‘Carro voador’ vai se tornar realidade em dubai este ano
A promessa de "apertar um botão e voar", que permeia o imaginário da ficção científica há ...
A promessa de "apertar um botão e voar", que permeia o imaginário da ficção científica há décadas, ganhou uma data oficial para deixar as telas de cinema e entrar na tela do celular. Em evento realizado em Dubai, a Uber e a fabricante americana Joby Aviation confirmaram o início das operações comerciais de seus táxis aéreos elétricos (eVTOLs) na cidade árabe nos próximos meses.
O projeto, apresentado por Sarfraz Maredia, chefe global de mobilidade autônoma da Uber, tenta afastar o ceticismo que ronda o setor.
" Imagine uma empresa como os Jetsons, onde a aeronave pode decolar verticalmente... Isso não é mais teórico " disse Maredia.
A proposta é integrar a jornada no aplicativo: um carro busca o passageiro, leva até um vertiporto, ele voa sobre o trânsito e outro carro o aguarda no destino final.
O principal fator é o tempo. Durante a apresentação, a Uber detalhou um trajeto clássico em Dubai que, no horário de pico, consome até 1 hora e 20 minutos de carro. Pelo ar, a bordo do eVTOL, o mesmo percurso foi de apenas 11 minutos. É essa eficiência radical que a empresa espera vender para justificar o preço, ainda não revelado, mas que deve orbitar os valores do Uber Black nesta fase inicial.
No entanto, por trás do deslumbramento tecnológico e da promessa de aeronaves "100 vezes mais silenciosas que um helicóptero", restam dúvidas estruturais sobre como esse modelo de negócio vai ficar de pé em países como o Brasil " e se ele será, de fato, uma solução de massa ou um novo artigo de luxo para a elite global fugir do engarrafamento.
Luxo de sedã e silêncio
A aeronave da Joby, projetada para acomodar quatro passageiros e um piloto, busca se distanciar da experiência utilitária e barulhenta dos helicópteros tradicionais. O interior remete a um carro de luxo, com acabamento refinado e janelas panorâmicas, desenhado para transmitir a familiaridade de um táxi executivo, não de uma operação de guerra.
O diferencial técnico mais alardeado, porém, é o conforto acústico. A aeronave é elétrica e promete ser 100 vezes mais silenciosa que um helicóptero convencional durante a decolagem e o pouso. Na prática, isso permite que os passageiros conversem na cabine sem a necessidade de fones de ouvido com cancelamento de ruído.
Anthony El-Khoury, executivo da Joby Aviation nos Emirados Árabes, explicou ao GLOBO que, embora a operação comercial comece em Dubai devido à parceria com o governo local, a escala global depende do crivo rigoroso da FAA, a agência de aviação civil dos Estados Unidos.
Segundo El-Khoury, a empresa está atualmente no quinto e último estágio da "certificação de tipo" da aeronave, um processo que ele descreve como a principal barreira atual antes da produção em massa:
" Trabalhamos lado a lado com a FAA há anos para certificar a aeronave para operação comercial. A FAA segue regras extremamente rigorosas de segurança, e o processo é oneroso e longo. Enviamos muitos dados, e agora estamos aguardando a devolução e revisão por parte deles. A realidade é que a maior parte dos testes já foi feita, agora é muito mais sobre validar esses resultados para garantir a segurança absoluta.
A demonstração em Dubai focou na simplicidade. Sachin Kansal, chefe de Produtos da Uber, descreveu o aplicativo como um "controle remoto" da viagem. Ao selecionar o trajeto, o usuário verá a opção Uber Air ao lado do Uber Black ou X. A ideia é eliminar a complexidade atual de fretar um helicóptero.
" Você deve ser capaz de apertar um botão a qualquer hora do dia e conseguir uma viagem segura e confiável " disse Kansal.
O preço da conveniência não foi revelado, embora a Uber defenda que o valor estará abaixo da média registrada em voos de helicóptero. A dificuldade para cumprir a promessa é grande, já que a operação de eVTOLs envolve custos altos para certificação aeronáutica, baterias de alta densidade e infraestrutura de solo.
São Paulo e Embraer
Especialistas do setor apontam que, a curto e médio prazos, o serviço deve competir em preço com voos de helicóptero executivo, permanecendo inacessível por algum tempo para a vasta maioria de quem sofre no trânsito.
Trazer essa realidade para o Brasil impõe desafios ainda maiores do que nas planejadas cidades dos Emirados Árabes. Diferentemente de Dubai, onde o espaço aéreo e a infraestrutura crescem de forma estruturada e com pesado subsídio estatal, metrópoles como Rio e São Paulo enfrentam saturação. Para a Joby, porém, o país é um passo lógico na expansão.
" Onde já existe infraestrutura e o hábito do transporte por helicóptero? Europa, Japão e, definitivamente, o Brasil " disse El-Khoury.
Ele confirmou que a infraestrutura necessária não exige necessariamente a construção de novos "aeroportos futuristas". Segundo El-Khoury, os helipontos existentes em cidades como São Paulo " que tem a maior frota de helicópteros urbanos do mundo " podem ser adaptados com mudanças regulatórias mínimas, focadas em marcações de solo, combate a incêndio e, claro, eletrificação para recarga.
Além disso, a Uber não navega sozinha neste céu. A principal concorrente global da Joby é a Eve Air Mobility, subsidiária da brasileira Embraer. Com uma carteira de encomendas que supera 2.900 veículos e experiência de trânsito regulatório junto aos órgãos reguladores do país, a Eve tem a vantagem do "fator local" e da expertise industrial da Embraer para escalar a produção " algo que startups como Joby, Archer, Lilium e Wisk ainda precisam provar.
A Uber aposta que sua base de 150 milhões de usuários mensais fará a conta fechar, com demanda constante. Afinal, diz Maredia, se o eVTOL ficar parado no chão carregando por muito tempo ou sem passageiro, o modelo de negócio quebra.
Para o mercado, o anúncio em Dubai é um marco simbólico: a materialização de uma promessa de décadas. Mas, para as metrópoles globais, é o início de uma batalha econômica para provar se os "carros voadores" serão o transporte público do futuro ou apenas a versão elétrica, silenciosa e mais rápida para quem pode pagar para não ficar parado no trânsito.
*O repórter viajou a convite da Uber