Queda brusca da natalidade pressiona setor de serviços e transforma dia a dia de países
era do envelhecimento
era do envelhecimento
Na Coreia do Sul, em muitas regiões fora da capital, Seul, crianças se tornaram raras nas ruas. Em 2023, enquanto a taxa global de fecundidade ficou em 2,3 filhos por mulher " próxima do nível de reposição populacional, estimado em 2,1 " o país asiático registrava menos de um filho por mulher. No mesmo ano, a vila litorânea de Iwon-myeon, na província de Chungcheong do Sul, registrou apenas um nascimento. Um relatório recente do Instituto Coreano de Cuidado Infantil e Educação levanta preocupações sobre o futuro das creches no país, onde a taxa de fecundidade é de 0,7 (a menor de qualquer nação do mundo). Segundo o estudo, o rápido declínio demográfico pode levar ao fechamento de cerca de um terço dessas instituições até 2028.
Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, a conjuntura demográfica da Coreia do Sul é um prenúncio dos impactos práticos que o mundo, sobretudo o Leste Asiático e a Europa, cada vez mais vai enfrentar com a flagrante queda da taxa de fertilidade " um fenômeno que já obriga países a repensarem não só suas economias, mas o funcionamento cotidiano da sociedade.
Entre 2000 e 2025, as taxas de fertilidade diminuíram em todas as regiões do mundo definidas pela ONU. A taxa de fertilidade, definida como a quantidade de filhos que uma mulher terá em sua vida reprodutiva, tem impacto direto na taxa de natalidade, que mede o crescimento da população. Por isso, nos próximos 25 anos, segundo um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Leste Asiático, a Europa e a Rússia experimentarão declínios populacionais significativos. Prevê-se que, até 2100, 97% dos países do mundo estarão abaixo do nível de reposição populacional, segundo o Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados.
menos bem-estar social
Estudos indicam que os primeiros efeitos do declínio populacional tendem a ser sociais, antes mesmo dos econômicos. Em 2023, por exemplo, havia 28.954 creches em operação na Coreia do Sul " queda de 6,8% em relação a 2022. Ao mesmo tempo, de acordo com o Ministério da Saúde e Bem-Estar, o número de equipamentos voltados ao cuidado para idosos subiu de 89.698 (2022) para 93.056 (2023), uma alta de 3,7%.
Ao GLOBO, Jeongmin Kim, jornalista sul-coreana especializada em política, sociedade e gênero e diretora editorial do site Korea Pro, disse que o colapso da natalidade já provoca mudanças concretas na organização das cidades, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, onde estruturas voltadas à infância vêm sendo reduzidas ou reaproveitadas para atender a uma população cada vez mais envelhecida.
" Em algumas regiões, o tamanho reduzido das turmas levou escolas a fundir classes, planejando consolidação, em vez de expansão. Em áreas rurais, há escolas que foram reaproveitadas como asilos " contou a jornalista. " A Coreia do Sul está se adaptando a uma sociedade envelhecida, mas de forma fragmentada e reativa. E isso já se reflete no cotidiano urbano, com a expansão de serviços voltados a idosos e de infraestrutura de cuidado.
No Japão, em 2024, o número de nascimentos ficou abaixo de 700 mil pela primeira vez na História, segundo o Ministério da Saúde. O então primeiro-ministro Shigeru Ishiba classificou a queda, a 16ª consecutiva, como uma "emergência silenciosa" e prometeu medidas pró-natalistas, como creches gratuitas. No país, que é o mais envelhecido do mundo, cerca de 450 escolas fecham por ano desde 2002 devido à falta de alunos, de acordo com o governo.
Para o demógrafo Stuart Gietel-Basten, professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong e especialista em envelhecimento populacional da Ásia, o declínio demográfico se manifesta menos como um colapso súbito e mais como um esvaziamento progressivo do cotidiano.
" Ônibus passam com menos frequência porque há menos passageiros, lojas fecham porque há menos consumidores. Isso cria um círculo de retroalimentação negativa: esses lugares se tornam mais difíceis de viver, inclusive para os próprios idosos, e ainda menos atraentes para os jovens " afirmou Gietel-Basten, em entrevista ao GLOBO. " É um processo gradual, mas profundamente transformador. Não é um evento isolado, representa uma mudança estrutural da sociedade.
Alerta para o mundo
Um estudo realizado em 295 cidades da Finlândia por Anna Rotkirch, diretora do Instituto de Pesquisa Populacional Vaestoliitto e professora da Universidade de Helsinque, mostrou que áreas com queda contínua da população apresentam níveis significativamente mais baixos de bem-estar social e apoio comunitário.
" A baixa fecundidade provavelmente vai acelerar a perda de diversidade cultural e linguística. Não há necessidade de pânico, mas também não adianta enfiar a cabeça na areia ou achar que os desafios da queda da natalidade desaparecerão apenas com ajustes no sistema previdenciário " afirmou Rotkirch ao GLOBO.
Além disso, segundo dados apresentados pela demógrafa, mais da metade dos jardins de infância do país fecharam desde o ano 2000: de cerca de 4 mil unidades à época, restam hoje aproximadamente 1.975.
O declínio populacional, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ameaça o patrimônio cultural da Europa, as línguas, a culinária, o artesanato, as tradições e até mesmo a segurança nacional. Houve apenas 3,6 milhões de nascimentos nos países da União Europeia em 2024, de acordo com o Eurostat, o menor número já registrado.
O Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME) da Universidade de Washington estima que, até 2050, mais de três quartos dos países terão queda na taxa de natalidade. Austin Schumacher, professor do IHME, assegura que o declínio da fecundidade altera rapidamente o equilíbrio entre gerações e impõe pressões concretas sobre os serviços da sociedade.
" À medida que a população em idade ativa diminui e o número de idosos aumenta, as pressões mais imediatas incluem a sobrecarga dos sistemas de saúde, já que populações mais velhas demandam mais cuidados médicos, elevando custos e a necessidade de serviços geriátricos " explica Schumacher.
Foco na adaptação
Os especialistas ouvidos pelo GLOBO veem com ceticismo a insistência em "fazer a população voltar a crescer" com medidas pró-natalistas. Segundo Cho Youngtae, diretor do Centro de Pesquisa em Política Populacional da Universidade Nacional de Seul, o foco deveria estar na adaptação.
" As medidas de mitigação, voltadas a elevar rapidamente a taxa de natalidade, tendem a fracassar. O que precisamos são políticas de adaptação que ajustem a ordem social a uma população menor, ou até políticas de planejamento que desenhem um novo sistema social desde o início " afirma Youngtae.
Schumacher explica que países que reconheceram a mudança com antecedência têm conseguido responder de forma mais consistente.
" Alemanha e Holanda apostam em automação e qualificação da força de trabalho para compensar a redução de trabalhadores; os países nórdicos combinam políticas sociais com equilíbrio entre trabalho e vida pessoal; e cidades como Copenhague e Viena adaptam o planejamento urbano ao envelhecimento " elencou o professor.
Em 1950, a taxa de fecundidade global era de quase 5 filhos por mulher, o que, combinado à queda da mortalidade, fez a população mundial mais que dobrar na segunda metade do século XX, passando de 2,5 bilhões para 6,2 bilhões de pessoas em 2000, segundo a ONU. Hoje, o cenário se inverte: a taxa global está em 2,24 e deve cair abaixo do nível de reposição (2,1) por volta de 2040.
" O ponto central é entender que não adianta ter medo do declínio populacional. Ele já está acontecendo. A questão é como adaptar-se a essa nova realidade " conclui o demógrafo Gietel-Basten.