Comunicação de operações suspeitas envolvendo bets dispara
As comunicações de operações suspeitas envolvendo empresas de apostas on-line e loterias ...
As comunicações de operações suspeitas envolvendo empresas de apostas on-line e loterias dispararam em 2025, após a regulamentação do setor de bets. Dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que 27,6 mil comunicações relacionadas a loterias e apostas de cota fixa foram registradas no ano passado, um salto expressivo em relação a 2024, quando foram contabilizadas 928 ocorrências. Em 2023, o número foi de 1.157 registros e, em 2022, de 1.344.
O avanço coincide com a formalização das bets no país, que passou a valer em janeiro do ano passado. Com o marco, as empresas do setor passaram automaticamente a ser obrigadas a notificar o Coaf caso encontrem movimentações suspeitas.
Mesmo com o crescimento das comunicações, o órgão considera que o cerco à lavagem de dinheiro ainda é uma fragilidade no setor diante do alto número de bets ilegais. Para tentar mudar esse cenário, o Coaf tem prestado uma espécie de "consultoria" aos bancos para ajudar na identificação das contas das bets irregulares.
As bets passaram a ser legais no Brasil em 2018, mas a regulamentação do setor, que deveria ter sido feita até 2022, só foi realizada no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, entrando em vigor no ano passado. O longo período sem regras provocou um crescimento vertiginoso no mercado e agora dificulta o combate às empresas ilegais.
Para se regularizar, as plataformas precisam ter registro na Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, pagar uma outorga ao governo federal e devem seguir uma série de regras, como ter representação no país e o domínio bet.br. Estudos do mercado apontam que as empresas de apostas ilegais ainda são 40% do setor.
A SPA, responsável pela regulação e fiscalização, tem parceria com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para derrubar sites e tenta asfixiar o fluxo financeiro das bets irregulares por meio de sanções a bancos e fintechs. Em 2025, 54 instituições financeiras e de pagamentos fizeram 1.255 comunicações com indícios de atuação de operadores ilegais à Secretaria de Prêmios e Apostas. A análise das notificações resultou na identificação de 265 operadores ilegais e no encerramento de 550 contas bancárias. Mas a avaliação é que a fiscalização precisa ser mais rigorosa.
Empresas de prateleira
Nesse contexto, o Coaf está estruturando um trabalho preventivo com os bancos para aprimorar a identificação de contas vinculadas a plataformas de apostas. Muitas empresas não utilizam CNPJs explicitamente registrados como casas de apostas, mas operam sob outras classificações empresariais, o que dificulta o rastreamento automático pelas instituições financeiras. Segundo interlocutores a par do assunto, é comum o uso de CNPJ de firmas previamente criadas, as chamadas empresas de prateleira. Com isso, torna-se mais difícil identificar se aquele Cadastro é uma bet ou não.
Com isso, fontes do órgão afirmam que o Coaf tem prestado uma espécie de "consultoria" aos bancos sobre tipologias e padrões de movimentação que possam indicar a atuação de bets, já que parte das transações ainda não é identificada pelos sistemas tradicionais de controle. A ideia é que as instituições financeiras possam adotar medidas preventivas para fechar brechas para os criminosos.
Essa orientação acontecia com uma frequência irregular, mas agora a ideia é estruturar essa parceria, prevendo encontros regulares. A mesma estratégia tem sido utilizada com outros setores novos, como é o caso das fintechs e dos criptoativos. Em relação aos ativos virtuais, a regulação começou a valer no mês passado.
Maior volume de dados
Já no caso das fintechs, o problema é que parte delas passou anos sem obrigação de ter licença no Banco Central, o que também as desobrigava de prestar informações ao Coaf. Com o aumento de casos de uso das instituições pelo crime organizado, o órgão se envolveu diretamente no aperto das regras feito pelo Banco Central no ano passado. Agora, as fintechs têm até maio para pedirem autorização no BC.
Dessa forma, o Coaf prevê um período de acomodação para que o fluxo de informações de todo o setor chegue ao órgão. Mas já está desenvolvendo aprimoramentos no sistema para melhorar a qualidade da análise diante do crescimento de dados que deve ocorrer.
O Coaf é uma unidade de inteligência financeira, vinculada administrativamente ao governo federal, que atua principalmente na prevenção e no combate à lavagem de dinheiro. Não cabe ao órgão fazer juízo sobre as operações. O Coaf relata movimentações financeiras suspeitas de acordo com a lei e regras do mercado.
54
Instituições financeiras e de pagamentos
Esse foi o total das que relataram, em 2025, indícios de atuação de operadores ilegais
550
contas bancárias foram encerradas no ano passado
A partir da análise dos dados, a Secretaria de Prêmios e Apostas identificou 265 operadores ilegais