Jueves, 26 de Febrero de 2026

Pão de açúcar vai renegociar contratos e frear investimentos

BrasilO Globo, Brasil 26 de febrero de 2026

Renegociar contratos com credores, frear investimentos, desfazer-se de imóveis e até ...

Renegociar contratos com credores, frear investimentos, desfazer-se de imóveis e até reduzir o sortimento de produtos em algumas lojas estão entre as estratégias previstas pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA) para os próximos meses, dadas as "condições que indicam incerteza (...) sobre a continuidade operacional da companhia", como informou o grupo em seu balanço anual de 2025. Como reflexo, as ações da companhia registraram ontem queda de 2,24%, negociadas a R$ 3,06, e uma retração de 1,9% em valor de mercado, para R$ 1,5 bilhão. No acumulado deste ano, a empresa teve queda de 19,35% em valor de mercado.
Dono das redes Pão de Açúcar e Extra, o grupo teve prejuízo de R$ 523 milhões entre outubro e dezembro, uma redução de 29% na comparação com o mesmo período de 2024. Em todo o ano de 2025, as perdas foram de R$ 651 milhões, um recuo de 61%.
Ainda assim, o capital circulante líquido da empresa está negativo em R$ 1,22 bilhão, principalmente por empréstimos e debêntures (título de dívida) que vencem em 2026 e somam R$ 1,7 bilhão. Ou seja: no curto prazo, o GPA tem mais dívidas a pagar do que recursos disponíveis.
Fontes a par da situação do GPA observam que não houve nenhuma mudança material neste último balanço em relação ao tamanho dos passivos da empresa. O que mudou na nota explicativa, um procedimento contábil habitual, foi o enquadramento do volume de passivo de curto prazo por conta das dívidas que vencem este ano. O ativo circulante fica menor e gera um déficit, que já existia em 2024, mas se acentua em 2025.
"Apesar de melhora nos principais indicadores operacionais, a companhia continua apurando prejuízo. Estas condições indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa sobre a continuidade operacional da companhia", diz nota explicativa sobre os resultados do GPA.
Em teleconferência com analistas, o CEO do GPA, Alexandre Santoro, lembrou que, no ano passado, a companhia divulgou um plano de melhoria de eficiência, e que as iniciativas devem ser ampliadas.
Entre as ações previstas, ele destacou que o GPA tem vendido imóveis em locais onde as lojas já não estavam mais em operação, e descartou investimentos que não sejam de manutenção. Na comparação com 2025, os investimentos caíram pela metade, de cerca de R$ 700 milhões para algo em torno de R$ 350 milhões previstos para 2026.
" Tudo que for projeto de tecnologia e expansão não vai acontecer " afirmou o executivo. " Estamos revisando todas as despesas, como prestação de serviços, tecnologia, aluguéis. Ou cancelando contratos que não fazem sentido ou reduzindo e alterando escopo para torná-los mais aderentes à realidade do negócio.
Cardápio menor nas lojas
Outra iniciativa tomada pelo GPA para conter despesas, segundo o CEO, é a redução no mix de produtos vendidos nas lojas de proximidade Minuto Pão de Açúcar e Mini Extra. Esses minimercados têm estoque reduzido, o que aumenta os custos logísticos, dada a necessidade de maior frequência de entregas:
" Estamos fazendo testes . É um abastecimento muito fracionado. Em algumas lojas estamos reduzindo substancialmente a quantidade de itens vendidos.
A empresa prevê a venda da participação na FIC, financeira que tem como sócios Itaú, Casas Bahia e Assaí. A operação, diz a companhia, pode gerar receita de R$ 260 milhões.
" Estamos em processo de negociação de um novo contrato de serviços financeiros nos balcões do GPA, que poderá gerar valor adicional no curto prazo, além de uma receita recorrente com potencial superior à estrutura que tínhamos anteriormente " previu Rodrigo Manso, diretor de Relações com Investidores.
Analistas consultados pelo GLOBO afirmam que a operação da empresa melhorou no quarto trimestre, mas o GPA não consegue gerar caixa, após os pagamentos financeiros. E, com prejuízos contínuos, além de juros altos, há limitação para lidar com o endividamento de curto prazo. Esse "risco operacional" citado no balanço não é resultado de apenas um trimestre, mas de decisões tomadas no passado, segundo os analistas.
O próprio Santoro disse durante a teleconferência que uma empresa desse porte "não pode permanecer anos sem gerar caixa" e que decisões tomadas no passado estavam desconectadas da realidade. O executivo afirmou que há um problema estrutural e até cultural na companhia. O último controlador do GPA foi o grupo francês Casino, que tem 22,5% do GPA. No ano passado, a família mineira Coelho Diniz tornou-se a controladora com 24,6% das ações.
Analistas avaliam que o GPA precisa negociar com credores para alongar prazos, reduzir ainda mais as despesas e monetizar créditos tributários. É essa reestruturação financeira que o CEO disse que quer abordar com o apoio do Conselho de Administração.
O GPA já vinha passando por um processo de reestruturação desde 2021, focado em vender ativos não essenciais, para reduzir endividamento e simplificar a operação. Vendeu 71 pontos comerciais do Extra Hiper para o Assaí, negociou a participação no Grupo Éxito, da Colômbia, além de se desfazer de imóveis e postos, arrecadando mais de R$ 1,5 bilhão neste processo.
" O GPA precisa de uma mudança operacional, com ganho em eficiência, recuperação de margens, controle de risco e despesas. Se a Selic começar a cair, há melhora no custo financeiro e do consumo das famílias. Mas o consumidor está cada vez mais migrando para o serviço de atacarejo " diz Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos, que avalia que sem desalavancagem, melhoria das margens e fluxo de caixa positivo, o mercado deve continuar descontando o preço da ação.
Em relatório, analistas da XP avaliam que a companhia avançou em eficiência e margens, mas não resolveu o gargalo da geração de caixa após o pagamento dos custos financeiros.
Pessoa próxima ao grupo garante que têm sido adotadas iniciativas complementares de geração de caixa para melhorar a liquidez, dados os vencimentos que têm de ser pagos este ano. Entre as medidas, estão negociações para alongar prazos de dívidas, redução do custo e de despesas. As ações, diz a fonte, ocorrem em paralelo à evolução de indicadores operacionais, com geração positiva de caixa operacional e redução do prejuízo em relação ao exercício anterior. Procurado, o GPA não comentou. (Colaborou Roberto Malfacini Jr.)
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