqueza, mas pode ser uma força motriz para a evolução organizacional, se administrado.
A qualidade da mão de obra piorou? É preciso investir mais em treinamento dos novos contratados?
Não acredito que o nível de competência da força de trabalho atual tenha diminuído. As competências e habilidades necessárias apenas mudaram com o tempo. A adaptabilidade digital e a capacidade de utilizar tecnologia são maiores do que no passado. Eles têm a força de absorver rapidamente novas ferramentas e tecnologias. Hoje, mudanças enormes acontecem diariamente. Para acompanhar essa mudança exponencial, acredito que mais investimento em educação e treinamento seja necessário para formar talentos exponenciais. O tipo de educação e treinamento que uma empresa projeta determinará sua competitividade futura. No entanto, em comparação com 20 ou 30 anos atrás, o nível de renda nacional melhorou e famílias com apenas um ou dois filhos se tornaram comuns. Essa geração não vivenciou fome, escassez ou privação, e pode carecer de um senso de urgência. Em outras palavras, pode ser definida como uma geração com menor resiliência mental média, e esforços para compensar isso precisam ser feitos.
Que lições a crise do Galaxy Note 7 deixou em imagem de marca e foco no consumidor?
Para resolver o incidente do Note 7, abordei a situação com a determinação de analisar a causa de forma transparente e assumir toda a responsabilidade. Considerei as opiniões dos funcionários e decidi por um recall. A comunicação transparente com os funcionários, a tomada rápida de decisões priorizando a segurança do consumidor e uma política de compensação centrada no cliente minimizaram a perda de confiança na marca. Isso transformou a crise em oportunidade, criando a base para que o GalaxyNote 8 fosse bem recebido pelos consumidores. Diante de uma crise, um líder deve pensar apenas nos funcionários e no futuro da empresa, e decidir com base nisso.
Com o advento da IA, que profissionais se destacarão no mercado no futuro?
A IA já está trazendo mudanças em previsão do tempo, robótica, exploração espacial, biotecnologia, medicina, agricultura e educação, afetando diversos setores. Em especial, acredito que os campos tecnológicos que trarão as maiores inovações no futuro são veículos autônomos e robótica, definidos como IA Física. Na era da AGI, pessoas que criam IA, pessoas que usam bem a IA, pessoas que fazem coisas que a IA não consegue se destacarão. Estão entre os exemplos especialistas em tecnologia baseados em IA e robótica; profissionais de convergência (médicos, professores, designers etc.) que maximizam eficiência e produtividade usando ferramentas de IA; profissionais das humanidades, filosofia e áreas criativas, que exigem a capacidade de compreender pessoas, sociedade, valores e cultura " algo difícil de ser substituído pela IA.
Formação humanística ajuda a lidar com IA?
A era em que a IA substitui empregos humanos está se aproximando. Portanto, devemos desenvolver habilidades diferenciadas que a IA não consegue desempenhar. No trabalho, são necessárias a capacidade de ver o quadro geral e sugerir direções, e a habilidade de combinar informações diversas e estruturá-las em pensamentos próprios. Essas capacidades são cultivadas por meio da reflexão e de experiências. Recomendo que profissionais de engenharia e tecnologia que estudam tecnologia para prever tendências também leiam livros de história, civilização humana e filosofia. Quando a perspectiva se amplia, constrói-se força interior para multitarefas, além da capacidade de extrair o essencial e prever tendências.
Koh Dongjin / ex-CEO da Samsung
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