Há 25 anos no rio, nachtergaele é pura paixão pelo ofício: ‘prefiro a cena à vida’
Uma dica para quem for trocar dois dedos de prosa com Matheus Nachtergaele, de 58 anos, paulista ...
Uma dica para quem for trocar dois dedos de prosa com Matheus Nachtergaele, de 58 anos, paulista da capital, mas que há 25 primaveras habita a mesma rua no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio: do trabalho, ele passa longe. Pois o querido artista brasileiro, um dos grandes nomes da nossa arte, refere-se aos seus projetos no palco, na TV, no cinema ou fora de cena como "ofícios". "Quando estou inativo, eu me sinto fora da vida", diz ele, em conversa com Nelson Lima Neto, da turma da coluna.
Sendo assim, depois de personagens consagrados na TV nos dois últimos anos, em "Renascer" e "Vale tudo", Nachtergaele está emendando, veja só, três filmes em poucos meses. Nos últimos dias, ele encerrou as gravações do longa-metragem "Cabras da peste 2 " Miami vixe", de Vitor Brandt, como o policial Trindade, dupla de Bruceuílis (Edmilson Filho), dando sequência à arretada franquia de humor.
"Eu tenho horror à palavra "trabalho". É por isso que eu sempre chamo minha arte de ofício, como os antigos chamavam. Trabalhar, para mim, é viver. Desde que me entendo, estar na vida é estar atuando, escrevendo ou pensando em projetos futuros. Eu acho, e nem sei se isso é bom, que eu prefiro a cena à vida", declara.
Sobre os próximos projetos, em abril o ator estará em São Luís, no Maranhão, fazendo "Nau de Urano", filme sobre a vida e a obra do poeta maranhense Nauro Machado, dirigido por seu filho, Frederico Machado. Nauro morreu em 2014, aos 80, e é considerado um dos mais talentosos poetas brasileiros, apesar de pouco conhecido. Em seguida, será a vez de rodar "Entre os dias", de Petrus Cariry, a ser filmado no Ceará. Nachtergaele será o patriarca que leva a família a se isolar em uma casa no meio da floresta. A narrativa opera como uma metáfora da ascensão da intolerância nos tempos atuais:
"A gente vive num momento em que o desenvolvimento de um homem, com H maiúsculo, que seja empático, que seja solidário, que seja terno, está sendo muito ameaçado pelas pulsões mais primitivas. Estamos imersos no desejo de poder, na violência da guerra, no capitalismo absoluto... e todas as fichas inventivas estão recaindo sobre a inteligência artificial. Meu personagem nesse filme será muito difícil. É um homem, filho do pior patriarcado violento possível. Acho que vai ser legal. Desafiador."
O Rio de Nachtergaele
A pedido da coluna, Matheus, que completou 25 anos com CEP na Cidade Maravilhosa, disse como enxerga o Rio de Janeiro atual e revelou, para inveja de muitos, seu lugar preferido na cidade:
"Poderia ter a impressão de estar há 25 anos longe de São Paulo, onde nasci, mas não me sinto assim. Acho que vou ficar aqui para sempre. Penso que o Rio é, dentro do Brasil, o lugar que mais caracteriza, de um jeito lindo e terrível, aquilo que nós somos. Todos os problemas do Brasil temos no Rio. E todas as belezas também. Meu ponto preferido é a janela do meu quarto, que, podem sentir inveja, é um luxo: eu vejo o Cristo da janela, assim como nas canções (foto menor)".
Um viva para o grande artista!