Embaixador do brasil no irã alerta para risco de guerra civil
Uma das principais preocupações do governo brasileiro após os ataques dos Estados Unidos e ...
Uma das principais preocupações do governo brasileiro após os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã é quem vai exercer o poder em um regime sustentado pela Guarda Revolucionária e por Forças Armadas que não dão sinais de dissolução. Essa foi a avaliação do embaixador do Brasil em Teerã, André Veras, que relatou ao GLOBO o clima no país e enfatizou que "as bombas assustam, mas minha preocupação maior é o vácuo que isso vai deixar". Veras teme que o Irã acabe sendo cenário de uma guerra civil, como aconteceu no Iraque, após a invasão dos EUA.
Em sua análise da situação, uma das incógnitas é saber o que acontecerá com lideranças da Guarda Revolucionária que não quiserem entregar as armas, recusando a oferta de "tratamento digno" do presidente americano, Donald Trump, a todos os que se entregarem.
" E os que não quiserem entregar as armas? E os mais ideológicos? Quem vai tirá-los? A gente lembra do Iraque, quando decidiram acabar com o Partido Baath e impedir que seus integrantes trabalhassem para o Estado. Eram pessoas armadas. O resultado foi guerra civil. Foi um desastre. Eu vejo o risco de que estejam levando a sociedade iraniana a uma situação de possível guerra interna, de dissolução, algo que Israel deseja: um Irã enfraquecido na região.
Desfecho complexo
Em Brasília, o assessor internacional da Presidência, embaixador Celso Amorim, classificou como "totalmente condenável" e "inaceitável" a morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, nos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã. Para ele, a ação representa um precedente grave nas relações internacionais. Amorim também avaliou que a morte de Khamenei tende a prolongar a instabilidade no país. Para o chefe da assessoria internacional de Lula, o cenário é complexo e não terá desfecho simples:
" É algo duradouro, não sei exatamente que direção isso vai tomar, mas não será uma questão simples.
Na noite de sábado, o governo se solidarizou em nota oficial com países do Golfo atingidos por ataques retaliatórios do Irã e manifestou "profunda preocupação" com a escalada de hostilidades na região, horas após condenar os ataques realizados em 28 de fevereiro por EUA e Israel contra alvos iranianos. O Itamaraty afirmou que a situação representa "grave ameaça à paz e à segurança internacionais, com potenciais impactos humanitários e econômicos de amplo alcance".
Na capital iraniana, comentou o embaixador do Brasil no Irã, "ocorrem ataques direcionados a certos objetivos específicos. O presidente americano disse que atacaria a estrutura do Estado para "devolver o Estado aos iranianos". "Então estão atacando unidades do Exército, unidades da Guarda Revolucionária, estruturas do Estado iraniano".
" As bombas assustam, claro, mas minha preocupação maior é o vácuo que isso vai deixar. Já anunciaram que mataram o líder supremo e outras lideranças. A questão é o que acontece depois. Quando os americanos pararem de bombardear, o que vem? " pergunta o embaixador brasileiro, e frisa:
" Minha preocupação é como vão retirar da Guarda Revolucionária o poder que ela tem no país.
Perguntado sobre a possibilidade de que os ataques americanos e israelenses levem ao fim do regime iraniano, Veras expressou dúvidas:
" O regime não acaba simplesmente matando o líder supremo. Um dos pilares é a Guarda Revolucionária, os Pasdaran, uma espécie de milícia informal. Esse grupo detém o poder, até mais forte que Exército, Marinha e Aeronáutica, que existem basicamente para proteger o líder supremo e o regime. O Irã não tem histórico recente de oposição política organizada, porque essas forças foram sendo expurgadas ao longo do tempo.
As ruas da capital iraniana estão vazias, já que a polícia pediu que as pessoas ficassem em casa. "As pessoas não saem às ruas. Estão esperando para ver o que vai acontecer. A grande pergunta é: até quando vão os ataques e a quem será entregue o poder?", conclui o embaixador Veras.